“A crise dos últimos três anos é muito mais séria e aguda do que parece”, afirma presidente da Acic

Nesta semana, mais especificamente no dia 4 de abril, uma das instituições mais conceituadas do Paraná completou 57 anos de criação. Não por acaso, a Acic (Associação Comercial e Industrial de Cascavel) se tornou uma das principais referências no setor no País e tem em seu currículo, movimentos, embates, bandeiras e campanhas históricas ligadas ao desenvolvimento de Cascavel e do Paraná. O empresário Alci Rotta Junior, presidente da Acic, deixa o cargo no próximo mês e fala de sua trajetória de dois anos na instituição, Fala sobre a crise econômica, as perspectivas e faz um resgate histórico destas quase seis décadas de existência da Associação Comercial e Industrial de Cascavel.

 

Hoje: Há quase dois anos à frente da Acic, o que dizer sobre esta trajetória e as conquistas para a entidade?

 

Alci Rotta Junior: Presidir uma entidade com 57 anos de tradição não é uma tarefa simples. Exige serenidade, muito diálogo e, acima de tudo, tempo e dedicação. Sou o 44º presidente da Acic, entidade criada em 1960 com o desafio de pensar alternativas para um momento particularmente difícil. A época era a de fim do ciclo extrativista da madeira, que até então havia conferido anos dourados ao município. Mas chegava a hora de pensar em outras saídas econômicas e aí entrou a Acic. Ela aproximou e organizou empresários que, além dos seus negócios, sentiam necessidade de se doar ainda mais às causas do seu município. Minha gestão tomou esse processo de entrega e dedicação como referência. Os últimos dois anos foram particularmente desafiadores. De recessão, de queda de uma presidente e de um lento e delicado processo de retomada. A Acic acompanhou tudo de perto. Fomos para a rua gritar contra a corrupção e nos colocamos à disposição do presidente Temer [Michel] para ajudar na reconstrução nacional. Uma das grandes vitórias da entidade, resultado do empenho de muitas diretorias, foi a conclusão do Edifício Rui Barbosa, o mais ambicioso e visionário projeto estrutural da associação comercial. Tivemos também um momento particularmente triste, a morte em janeiro passado do meu antecessor, José Torres Sobrinho e da esposa Solésia, pessoas boas, trabalhadoras e que confiavam e se doavam às causas do associativismo e do Brasil.

 

Hoje: A economia em âmbito nacional parece não reagir como os governantes esperavam, mas em Cascavel fala-se de um caminho contrário. Na prática, a cidade está deixando a crise para trás?

 

Alci: A reação não ocorre na medida esperada devido a vários fatores. Muitos especialistas estiveram em Cascavel, muitos deles a convite da Acic, nos últimos meses e o consenso é o mesmo. De que a crise dos últimos três anos é muito mais séria e aguda do que parece. Jamais na história do País ocorreu fenômeno parecido, de redução do PIB por mais de um ano seguido. Isso, aliado aos escândalos políticos e à desestabilização política, explica a demora na retomada do crescimento. O País chegou a uma encruzilhada, ou faz as reformas ou não conseguirá se recuperar. Pelo contrário, aí sim correrá o risco de ele se inviabilizar de vez. Parte do Brasil mudou e quer mudanças, mas outras, formadas por extremos e defensoras de interesses muito diferentes, parecem não querer que o País saia desse marasmo centenário. Precisamos dar uma chance ao Brasil. Cascavel e o Oeste, devido à sua pujança econômica, sentem os efeitos da crise de um jeito diferente. Ela chegou sim, mas veio mais tarde do que em outras regiões e a expectativa, também diante disso, é de que ela deixe o vermelho antes de outras.

 

Hoje: Há poucos dias, o governo anunciou que vai retirar a desoneração da folha de pagamento de alguns segmentos que haviam sido beneficiados há seis anos. Como o setor recebeu esta noticia?

 

Alci: O Brasil, mesmo com serviços públicos de terceiro mundo, está no topo do ranking quando o assunto é o tamanho da carga tributária. O volume de impostos é absurdo e os problemas de caixa do governo estão associados à má gestão, à corrupção e a leis há muito desconectadas da realidade nacional. Quando a carga tributária está próxima dos 40%, qualquer anúncio de reoneração ou de aumento de impostos não é bem recebida por empresas, trabalhadores e consumidores, que pagam a conta e os excessos de um Estado público gigante. O planejamento e a seriedade devem ser os balizadores de governos responsáveis. As reformas são fundamentais para dar fôlego ao País, para que o Estado se reorganize e, aos poucos, sobrem recursos públicos para, muito mais do que manter a máquina, investir em obras urgentes, principalmente de infraestrutura.

