Álcool, drogas e transtornos: Quase quatro mil pessoas em tratamento

Reportagem: Juliet Manfrin

 

O desabafo é de desespero de uma mãe. A filha Carol tem surtos psicóticos com frequência e a mãe não sabe mais a quem recorrer.

Segundo Ana Paula Prestes, a filha está na fila de espera para acompanhamento no CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas) há meses, mas precisa que surja uma vaga. Há dois anos a menina passou a sofrer de esquizofrenia. Tem com frequência surtos que deixam a mãe em desespero. Nesta semana ela não foi trabalhar por dois dias em busca de médicos particulares que acompanhassem a filha, receitando-a os medicamentos controlados que a jovem precisa. Na segunda-feira, Ana levou Carol a um psiquiatra e pagou pela consulta para comprar os remédios e tentar um período de calmaria com a jovem em casa.

Na semana passada Carol que tem 18 anos teve um dos momentos de devaneio e saiu pelas ruas com uma mochila com todas as roupas. Perdeu tudo. “Eu já não sei mais o que fazer, estou desesperada. Minha filha foi uma menina normal até pouco tempo atrás, mas agora está sofrendo desse jeito e não sei mais a quem recorrer” , desabafa.

Os surtos teriam piorado com o consumo de drogas, álcool e a partir da morte da avó. A mãe que trava uma batalha diária para internar a jovem, já procurou a Justiça e espera com ansiedade um desfecho para o drama que vive. “O médico pediu para acompanhar ela em casa, mas o certo acho que seria internar”, reforça.

 

A QUEM RECORRER

Rede de atendimento no município

 

Pela rede pública municipal em Cascavel, são quase quatro mil pessoas em acompanhamento. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, no CAPS III (Centro de Atenção Psicossocial) são atendidas 320 pacientes com transtornos mentais. Já no CAPS AD são acompanhadas 605 crianças e adolescentes  usuários de drogas e lá, segundo a mãe, a menina teria sido acompanhada até completar 18 anos. Já no CAPS ADIII, onde a mãe diz aguardar uma vaga para Carol, 1.065 pacientes com transtorno mental seguem sendo acompanhadas. No CAPSI são 480 pacientes, crianças e adolescentes com transtornos mentais. Os transtornos psicológicos e psiquiátricos são acompanhados ainda no CASM (Centro de Atendimento em Saúde Mental) onde 1,2 mil pessoas com transtornos são analisadas de perto.

A Secretaria reforça ainda que geralmente os atendimentos são feitos nas UBSs (Unidades Básicas de Saúde) e nas UPAs (Unidades de Pronto-Atendimento). “Acerca de tratamento para transtornos psicológicos e psiquiátricos, as UBSs/ USFs são portas de entrada de todas as demandas. É o ponto de atenção dos usuários. Havendo necessidade de atendimento especializado, são eles referenciados para os CAPS, CASM ou SIMPR (Serviço Integrado de Saúde Mental), dependendo de cada caso. Os casos de urgência e emergência são atendidos nas UPAs”.

Carol ficou internada na UPA na semana passada, mas a garota acabou fugindo da unidade. Situação que, segundo a mãe, se tornou frequente.

Porém, a Secretaria de Saúde alertou ainda que o Município não tem a competência pelos leitos hospitalares para pacientes usuários. Em caso de necessidade para internamento, a responsabilidade de vaga é regulada  e liberada pela Central de Regulação de Leitos, para hospital em âmbito estadual. “No município de Cascavel são oferecidos leitos para internamento no HU para adolescentes  e crianças drogaditas. Os adultos usuários com transtorno mental e crianças/adolescentes com transtornos mentais são encaminhados via Central de Leitos.  Em Cascavel os usuários de droga têm acesso ao acolhimento para o processo de desintoxicação no CAPSAD III e no SIMPR”.

 

Estrutura

Quanto à estrutura de atendimento, o Município afirma que está se organizando para a contratação de profissionais, visando melhorar e ampliar a oferta de serviços em Saúde Mental, bem como colocar em funcionamento o CAPSIII para atendimento às demandas no período noturno, fins de semana e feriados de forma ininterrupta para o acolhimento de pacientes com transtornos mentais que já estão em tratamento e necessitam permanecer no CAPS III, aos cuidados da equipe.

 

TRANSTORNOS PSIQUIÁTRICOS

Sistema é insuficiente e ineficaz para tratamento, avalia especialista

A situação vivida por Ana e pela filha Carol está muito longe de ser uma exceção.

Para o psiquiatra Thiago Vinicius Feliciano Moreira, desde o ano de2001 os leitos hospitalares em psiquiatria vêm sendo reduzidos em todo o território nacional por meio de uma política de saúde conhecida como reforma psiquiátrica, que prega o fechamento dos hospitais psiquiátricos ou como também eram conhecidos os “antigos manicômios “. eles foram substituídos pela abertura dos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial). “Na prática clínica percebemos que a estrutura destas unidades são insuficientes para a demanda de pacientes que necessitam de um atendimento em saúde mental de urgência, fazendo com que uma grande parcela da população que sofre de um transtorno mental grave não tenha acesso a um atendimento seguro e de qualidade. É importante ressaltar que a intenção não é levantar uma bandeira ” pró-manicomial “, pois como médico e como ser humano não há como defender a permanência da existência da estrutura manicomial , mas precisamos reconhecer que a substituição radical desse antigo sistema pelo funcionamento do CAPS tem falhado e muito. Basta, por exemplo, perguntar para a família de um paciente esquizofrênico , o que ela faz quando existe a situação de um surto?”.

 

ONDE BUSCAR

O desespero e as dúvidas

 

O psiquiatra Thiago Vinicius Feliciano Moreira vai além. Lembra do drama que a família de um dependente químico enfrenta quando procura ajuda quando não consegue mais lidar com uma crise de abstinência. “Ou para uma pessoa que pensa em cometer suicídio onde ela procuraria ajuda? É claro que a falta de informação e o preconceito são barreiras que atravessam os séculos e por incrível que pareça, existem sim”.

Para o especialista, porém, a realidade de hoje revela que tanto no sistema público quanto no sistema privado não há estrutura suficiente para atendimento adequado, seja para atendimentos de crises (tentativas de suicídio, crises de intoxicação ou abstinência de drogas, crises psicóticas e etc.) seja para os atendimentos de manutenção. Atualmente pelo SUS a indicação é que um indivíduo em uma situação de crise procure uma UPA. “Mas sabemos que esta estrutura também não está adaptada e, sobretudo, não tem capacidade tecnicamente para lidar com situações de urgência e emergência em saúde mental, o que se repete inclusive na situação privada, pois não há um local destinado a este atendimento mesmo que se esteja disposto a pagar por ele”, avalia.

O que alguns profissionais vêm fazendo é tentado encontrar uma solução internando pacientes em situações extremas nos hospitais gerais, estes também sem estrutura e equipe adequada para a situação. Desta forma, pacientes, médicos e profissionais seguem em busca de medidas ideais e adequadas para estes tratamentos menos raros do que se pensa.

 

CAPS III    320 pacientes

CAPS AD  605 crianças e adolescentes  usuários de drogas

CAPS ADIII        1.065 pacientes com transtorno mental

CAPSI        480 crianças e adolescentes com transtornos mentais

CASM        1,2 mil pessoas com transtornos

 

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