“A Polícia Militar está fazendo o seu papel”, diz o coronel Lee

Reportagem: Tissiane Merlak

Fotos: Vandré Dubiela

Com uma postura firme a frente da corporação e com 33 anos de trabalho pela Polícia Militar, o tenente-coronel Washington Lee passou por diversos Batalhões e há pouco mais de dois anos está a frente do 5º Comando Regional da Polícia Militar. Profissional experiente, ele esteve à frente das cerca de 20 negociações, inclusive na PEC (Penitenciária Estadual de Cascavel) nas rebeliões de 2014.

Em entrevista exclusiva ao Hoje o comandante fala sobre as dificuldades da Polícia, dos desafios de cobrir a área de fronteira e as perspectivas de reintegração de posse do Jardim Gramado, em Cascavel, além das áreas da Araupel, em Quedas do Iguaçu.

 

Hoje: Boa parte da área do 5º Comando Regional, que engloba o Oeste e Sudoeste, é de fronteira. É um desafio cuidar disso, uma vez que quase tudo que entra de ilícito passa por aqui?

 

Tenente-coronel Lee: Somos os grandes responsáveis por tentar barrar tudo isso. É como uma grande onda. Ela nasce aqui e, se não conseguirmos barrar, ela vai chegar como um tsunami no resto do País. Todas as forças de segurança têm uma parcela de responsabilidade no âmbito de suas competências. Tentamos barrar o máximo que podemos a entrada dessa onda por aqui, para que ela chegue mais amena lá. Mas está chegando ameno? Essa é uma colaboração da sociedade.

 

Hoje: Quais são as maiores dificuldades na nossa região? É coibir o tráfico que está atrelado a outros crimes?

Lee: O grande início de toda mazela da sociedade é realmente a droga. É triste o que vou falar agora, mas o traficante nada mais é do que um comerciante. Ele traz um produto que a sociedade está ávida para consumir. Estamos atrás desses traficantes. Mas e o usuário? É ele o grande culpado.  Mas de qualquer maneira, existe a legislação e temos que cumprir. Por trás de cada ilícito existe sim o entorpecente. Se não uma ligação direta, uma indireta vai ter. Ou a pessoa comete pequenos delitos para pagar a droga, ou já está devendo para outra pessoa que já deve para um terceiro.

 

Hoje: A população reclama que a polícia faz pouca coisa, que a acionam e ela não vai aos locais. Tem pouco efetivo para muita demanda?

 

Lee: A situação de querer efetivo é milenar e se reporta à Roma Antiga, onde os generais romanos também queriam mais homens. É uma situação normal. Mas na nossa realidade, quando se fala em segurança pública, todos os olhos da sociedade estão voltados à Polícia Militar, porque é a mais visível. Estamos em todos os municípios do Brasil. O sistema de perseguição criminal, que inicia na rua e termina no sistema previdenciário, não comporta todas as pessoas que são presas. Eles têm nomes, mas esse nome vem se repetindo. Se a Polícia Civil, a Polícia Federal, o Ministério Público, o Judiciário, o Sistema Penitenciário que estão falando, isso para nós não importa. A Polícia Militar está fazendo o seu papel.

 

Hoje: As audiências de Custódia têm causado certa acomodação por parte dos presos que acabam reincidindo no crime?

 

Lee: O grande centralizador da ideia das audiências de custódia é a celeridade e o Poder Judiciário realmente acelerou. Mas, por outro lado, para a parte criminal, esses presos que estamos tirando da sociedade, levando às raias da Justiça, eles estão voltando para a rua. Um exemplo: tivemos no começo do ano uma situação em que o prefeito de um município foi alvo de um assalto, pegaram os dois veículos. Parte da quadrilha seguiu para atravessar o veículo para o Paraguai e outra parte ficou com o restante da família. No caminho foram abordados, toda questão de documentação estava certa, mas as equipes desconfiaram. Acionaram a polícia do município onde estava acontecendo o roubo que ninguém sabia, foram até o local e encontraram os criminosos. Resultado: quatro mortos em confronto. O que tinha acontecido? Toda essa quadrilha havia sido presa uma semana antes, pelo mesmo delito. E, pela audiência de custódia, eles estavam cometendo o mesmo delito.

 

Hoje: Quanto aos assaltos, eles estão acontecendo em toda região. O que a polícia tem feito para diminuir esses roubos?

