Mudança: Delegado da PF não descarta “cacetada em bocas de fumo”

Reportagem: Tissiane Merlak

Fotos: Lorena Manarin

 

Atuando há 14 anos como delegado da Polícia Federal, Marco Berzoini Smith assumiu há duas semanas a delegacia da PF em Cascavel. Com uma vasta experiência focada principalmente na repressão do crime organizado como o combate ao tráfico de entorpecentes, Smith já atuou em São Paulo, Foz do Iguaçu, Curitiba e mais recentemente em Guaíra onde permaneceu os últimos três anos.

Em entrevista exclusiva ao Hoje, Smith destacou que o objetivo à frente da delegacia em Cascavel é aumentar a atuação contra o crime organizado.

 

Hoje: Você assumiu a Delegacia da Polícia Federal há cerca de 15 dias. Como será a sua atuação?

 

Marco Smith: A maior parte da minha carreira como delegado teve foco na repressão de entorpecentes e do crime organizado, com algumas operações contra o PCC, várias de drogas e armas. É isso que pretendo fazer aqui em Cascavel, aumentar um pouco a atuação da Polícia Federal contra o crime organizado.

 

Hoje: Infelizmente, muitas pessoas em Cascavel têm a visão de que a PF só atua na emissão passaporte. Como mudar isso?

Smith: Elas estão enganadas, inclusive uma das coisas que precisamos melhorar é essa questão, porque a emissão de passaportes está demorando muito tempo, cerca de 90 dias. Então é preciso dar uma melhorada no atendimento ao público como um todo.

 

Hoje: Logo na primeira semana que o senhor assumiu a delegacia apreendeu mais de uma tonelada de maconha, medicamentos no aeroporto. Já é um bom começo?

Smith – Não é uma grande quantidade, mas já é um começo. Temos que melhorar a atuação e eficiência na área administrativa, emissão de passaporte, expedição de registro de armas, autorização de compra de arma, entre outros setores. Além disso, a atuação no aeroporto, que está muito solta, é preciso melhorar e devemos aumentar a fiscalização. A Cettrans [Companhia de Engenharia de Transporte e Trânsito], que administra o aeroporto, já disponibilizou uma sala para isso. Estamos com um efetivo aquém do que deveríamos ter, mas estamos imaginando jeitos de utilizar e operacionalizar essa sala, com uma fiscalização mais pormenorizada e presente no aeroporto.

 

Hoje: Além do aeroporto, o que mais precisa ser melhorado?

 

Smith: Na área administrativa também tem que otimizar, incluindo a fiscalização de vigilantes e produtos químicos. E claro, a parte de combate ao crime organizado e outros crimes de atribuição da Polícia Federal que é preciso dar uma melhorada.

 

Hoje: Em outras oportunidades outros delegados disseram que o foco da Polícia Federal não são os traficantes que ficam nas esquinas. Qual será seu foco e sua atuação?

 

Smith: O foco realmente não é, em que pese a Constituição, dizer que a repressão ao tráfico de drogas é da Polícia Federal, independente de ser internacional, nacional, estadual ou local. As polícias estaduais reprimem o tráfico com base em convênio. A atribuição constitucional é nossa. A princípio não é “nossa praia”, mas para chegar ao topo da pirâmide é preciso da informação do meio, aí você trabalha do meio para cima. Outras vezes não tem informação nenhuma, então tem que começar na base. Eu não descarto que a gente dê umas “cacetadas aí” numa ou outra boca para pegar o fio da meada na investigação.

 

Hoje: Então o pequeno traficante que pensa que só a Polícia Militar ou a Polícia Civil atuam nesta área pode ter uma surpresa?

 

Smith: Eles estão enganados. Não necessariamente que a gente vá trabalhar nesse foco. Mas se precisar, vamos sim. Se tiver necessidade de obter mais informações, se tiver um interesse maior sim.

 

Hoje: Cascavel seria um ponto chave de contrabando, descaminho, tráfico?

Smith: Cascavel é um grande entreposto rodoviário. Tudo passa por aqui: armas, drogas, cigarros, descaminho, tudo. Por conta da localização geográfica e da facilidade de acesso.  Sim, você tem muito depósito em Cascavel. Sim você tem muitos traficantes em Cascavel. Você tem de tudo. Além disso, a Delegacia da Polícia Federal de Cascavel tem uma área de abrangência que vai até o Sudoeste, na fronteira com a Argentina. Entra bastante coisa ali também.

