Tratamento
– A dor pode tornar o paciente mais resistente
Depressão: hora de
dar a volta por cima
“O
que não me mata, me fortalece”, dizia o filósofo alemão
Nietzsche, no século 19. E durante muito tempo inúmeros
médicos pareciam usar esse pensamento como receita para “tratar”
pacientes em quadros depressivos. Ou seja, acreditavam que o sofrimento
psíquico, o abatimento físico e a melancolia que levavam
alguns indivíduos ao fundo do poço eram capazes, por si
só, de fazê-los também dar a volta por cima, como
se a dor os tornasse mais resistentes. “Certa vez, um professor
na faculdade, seguindo essa linha de raciocínio, falou que a depressão
não precisava ser tratada. É óbvio que hoje não
podemos encarar a doença desta forma. Até porque ela pode
levar à morte, sim, seja pelo suicídio ou por contribuir
com o desenvolvimento de doenças cardiovasculares e estar ligada
à morbidade”, alertou Thomas Schlaepfer, professor de psiquiatria
da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, durante simpósio
realizado pela Federação Mundial para Saúde Mental.
Mas, por incrível que pareça, ainda é possível
encontrar pessoas - inclusive vários profissionais de saúde
- que da mesma maneira minimizam as dores da depressão.
E isso é motivo de grande preocupação por parte dos
especialistas no assunto: o desconhecimento dos sintomas adia o diagnóstico
e o tratamento adequado, comprometendo seriamente a qualidade de vida
do indivíduo. No evento na capital francesa, inclusive, foi apresentado
o estudo Testando os Médicos, encomendado pela WFMH e realizado
em cinco países - Alemanha, Brasil, França, México
e Reino Unido -, que revelou a dificuldade dos clínicos gerais
em reconhecer a doença. Para se ter idéia, 68% não
acreditava que dores físicas são sinais do problema. “A
falta de conhecimento os impede de receitar o procedimento adequado”,
constatou Preston Garrison, presidente da Federação Mundial
para Saúde Mental. Segundo ele, é preciso ampliar a rede
de informações para médicos e leigos, bem como sensibilizar
os órgãos públicos para que haja mais investimento
nessa área da saúde. “Às vezes o paciente chega
ao consultório do dentista, por exemplo, para tratar uma disfunção
na articulação têmporo-mandibular. Cerca de 60% desses
casos têm por trás a depressão. Esse dentista deveria
ser capaz de colaborar com o diagnóstico da doença”,
analisa o psicólogo Adriano Camargo, presidente da Associação
Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos.Uma
outra pesquisa da WFMH, chamada A Verdade Dolorosa, revela que o indivíduo
passa por cinco consultas diferentes e leva cerca de 11 meses para descobrir
que está com depressão. Esse estudo internacional, realizado
em 2005, concluiu ainda que 72% dos pacientes com depressão não
sabiam que dores físicas inexplicadas poderiam ser sintomas da
doença e por isso não procuraram ajuda adequada mais cedo.
Três
grandes mitos
1 Depressão pode ser curada com força de vontade. Não
é bem assim, pois se trata de doença orgânica que
provoca alteração química cerebral. Isso independe
da vontade do indivíduo. Porém o distúrbio pode e
deve ser tratado. Daí a necessidade de vencer barreiras, acabar
com o estigma e procurar ajuda especializada o quanto antes.
2 Depressão não acomete crianças e jovens. Errado.
Pesquisas americanas revelam que uma em cada 33 crianças e um em
cada oito adolescentes experimentará um episódio depressivo
- e um auxílio médico será necessário. Pais
e educadores devem estar atentos -.
3 Depressão é normal na velhice. Outro equívoco.
Ocorrem muitas perdas na maturidade e elas podem vir acompanhadas de tristeza.
Mas tristeza não quer dizer depressão. Tristeza passa, depressão
possui existência autônoma.
Mobilização
global
Alarmadas
com os resultados desses trabalhos, entidades ligadas à saúde
mental de diversos países sentiram a necessidade de desenvolver
uma ação mundial para aumentar o conhecimento sobre a depressão
e a importância do correto diagnóstico e conseqüentemente
do tratamento da doença. Desta maneira, foi criada a campanha Quebrando
Barreiras.
Como representante da WFMH no Brasil, a Abrata - instituição
sem fins lucrativos - se engaja nesta causa, com o apoio da Aliança
Boehringer Ingelheim e Eli Lilly, e se empenha em atingir o maior número
de pessoas possível com ações e informações
disponibilizadas por este projeto. “Todos os profissionais de saúde
precisam ficar atentos aos sintomas da doença para poder ajudar
seus pacientes”, diz Adriano Camargo.
Outro objetivo da campanha é lutar contra o estigma da depressão.
Afinal, ela ainda é cercada por tabus, o que dificulta ainda mais
que pessoas deprimidas assumam o problema e procurem ajuda adequada. Portanto,
quanto mais a população souber sobre o mal, menor será
o grau de preconceito em relação a ele.
Notícias
que assustam
A doença
atinge cerca de 340 milhões de pessoas em todo o mundo - no Brasil
são 17 milhões -. Segundo a OMS (Organização
Mundial da Saúde), atualmente ela ocupa a quarta posição
no ranking de causas de incapacidade (perda de anos de vida saudável)
da população mundial, fi- cando atrás de infecções
respiratórias, condições perinatais e HIV/aids. Em
2020, ou seja, em apenas 14 anos, saltará para a segunda colocação,
perdendo apenas para as doenças cardiovasculares.
A depressão não diagnosticada tem um impacto substancial
na vida do indivíduo: traz sofrimento ao paciente, provoca grande
tensão nas relações familiares, reduz a produtividade
em relação ao trabalho. Isso sem falar nos altos custos
gerados para os sistemas de saúde.
E uma nova descoberta faz agravar ainda mais essa situação.
“Todo episódio de depressão deixa rastros no cérebro.
Quanto mais se espera por auxílio especializado, mais os neurônios
vão sendo danificados. Um estudo realizado na Escandinávia
relaciona a depressão não tratada ao desenvolvimento de
doenças neurodegenerativas. Um paciente sem tratamento correto
tem quatro vezes mais riscos de males como Alzheimer e Parkinson”,
relata Thomas Schlaepfer, professor de psiquiatria da Universidade Johns
Hopkins.
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