 

Lee: A Polícia está cumprindo o seu papel. O resto do ciclo é o problema. Todos os órgãos têm as suas dificuldades. Claro que tem que ter o trabalho de inteligência. Estamos chegando às quadrilhas e derrubando esses crimes. Somente este ano foram 45 confrontos armados, quase três por semana. Isso resultou em 17 mortos sendo dois policiais militares. No ano passado foram 71 mortos no total. Não chegamos nem na metade do ano e estamos em 45. Para ver o nível de agressividade. O que o ser humano prefere: ser preso ou morrer?  A Polícia Militar está se fazendo presente, fazendo o seu papel. Estamos tratando bem o cidadão de bem e mal o marginal que quer nos tratar mal, respondendo à altura.

 

Hoje: O senhor se destacou ao desafiar o MST após o confronto em Quedas do Iguaçu. Como está a situação lá? Está mais tranquilo?

 

Lee: Na sequência do confronto em Quedas do Iguaçu, tivemos outro em Santa Terezinha de Itaipu, onde desocupamos a força e o Movimento retrocedeu. O que sabemos é que o governador fez uma intermediação entre o MST e a Araupel para que a empresa possa tirar as madeiras dela. É uma situação que foi negociada. O que cabe à Polícia Militar é a parte de operações. A parte de negociação não cabe à PM. Nós somos a força do Estado. Todo planejamento de invasão, de retomada da área, tudo isso está pronto. Custos, número de homens, viaturas, equipamentos, aeronaves, barcos, tudo está planejado.

 

Hoje: Quanto custaria? Quantos homens seriam necessários?

 

Lee: Mais ou menos R$ 5 milhões. Com relação ao efetivo, essa é uma informação sigilosa e estratégica. O planejamento que temos é junto com o Exército Brasileiro. Claro, é uma situação que precisa ser trabalhada entre o governador e o Ministro da Justiça. A parte política e burocrática não nos cabe. Já fizemos vários estudos, entramos em contato com o general Afonso da Costa e achamos por bem deixar tudo pronto. Temos todo planejamento traçado. O dia que nos foi demandada a situação, ela está toda mapeada, operacionalmente, não só na área propriamente dita, mas em toda a região.

 

Hoje: E em relação ao Gramado. Tem previsão de reintegração?

 

Lee: Estamos de posse da ordem judicial. Não se trata de um pedido, mas sim uma ordem.  Ela vai ser cumprida de qualquer maneira. Só teve uma alteração. O juiz tinha dado prazo de 15 dias para desocupação voluntária e 15 dias para a Polícia Militar fazer a desocupação forçada. Estes 15 dias eram corridos, mas em outras tratativas foi alterado para a contagem de prazo forense, que, de acordo com o novo Código de Processo Civil são 15 dias úteis. Ele teve uma dilação de prazo naturalmente que já encerrou no dia 17 e, a partir do dia 18 já está contando o prazo da Polícia Militar. De qualquer maneira, toda parte de operações já está pronta. Só estamos esperando o secretário de Segurança dar o sinal verde para desencadear a operação.

 

Hoje: Com as mudanças na questão previdenciária, existe a preocupação da Polícia Militar de que haja uma debandada de policiais que estão prestes a se aposentar?

Lee: A preocupação é muito grande. Até agora estamos no campo da suposição. Fala-se em idade para se aposentar, nas mudanças na paridade, não há nada concreto. Até que tenhamos algo definido, estamos orientando os policiais para que não se desesperem e não tomem nenhuma atitude num impulso porque podem se arrepender. Para aprovação de uma lei, existe muita coisa que ainda vai acontecer. Mas de qualquer maneira não tem como falar não se preocupe para o efetivo. Eles estão sim preocupados, isso tem acelerado alguns processos de aposentadoria, mas não em relação ao prazo de trabalho. Por quê? Porque o que é recolhido para a previdência militar é muito grande. Um terceiro sargento, por exemplo, tem um salário e com a aposentadoria pelo INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social) receberá um salário mínimo. Fica injusto levando-se em conta todo valor que ele recolheu ao longo do tempo de trabalho. Se alguma coisa sair nesse sentido, não tenha dúvida. O pedido de aposentadoria precoce vai ser em massa.

 

Deixe uma resposta