Fotos: 04 e 05 entrevista Sergio kreuz

Reportagem: Juliet Manfrin

Fotos: Lorena Manarin

 

Sérgio Kreuz

“Cascavel: Uma cidade sem abrigos”

 

Sérgio Kreuz passou no concurso para juiz em 1990 e exerceu a magistratura inicialmente em Nova Londrina (1992 a 1995) e depois em Toledo (1996) antes de se mudar para Cascavel e se notabilizou de tal maneira que se tornou recentemente diretor do Fórum pelo quarto biênio.

Titular da Vara da Infância e Adolescência há muitos anos, o cidadão honorário de Cascavel não está mais na cidade. Em busca de novos voos, ele agora está no Tribunal de Justiça, na capital do Estado, como juiz auxiliar da Corregedoria. Este seria um último degrau para se tornar desembargador. Em entrevista exclusiva ao Hoje, Sérgio Kreuz afirma que hoje se pode dizer que Cascavel é uma cidade sem abrigos para crianças.

 

 

Hoje: O senhor deixa Cascavel em breve, mas o que falar sobre sua trajetória na cidade?

 

Dr. Sérgio Kreuz: Na verdade já fui removido para Curitiba e desde o dia primeiro de março estou exercendo o cargo de Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral da Justiça do Paraná. Cascavel foi a cidade em que mais tempo morei na minha vida. Foram mais de vinte anos, época em que minhas filhas nasceram, vi a cidade se transformar e, também o Poder Judiciário de Cascavel é hoje muito diferente daquele quando cheguei. Quando cheguei o Fórum ainda era aquele da Rua São Paulo. Logo após minha chegada a Vara da Infância que já tinha sido criada, foi oficialmente instalada e, como nenhum dos colegas daquela época quis assumir o cargo, me candidatei. Começamos sem estrutura alguma, Sequer tínhamos um local, servidores, móveis, absolutamente nada. Tudo foi sendo construído aos poucos, com auxílio do Município de Cascavel, com móveis emprestados, alugamos um prédio e começamos as atividades. Somente depois de alguns anos mudamos para o prédio da Av. Tancredo Neves, que mais tarde foi reformado e ampliado. Lutei muito para a construção do anexo, da reforma do prédio da Tancredo Neves, pela aquisição do terreno dos fundos do Fórum, pela melhoria das condições de servidores, criação de varas etc. Envolvi-me com projetos sociais e o que tenho a dizer é que fui muito feliz em Cascavel.

 

Hoje: O que fica para trás em Cascavel quanto a sua carreira?

 

Dr. Sérgio: Deixei Cascavel, mas Cascavel sempre será a minha cidade do coração. Foi aí que construí minha família, que é meu maior patrimônio. Cascavel me acolheu, inclusive como filho, quando me concedeu a cidadania honorária e por tudo isso que vivi nesta bela cidade só tenho gratidão. Levo muito mais do que deixo para Cascavel. Levo as amizades construídas ao longo desses mais de vinte anos. Levo tudo que aprendi, em especial, o carinho das crianças, as boas lembranças de um tempo em que eu e minha família fomos muito felizes.

 

Hoje: Na sua área de atuação certamente o senhor encontrou muitas situações desafiadoras, se não todas elas. Mas haveria alguma a ser citada, que mais lhe marcou?

 

Dr. Sérgio: Tive enormes desafios. Construir, juntamente com o Ministério Público, servidores da Justiça, do Município e do Estado uma rede de proteção e de atendimento à criança e ao adolescente foi muito importante. O Programa de Acolhimento Familiar encontrou muitas resistências, mas tínhamos muita convicção naquilo que estávamos propondo e o resultado está aí, servindo de modelo para outros. Muitos dos programas, como o de combate à evasão escolar, apadrinhamento afetivo, Entrega Consciente para uma adoção legal, programas de cumprimento de medidas socioeducativas, ala psiquiátrica para adolescentes no Hospital Universitário, entre tantos outros tive o privilégio de participar. Cascavel até hoje é a segunda Comarca que mais faz adoções no Paraná, perdendo apenas para Curitiba.

 

Hoje: O que dizer do Família Acolhedora e o que o programa representa para as famílias que recebem as crianças e as crianças que encontram este lar?

 

Dr. Sérgio: O Programa é bom às crianças. É nelas que eu sempre penso. Muitas vezes estamos mais preocupados com os adultos do que com as crianças. Lugar de criança é na família. Nenhum abrigo ou unidade de acolhimento substitui a família. Ela é fundamental para o desenvolvimento da criança e também para a sociedade. O dia que a família acabar acaba a sociedade. Eu sempre perguntava para as crianças que estavam em famílias acolhedoras se elas queriam voltar para o abrigo. Nenhuma delas desejava isso. Elas queriam o carinho, o afeto, o cuidado da família, ainda que acolhedora, temporária. A Constituição diz que a criança tem direito à convivência familiar. Quando a retiramos e a colocamos numa instituição estamos violando esse direito fundamental.

