Órgãos e tecidos: Transplantes em Cascavel sobem 8% em quatro anos

Em julho de 2009, Silvana Liesenfeld, de 33 anos, recebeu um diagnóstico que mudou sua vida. Uma anemia plástica severa fez com que ela e sua família corressem contra o tempo em busca da cura. “Tinha uma vida normal. De repente, passo mal em meu trabalho e por orientação médica fiz um hemograma. No dia seguinte, quando o resultado saiu, o bioquímico pediu que fizesse novamente o exame para confirmar o diagnóstico. Naquele momento, não desconfiava de nada, até receber a notícia”, lembra Silvana.

Até que o segundo resultado saísse, Silvana se sentiu mal pela segunda vez e foi ao médico. Lá, foram vistas manchas roxas pelo corpo, principalmente nos braços, e a partir daí a luta era contra o tempo. “Não sentia nada, mas como minhas plaquetas estavam muito abaixo do normal – 4,5 mil das estimadas 140 mil plaquetas – não pude sair do hospital”, conta.

A única solução para o problema de Silvana era um transplante de medula óssea. A doença, que já estava em estágio avançado, foi tratada inicialmente no Ceonc (Centro de Oncologia Cascavel). Em seguida, a paciente foi encaminhada ao Hospital de Curitiba, onde o tratamento foi intensificado e os testes de compatibilidade iniciados.

O conserto

“Acredito muito em Deus, tenho muita fé e isso ajudou durante minha batalha”, diz Silvana. Ela relata ainda que o apoio da família foi essencial para que hoje pudesse contar sua história e incentivar a doação de medula. “Foi tudo uma surpresa, e encontrar um doador compatível é mágico”, acrescenta.

A compatibilidade veio da família. Seu irmão, Silvonei Liesenfeld, na época com 20 anos, foi quem salvou a vida de Silvana. “É realmente algo divino. Meus pais não teriam mais filhos – só Silvana e sua irmã Silmara -, mas meu irmão nasceu. Eu gosto de acreditar que o ‘objeto com defeito [a paciente] foi enviado, e alguns anos depois, veio o conserto’, brinca.

Por conta do estado de saúde da paciente, o transplante ocorreu poucos dias depois de descoberta a compatibilidade. Antes do processo cirúrgico, Silvana fez sete dias de quimioterapia, uma forma de preparar o organismo para receber a nova medula.

Depois do transplante, foram mais 22 dias de internamento. Para isso, Silvana e sua mãe, Beatris Liesenfeld, saíram de Capanema, município localizado no Sudoeste do Estado, para morar em Curitiba por quatro meses. “Todo o dia ia ao hospital e em 70 dias recebi alta para voltar a Capanema. Mas as viagens se tornaram semanais, tudo para acompanhar o meu caso”, comenta. Hoje, após sete anos do transplante, consultas médicas e exames são realizados a cada dois anos. Para alcançar este quadro Silvana conta que seguiu rigorosamente as orientações dos médicos. “A comida era sempre fresca, o contato com adultos e crianças foi totalmente proibido por conta da minha imunidade e nem tomar sol podia, pois havia o risco de rejeição da medula”.

Números

Conforme a Central Estadual de Transplantes, a 10ª Regional de Saúde de Cascavel registrou 254 transplantes de doadores que tiveram morte encefálica em 2016, número considerado 8% maior desde o início do levantamento estadual, em 2013, período em que ocorreram 235 transplantes.

Em relação aos doadores vivos, foram 35 transplantes. Somente de medula, foram 19 procedimentos de janeiro a dezembro do ano passado e outros 15 de rim.

De acordo com a coordenadora da OPO (Organização de Procura de Órgãos) de Cascavel, Adriana Miguel, a fila de espera por um órgão no Paraná tem 1.724 pessoas cadastradas. Desses, o órgão que apresenta maior demanda é o rim, seguido de fígado, coração e pâncreas. Com relação à espera por tecidos (córneas) 144 pessoas aguardam na fila. Tratando-se de transplantes de córneas o tempo na fila de espera é menor devido a um maior numero de doações se comparado com a de outros órgãos.

 Como posso ser doador?

 Para ser um doador de órgãos não é preciso deixar nada por escrito e nenhum documento. O único procedimento é comunicar a família sobre seu desejo, já que a doação de órgãos só ocorre após autorização familiar. Qualquer pessoa pode ser um doador. Para um transplante de órgão o mais interessante é a compatibilidade entre o voluntário e as pessoas que esperam uma nova chance de recuperação. As doações geralmente ocorrem em decorrência de morte encefálica, mas alguns órgãos, como rins, parte do fígado e da medula óssea podem ser doados em vida. “É uma satisfação enorme poder salvar a vida de alguém. Além do paciente, você dá uma nova chance à família, que também faz parte dessa luta. O doador pode ter muitos medos, mas é uma vida que você salva. Não se pode esperar para ser um voluntário, pois quem está à espera de um doador compatível não tem tempo a perder”, relata o doador Silvonei Liesenfeld.

Reportagem: Marina Kessler

Foto: Fábio DOnegá

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