Sobre a falta de leitos: “Falha está na atenção primária”, diz Bailak

Reportagem: Marina Kessler

Fotos: Lorena Manarin

Todos os meses, 6,7 mil pacientes são atendidos nas UPAs (Unidades de Pronto-Atendimento) de Cascavel. Nem todos os casos que chegam até às unidades dos bairros Brasília e Veneza, e também na unidade de Pediatria, necessitam de leitos hospitalares, porém, quando a Central Estadual de Leitos precisa ser acionada por conta do agravamento do quadro clínico do paciente, a série de problemas se inicia.

Nas últimas semanas, vereadores da Câmara de Cascavel resolveram tomar partido da situação e fiscalizar o que realmente estava acontecendo nas UPAs. A constatação foi, entre outros problemas, a demora nas transferências aos leitos hospitalares. Um dos casos mais recentes foi verificado pelo edil Fernando Hallberg, que ao visitar a UPA Brasília se deparou com um homem de 86 anos, que há quase 20 dias esperava por um leito. O paciente, que foi vítima de um derrame pleural bilateral, só foi transferido depois da intervenção do vereador.

O presidente da Comissão de Saúde, o vereador Roberto Parra, afirma que a situação no município está bem complicada, principalmente por não haver leitos suficientes para internamento. “O prefeito Leonaldo Paranhos já levantou uma proposta de passar essas estruturas para PPPs (Parcerias Público-Privadas), mas se não há leito, pouco adianta. Precisamos responder aos familiares que nos procuram o que realmente acontece, e este é um questionamento que fazemos ao chefe da 10ª Regional de Saúde, Miroslau Bailak, para dizer onde estão os leitos”, relata. Na semana passada, o vereador foi a Curitiba e repassou o problema ao chefe da Casa Civil, Valdir Rossoni. Segundo Parra, Rossoni não tinha conhecimento desta situação.

Na sessão da Câmara de Vereadores de terça-feira (16), um dado preocupante veio à tona. Entre os anos de 2015 e 2016, 230 pessoas morreram aguardando transferências das UPAs para os hospitais em Cascavel. “O problema é mais grave do que falta de leitos, é má gerência e direcionamento. Às vezes há leitos, mas não são disponibilizados”, denuncia Parra.

 

Regional de Saúde afirma ter mais de mil leitos disponíveis

 Conforme o levantamento do Ipardes (Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social), com base em dados de 2015, Cascavel possui 981 leitos hospitalares pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e privados. A pesquisa considera leitos em ambientes hospitalares as camas destinadas à internação de um paciente no hospital. Os leitos de observação, no entanto, não são considerados como leito de hospital.

De acordo com o Instituto, a maior distribuição ocorre em leitos não SUS, que somam 494. Já a oferta dos leitos pelo SUS, que são totalmente gratuitos, chega a 487. Considerando os dois casos (privado e gratuito), são 482 leitos cirúrgicos, 310 clínicos, 80 obstétricos, 66 pediátricos, 22 hospital/dia e 21 destinados a outras especialidades.

Considerando os dados de 2016, os leitos hospitalares em Cascavel subiram para 1.078, conforme o chefe da 10ª Regional de Saúde de Cascavel. Destes, são liberadas mensalmente 3.087 AIHs (Autorizações de Internamento Hospitalar). E é neste ponto que os maiores problemas ocorrem, já que as cotas das AIHs, que são pagas pelo Ministério da Saúde, não podem ser extrapoladas. Caso haja essa necessidade, o excedente vai para a conta do hospital. “O Ministério só paga o que está determinado nas AIHs. Se houver excedente, ou arrumamos mais autorizações para este hospital ou não recebem”, explica Bailak.

Segundo ele, a expectativa é de que em 20 anos, o número de leitos hospitalares seja menor ainda, por conta de uma pública mundial da OMS (Organização Mundial da Saúde) em reduzir essas cotas e em contrapartida, melhorar o atendimento na atenção primária, que é de responsabilidade dos municípios. “Hoje, não tem atenção primária, não tem atenção básica, a falha está na atenção primária. O lugar adequado aos pacientes é na UBS [Unidade Básica de Saúde], antes de qualquer complicação. As cotas das AIHs não vão aumentar, e sim, diminuir em 7% ao longo dos anos”, diz Bailak.

 

 

 

117 mortes por ano

Todos os anos morrem em Cascavel uma média de 117 pacientes, seja nas UPAs ou nos hospitais públicos e privados. Este número, de acordo com Bailak, é o mesmo do que o de 2011, o que significa que, apesar de o município ter 40 mil habitantes a mais, o índice de mortalidade geral não subiu.

 

A situação das UPAs

A superlotação das UPAs de Cascavel é uma herança que a atual gestão tem de carregar. Há anos, centenas de pacientes enfrentam uma difícil situação quando dependem da saúde pública municipal.

Conforme a Secretaria Municipal de Saúde, há uma média de 30 leitos de observação longa nas UPAs Veneza e Brasília e 35 na UPA Pediatria. Os pedidos de atendimento são feitos através da Central Estadual de Leitos, que faz a busca de vagas nos hospitais da região. “As vagas são disponibilizadas via Central com código para cada paciente. O tempo de aguardo do pedido depende da patologia do paciente e gravidade. Os mais graves (com risco de vida) são encaminhados mais rapidamente demorando de horas a um ou dois dias. Os menos graves (sem risco de vida) em média de três a dez dias”, relata a secretaria.

 

Seis anos de espera

Aposentada por invalidez, Maria Aparecida de Miranda, de 57 anos, passou por uma cirurgia vascular em 2011 e até hoje espera uma consulta médica para avaliar seu procedimento. O retorno, que geralmente acontece dias após a cirurgia, há seis anos é esperado por Maria. “Minhas pernas doem, estão inchadas, não consigo andar direito”, diz. Ela, orientada por um advogado, disse que vai acionar o Ministério Público para resolver sua situação. “Já tentei de tudo. Vim na Câmara, na prefeitura, com todo mundo e não consigo marcar meu retorno”.

Para tentar evitar esses problemas, foi aprovado em segunda votação, na terça-feira (16), projeto de lei que trata da transparência nas listas da saúde, que ainda depende de sanção do prefeito Leonaldo Paranhos. Conforme o vereador Fernando Hallberg, o projeto prevê que seja disponibilizado, no Portal da Transparência de Cascavel, os nomes e o total de pessoas que esperam por consultas, exames, leitos hospitalares e cirurgia eletiva, separado por especialidade.

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