 

Hoje: O senhor se orgulha de o programa ser modelo para todo o País?

 

 

Dr. Sérgio: Esse orgulho deve ser da cidade. Não fui eu que construí sozinho o Programa de Acolhimento Familiar.  Foi Cascavel, por meio de seus técnicos, servidores, com  investimento do Município, com participação do Ministério Público, do Judiciário, Câmara de Vereadores, seus cidadãos construíram um programa que é referência em todo País. É o maior programa de acolhimento familiar da América Latina. Cascavel deve se orgulhar disso. Toda sociedade teve sua parcela de participação. Lembro um dia em que inauguramos um abrigo em Cascavel (muitos anos atrás) e na minha fala eu disse que um dia eu gostaria de comparecer àquele abrigo e poder colocar uma placa com os seguintes dizeres: “fechado por falta de crianças”. Pois bem, antes que eu deixasse Cascavel, o abrigo foi fechado. Hoje poderíamos adotar em Cascavel um novo lema: “Cascavel: Uma cidade sem abrigos!” Uma cidade onde dificilmente se vê crianças nas ruas mendigando, dormindo nas calçadas etc.. como se vê em muitos lugares do Brasil. Isso é construção de longo prazo, principalmente, pela rede municipal de atendimento à criança. Meus irmãos cascavelenses, orgulhem-se da cidade que construíram!

 

Hoje: Quantas crianças aguardam para ser adotadas em Cascavel?

 

Dr. Sérgio: Cascavel sempre tem uma média de 30 a 40 crianças e adolescentes esperando a oportunidade de adoção. Não são adotadas porque já cresceram demais, são grupos de irmãos, têm algum problema grave de saúde. Essas crianças não podem voltar para casa porque a família de origem não oferece condições de assisti-las. Ao contrário do que ocorre na maioria das cidades do Brasil, em Cascavel, essas crianças e adolescentes não são condenadas a crescer em abrigos frios, desamparadas, sem afeto. Em Cascavel elas vão para uma família acolhedora, onde poderão permanecer pelo menos até os 21 anos de idade. Essa é a grande diferença. Vão criar vínculos, vão ter o carinho e o cuidado de uma família. Vão ter o que para a maioria das pessoas é algo tão normal: Uma família.

 

Hoje: O processo tem sido simplificado ao longo dos anos?

 

Dr. Sérgio: Ao contrário do que se propaga o processo de adoção não é complicado. O que ocorre é que muitas vezes os juízes e o Ministério Público não possuem condições mínimas para acelerar esses processos, principalmente, de destituição do poder familiar. Faltam psicólogos, assistentes sociais, que são imprescindíveis para que uma adoção seja bem sucedida. Antes de modificar a lei, como ocorre a cada cinco ou seis anos, é preciso modificar a conduta.

 

Hoje: Como juiz, como o senhor avalia a adoção no Brasil?

 

Dr. Sérgio: Como já disse, de nada adiante mudar a lei, reduzindo prazos se você não tem os meios para fazer com segurança. Não adianta fazer adoção, é preciso fazer bem feito.

 

Hoje: O senhor tem uma trajetória em Cascavel reconhecida por todos os setores e autoridades. Quanto isso influenciou para sua ida à Capital do Estado?

 

Dr. Sérgio: Pensei muito antes de tomar uma decisão. Graças a Deus tive uma ótima relação com as autoridades municipais e estaduais e sempre me senti muito valorizado por todos. Ocorre que o juiz tem uma carreira. Para avançar precisa sair. Poderia ficar, mas também não iria adiante na minha carreira. Além disso, aqui em Curitiba tenho meus irmãos e meus pais, que desde abril do ano passado moram aqui. Vivi muito pouco com eles. Saí de casa aos onze anos para estudar e nunca mais voltei  a morar com eles. Nossa convivência ocorre sempre apenas em períodos de férias. Ter a oportunidade de conviver um pouco mais com eles também foi um motivo. Ganhei algumas coisas e perdi outras. É da vida! Ainda estou me adaptando e não tem sido fácil. Faz parte desse processo de mudança.

 

Hoje: Ser desembargador é um sonho?

 

Dr. Sérgio: Todo mundo que ingressa numa carreira quer progredir, avançar. Não sei se é um sonho, mas nunca fui carreirista. Vou aguardar o meu momento, sem pressa. Não sofro por isso, até porque como juiz de direito fui muito feliz.

 

Hoje: E a partir de agora, quais são as prioridades do senhor e como será este novo desafio profissional?

 

Dr. Sérgio: Estou, na verdade, num cargo administrativo. O desembargador Rogerio Kanayama, corregedor-geral da Justiça, convidou-me para auxiliá-lo na orientação de colegas magistrados mais novos, bem como para tentar implantar no Estado do Paraná algumas das práticas exitosas de Cascavel. É um desafio e espero corresponder.

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