“Hoje, falo muito para as pessoas: ‘não precisamos de muita coisa para ser feliz, não’. Precisamos de amor”

 

Em liberdade desde a última sexta-feira (24), o ex-goleiro Bruno Fernandes de Souza, de 32 anos, ainda se acostuma com a vida fora da prisão depois de quase sete anos em cárcere – desde julho de 2010 -, acusado de mandar matar a ex-amante Eliza Samudio.

Ele estava preso desde 2010 e foi solto graças a uma liminar do ministro Marco Aurélio de Mello, do Supremo Tribunal Federal. Condenado a apenas em primeira instância a 22 anos e três meses de prisão, Bruno recorre da sentença desde 2013. Como o recurso ainda não foi julgado, a prisão continua sendo preventiva. O Supremo entendeu que ele passou tempo demais na cadeia para uma prisão preventiva, por isso, ganhou o direito de aguardar o julgamento do recurso em liberdade.

Bruno cumpria pena desde 2015 na Apac (Associação de Proteção e Assistência ao Condenado) de Santa Luzia (MG) quando foi posto em liberdade. O modelo Apac é referência no País como humanização no sistema penitenciário. Nessas associações, enquanto cumprem a pena, os detentos podem estudar e trabalhar. Eles também são responsáveis pela manutenção do espaço e o trabalho do goleiro era de fazer a guarda da unidade. Porém, antes de chegar à Apac, Bruno passou por dois presídios comuns em Minas Gerais: A Penitenciária Nelson Hungria, em Contagem, e a Penitenciária de Segurança Máxima, em Francisco Sá. Ele contou que essas foram as piores experiências da vida dele.

“Quando você vai para uma cadeia de segurança máxima, vai para um lugar chamado COC [Centro de Observação Criminalística], um lugar de observação durante 15 dias. Mas eu fiquei 10 meses nesse lugar. Na Nelson Hungria, eu sempre fui muito perseguido e maltratado. Os agentes penitenciários faziam muita covardia. A pressão era muito grande. Eu cheguei ao ponto de perder o equilíbrio, acabei tentando o suicídio amarrando um lençol na grade e me joguei. Acabou que Deus botou a mão naquele momento ali e não permitiu que eu tirasse a minha própria vida. Quando eu saltei da ventana, o lençol partiu. Impressionante. Foi um dos momentos mais difíceis da minha caminhada”.

De amado a odiado

“No sistema comum, meu relacionamento com outros presos, no início, foi um mar de rosas. Fiquei quatro anos no pavilhão de trabalho da Nelson Hungria. Passei seis meses na Francisco Sá e depois voltei para Nelson Hungria, aí sim eu fui para o convívio, no pavilhão 12, com outros presos. Quando lá cheguei os presos me olharam com outros olhos. Um dia o Bruno foi amado por muita gente, agora era odiado por muitos. Devido à irresponsabilidade de algumas pessoas em programas sensacionalistas, eu fui agredido por terem divulgado inverdades falando que eu era de um grupo de extermínio [um programa de TV relacionou Bruno ao grupo de Bola, ex-policial civil e também condenado pela morte de Eliza Samudio]. Não foi uma coisa muito legal de ser dita no pavilhão que eu estava. Os caras não queriam nem saber. Para eles, tirar a vida de alguém lá tanto faz. É a mesma coisa de tirar a vida de um animal. Num banho de sol, fui agredido. Foi um corte no braço, mas graças a Deus pegou de raspão. Consegui superar essa situação. Acho que um dos piores momentos da minha vida foi lá [na Nelson Hungria]. Eu acho que o sistema prisional brasileiro está falido. Se paga muito para não recuperar ninguém. A Nelson Hungria é um destes presídios”

A família e a fé: alicerce para uma vida bem-sucedida

Algumas das pessoas que deram suporte a Bruno foram a mãe, Sandra Cássia Souza de Oliveira, e a esposa, Ingrid Calheiros. A fé também foi um dos pilares para Bruno suportar a vida na prisão.

O ex-goleiro, de 32 anos, reconhece que o alicerce para uma vida bem-sucedida é a família e a fé: “A partir do momento em você tem Deus na sua casa, as outras coisas vão acontecendo, automaticamente”.

O jogador também recebeu apoio dos amigos, embora não todos, e, inclusive, de quem ele não conhecia. Um desses “desconhecidos” foi o goleiro Fábio, do Cruzeiro, que fez uma visita a ele na prisão.

“Gostaria de ter recebido, no mínimo, uma carta daquele grupo de 2009 [do Flamengo], aquele grupo que fomos campeões brasileiros. Eu não queria nada, na verdade, eu não quero nada de nenhum deles. Mas, naquele momento, independentemente de Patrícia Amorim [presidente do Flamengo na época] de ter proibido, como naquela época eles falaram que ela proibiu. Se fosse com qualquer um deles, eu, independente o que aconteceu, mandaria uma carta, eu seria mais radical, eu iria lá. Independente se o cara errou. Eu só queria uma carta, uma carta daquele pessoal. E eu não tive”.

A carreira pós-prisão é um dos assuntos que ainda despertam a curiosidade de muitas pessoas. Sobre isso, Bruno garante que quer voltar aos campos de futebol e que já recebeu algumas propostas que ainda precisam ser analisadas.

“Se Deus tocou no coração do ministro que me colocou em liberdade… Quando Deus abre uma porta, ele abre por completo e não pela metade. Eu vou voltar. Não vou desistir dos meus sonhos”.

O primeiro fim de semana em liberdade, após mais seis anos de detenção, Fernandes passou com as filhas. Ele comparou o momento com a vitória de um importante campeonato esportivo.

“Isso [ser solto] para mim foi a mesma coisa que ganhar um campeonato, um título. Eu acho que a gente tem que comemorar com as pessoas que a gente ama”.

Sobre o filho Bruninho, fruto da relação com Eliza Samudio, Fernandes declarou que é o maior desafio que ele deve enfrentar. Mesmo assim, ele garante que vai lutar para tê-lo por perto: “O destino vai nos colocar cara a cara. Eu ter que explicar para ele tudo o que aconteceu é o maior desafio da minha vida. No momento oportuno, trazer ele para perto de mim é o que eu pretendo fazer. Eu acho que quem mais sofreu com toda a história foi ele”.

“O cara quando é muito pobre e se depara com o sucesso rapidamente… Eu mesmo não estava estruturado. A pessoa deixa se levar. E mesmo a Ingrid me falando várias vezes, me chamando atenção. Eu tinha que estar com o coração aberto para ouvir. Mas eu achava que, eu colocando as coisas materiais dentro de casa, era o suficiente. Mas não é não. Hoje, falo muito para as pessoas, a gente não precisa de muita coisa para ser feliz, não. A gente precisa de amor”.

“Eu estou feliz por ter sido colocado em liberdade. Mas ao mesmo tempo eu não estou feliz pelo fato que aconteceu no passado. Eu fico feliz por estar solto e, quem sabe, correr atrás do tempo perdido e seguir em frente. Se eu falar que eu estou pronto, estarei mentindo, mas eu já vinha me preparando. Por enquanto, quanto mais eu ficar em casa, tranquilo com a minha esposa, para colocarmos nossa vida em ordem, é melhor”.

 

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