 

Hoje: O comércio, de modo geral, não tem vivido meses bons, mas aos poucos alguns setores mostram uma singela recuperação. Como o segmento tem observado situações como, por exemplo, a liberação das contas inativas do FGTS?

 

Alci: Há uma mudança importante com o Governo Temer. Apesar de todas as falhas, percebe-se que ele, além de bem intencionado, procura ajustes na direção certa. Enquanto as medidas não geram os efeitos esperados, apela para a criatividade, e isso é saudável. Injetar mais de R$ 30 bilhões do FGTS inativo, que estava parado em contas de milhões de trabalhadores, na economia é importante. O efeito que a medida provoca, tanto psicológico como financeiro, é dos mais significativos.

 

Hoje: Quais os setores do comércio que ainda enfrentam mais dificuldades e os que sentiram menos a crise e que já estão saindo dela?

 

Alci: É difícil apontar um ou outro setor. De uma forma ou outra, todos foram alcançados e afetados pela crise, que já se estende por três anos seguidos. O importante é que essa provação vai tornar melhores empresas, empreendedores e o próprio governo. Percebeu-se que a bonança nacional, ignorada e superestimada por muitos, têm limite. Há casos de empresas, mesmo em setores idênticos, que sentem menos os efeitos da crise. Isso se deve, todavia, a políticas de gestão e à própria abordagem dada à crise pelo dono do negócio e seus colaboradores.

 

Hoje: Acabamos de colher uma safra recorde, este dinheiro já está sendo sentido na economia?

 

Alci: Não é de hoje que o agronegócio é o grande diferencial brasileiro, principalmente no Oeste do Paraná, um dos principais celeiros nacionais. A injeção dos recursos de uma supersafra, diferente de outras épocas, tem sido gradual. Os agricultores estão atentos e muitos preferem o conservadorismo antes de investir. Entretanto, o faturamento de R$ 2 bilhões no recente Show Rural Coopavel é um bom indicativo de que as coisas começam a melhorar. A meta era alcançar R$ 1,5 bilhão e as vendas surpreenderam.

 

Hoje: Evidente que além de falar de economia, existem infinitas bandeiras e projetos liderados pela Acic, como o processo de desenvolvimento. Como podemos imaginar a Cascavel do futuro?

 

Alci: Há movimentos que indicam que o futuro para Cascavel será muito bom, dos mais promissores e com foco na organização e na valorização de conceitos modernos. A criação do Conselho de Desenvolvimento Econômico Sustentável, que integra 65 entidades, é prova disso. Essas forças organizadas e seus representantes querem ajudar a pensar e a participar de ideias e soluções para o futuro, para que ele seja pautado em projetos de médio e longo prazos e que, além de crescimento econômico e social, ocorram avanços em mobilidade urbana, em respeito ao meio ambiente e em sustentabilidade.

 

Hoje: A Acic é uma das associações comerciais mais conceituadas e respeitadas do Estado, como é possível fomentar ainda mais este fortalecimento?

 

Alci: A fórmula foi arquitetada pelo grupo de 51 empreendedores que, em 4 de abril de 1960, decidiram criar a Acic. A missão é defender os interesses da livre iniciativa, atuar pautado pela legalidade e respeito ao próximo, observar a Constituição e defender o desenvolvimento social e econômico de forma ampla, com benefícios a todos. Trabalho, dignidade e oportunidade de realizar sonhos são conquistas que nenhum ser humano pode abrir mão.

 

Hoje: Quantos associados são hoje e quais serviços eles podem encontrar na associação comercial?

 

Alci: São mais de 13 mil associados, cerca de 95% deles microempreendedores individuais, micros e pequenos empresários. Além de representação em defesas e bandeiras estratégicas, a Acic conta um diversificado leque de produtos e serviços que coloca à disposição de suas filiadas. Entre eles estão o Serviço de Proteção ao Crédito, convênios de saúde, vale-alimentação e acesso a linhas de crédito, cursos e capacitações, além da integração de empresários de setores afins por meio dos núcleos setoriais, do Programa Empreender.

 

Hoje: Nestes 57 anos, a história da Acic se confunde com a de Cascavel, e como projetar as próximas décadas tanto para um quanto para o outro?

 

Alci: Não vejo outra possibilidade de futuro senão a partir da organização, do planejamento, do compartilhamento de responsabilidades, da humildade e de muito trabalho. Se essas virtudes forem reunidas em um amplo projeto de longo prazo, a Cascavel dos próximos anos será ainda melhor do que essa, já tão bela, progressista e que tanto nos orgulha.

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