 

Hoje: E existe efetivo para toda essa área?

Smith: É aquém do que nós precisaríamos, mas isso em todas as nossas unidades. Polícia é um problema porque quanto mais polícia você põe, mais serviço você acha.  Se você me der o dobro de policiais, vou pedir para duplicar, porque eu sempre vou achar mais coisas para fazer. Infelizmente.

 

Hoje: Você trabalhou em Foz do Iguaçu e Guaíra. Pelo tempo que você está em Cascavel, a situação aqui é parecida?

 

Smith: Não. As três cidades são completamente diferentes entre si. Foz do Iguaçu está vivendo, desde que eu saí de lá, em 2010, uma transformação bastante interessante de sair de uma cidade dormitório de contrabandistas para uma cidade turística. E esse processo está evoluindo cada vez mais. Atualmente Foz tem uma atividade bastante forte lícita, mas permanece com atividade ilícitas como contrabando, descaminho, tráfico de drogas e armas. Não migrou, mas fortaleceu a economia da cidade. Os compristas, que nada mais são do que um contrabandista no varejo, só trazem prejuízo para a cidade porque não gastam nada ali. As pessoas começaram a ver que isso não vale a pena. Começaram a investir, por exemplo, nas Cataratas como “Maravilha Natural do Mundo”, trazer turistas estrangeiros, e a cidade tem uma nova cara.

 

Hoje: E como é em Guaíra?

 

Smith: Guaíra já é uma cidade muito menor, vai ser a eterna viúva das Sete Quedas. O pessoal reclama até hoje, apesar dela nunca ter tido exploração econômica, que Guaíra seria diferente se as Sete Quedas existissem. Lá você tem algumas peculiaridades. Grande parte da economia é calcada no crime, ou os moradores recebem dividendos por prestar serviços ou vender produtos do crime. Proporcionalmente Guaíra é uma das cidades que mais tem roubo a comércio no Brasil todo.

 

Hoje: Porque?

Smith – Por que o contrabandista não tem conta no banco, ele trabalha com dinheiro vivo. Ele compra com dinheiro, vai ao restaurante com dinheiro. Assaltar um comércio com dinheiro vivo é muito mais interessante do que um que só tem ticket de cartão. O crime trabalha muito com esse cálculo de custo-benefício. Um ou outro comércio vale a pena. Em Guaíra praticamente todos os comércios valem a pena. E você tem aquela máxima de que a Polícia Federal acaba atrapalhando a cidade no combate ao contrabando, porque você aumenta os outros crimes. Na minha passagem por lá, aumentamos em 60% a quantidade de apreensões, que resultou numa queda de 50% nos crimes de furto e roubo.

 

Hoje: A que se deve essa mudança?

Smith: Tudo está atrelado, não tem essa diferença. Não existe criminoso do bem ou criminoso do mal, criminoso é criminoso. Ele vai ganhar dinheiro ilicitamente do jeito mais fácil que tiver à mão. Se o jeito mais fácil for trabalhar com contrabando, será com isso. Se for mais fácil roubo, essa será a modalidade. Só que quando você o prende com o contrabando, ele deixa de praticar uma série de roubos e furtos. Então o trabalho da Polícia Federal é benéfico para a comunidade da fronteira.

 

Hoje: Você citou que em Guaíra as apreensões aumentaram 60%. Você quer fazer o mesmo em Cascavel?

 

Smith: Pelo menos. Na primeira semana tivemos uma tonelada de maconha, medicamentos no aeroporto e participação em uma diligência que resultou na morte de seis ladrões de bancos. Em uma semana já são três ocorrências.  Já deu para melhorar, não é?

 

Hoje: Foi anunciada a doação de um terreno para a construção da delegacia. Mas quando isso vai ocorrer?

 

Smith: Terá não só um trâmite burocrático na finalização da entrega do terreno. A partir daí tem os estudos técnicos da Polícia Federal, uma série de projetos para ver qual se adéqua melhor em Cascavel, quais as mudanças que precisamos fazer para que esse projeto atenda Cascavel e depois a parte de construção. Nessa etapa precisamos conseguir os recursos e na sequencia construir mesmo. Para construir só a obra física são necessários dois anos. Então imagino que, se der tudo certo, em três anos a delegacia esteja entregue. Se não faltar dinheiro, se a licitação correr direito. Porque eu não posso simplesmente contratar uma empresa qualquer e começar a fazer, tem uma série de etapas.

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