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Gato por lebre

Alceu Sperança é escritor e cidadão cascavelense - alceusperanca@ig.com.br

As cláusulas de barreira, ao privilegiar frentes e não partidos, reprisam no Brasil o que já havia acontecido com o Congresso Constituinte, o aleijão de 1986 que nos deu um presidente misto de imperador e primeiro-ministro. As elites mais rancorosas deste País, órfãs da opressão, adorariam empalmar esse poder absolutista. Adotaram Geraldo Alckmin como desaguadouro para suas frustrações, melindres e falso moralismo, mas compraram gato por lebre, pois se Alckmin se elegesse iria frustrar a Sociedade Rural tanto quanto Lula frustrou as correntes de esquerda que caíram em suas lorotas.
A direita odienta deste País adotou Alckmin acreditando que ele fosse cumprir a agenda do Opus Dei, mas iria quebrar a cara, pois o ex-governador paulista é um social-democrata típico do Brasil. Ilude o povo, mas não se amasia com radicais. Lula frustrou a esquerda iludida em que ele cumpriria um programa de preparação ao socialismo. O presidente se revelou na verdade um social-democrata neoliberal típico, nada diferente, nesse caso, de Alckmin. Ou seja, a direita também ganhou com a vitória de Lula.
E a esquerda? O PPS não conseguiu ultrapassar as cláusulas de barreira e, com isso, Roberto Freire, depois de destroçar o PCB (Partido Comunista Brasileiro), joga na lata do lixo até o “Socialismo” que, embora traído a cada passo, culminando com a adesão ao projeto social-democrata neoliberal de Alckmin, ainda se mantinha na sigla do partido que ele criou ao liquidar o PCB. Junta-se ao PMN para formar um novo partido cuja sigla não quer dizer absolutamente nada: PMD. Pode-se fazer “mobilização” tanto numa greve quanto para descer o porrete nos grevistas.
Tomara os bons companheiros que se frustraram com os descaminhos do projeto de Roberto Freire de construir um partido “socialista” façam agora bom uso das lições que aprenderam nas reuniões do PCB - empregar as categorias marxistas nas avaliações e fazer constante autocrítica - e cumpram o caminho de volta para a sua sigla histórica. É cretinice abrir mão de princípios, um programa voltado para a perceptiva socialista e toda uma história de lutas em favor do povo brasileiro em troca das migalhas de uma legislação eleitoral falida, que cedo ou tarde terá que ser trocada por mecanismos institucionais mais adequados à consolidação da democracia popular no País. Não é justo atirar ao lixo toda essa história: um patrimônio de sangue derramado, dezenas de companheiros assassinados pela ditadura, a luta dedicada e patriótica de Luís Carlos Prestes. E isso tudo para não perder fundo partidário e alguns minutinhos de propaganda de sabão em rádio e tevê.
Retornar ao partido histórico seria uma atitude corretiva, também cabível àqueles que no PT e outras agremiações que se pretendem comunistas e socialistas embarcaram na ilusão de que Lula é de “esquerda” e teria algum projeto real voltado à conquista do socialismo.

Caixa: de pandora ao túmulo

Antonio Brás Constante é escritor em Canoas (RS) - abrasc@terra.com.br

A vida é uma caixinha de surpresas e a maioria das coisas que sonhamos e procuramos se resume em uma busca por essas formas cúbicas. Quando pequenos esperamos pacientemente pelos aniversários, Dia das Crianças e Natal, querendo... Caixas! Cheias de presentes, mas inicialmente almejando encontrar as tais caixas. Coloridas. Enfeitadas. Misteriosas. Porém, depois de abertas, todo encanto é dissipado e os presentes recebidos acabam em um canto largados. Sendo o ápice desses eventos o ato de receber e abrir os belos pacotes quadrados.
Vivemos em um mundo redondo. Talvez isso explique o motivo de estarmos sempre em desarmonia com o nosso planeta. Pois somos em nossa essência seres quadrados. O Brasil demonstrou toda a incompatibilidade causada pela junção dessas formas geométricas quando utilizou um quadrado mágico para jogar na Copa do Mundo, onde o centro das atenções era a bola. O resultado foi um gigantesco fiasco.
Os adultos preferem os embrulhos, vivendo embrulhados para pagá-los. As mulheres se contentam com pequenas caixas, recheadas de sapatos ou em forma de estojos com jóias brilhantes dentro. Já os homens gostam de caixas maiores, que se movimentem levando-os para todos os lados. Eles chamam estas caixas de automóveis e nutrem uma profunda adoração por elas.
Os homens e as mulheres preferem outras caixas intituladas apartamentos. São caixas extremamente caras e às vezes precisam dispor de uma caixa-forte recheada de dinheiro para poderem adquirir o imóvel de seus sonhos.
Já os políticos se contentam com caixas dois, através delas manuseiam todo dinheiro não contabilizado, advindo de verdadeiras caixas-pretas, pois ninguém consegue descobrir nada sobre as mesmas.
O destino da humanidade é morrer e ser colocada em uma caixa (caixão) para ali repousar por toda a eternidade. Esta preocupação não costuma atingir os jovens, porém o homem adulto passa a se preocupar com sua mortalidade. Principalmente quando começa a ser taxado de quadrado pelas novas gerações, sinal de que a sua vida já está mais perto do fim do que do início.
O ser humano é uma verdadeira caixa de pandora, guardando dentro de si uma infinidade de sentimentos que evita expor ao mundo para não destruir o que entende por realidade, ou simplesmente para não se indispor com os demais seres “quadrantais” que vivem ao seu redor. Enquanto agirmos de forma quadrada, seremos sempre párias em um universo de ilimitadas formas.
Enfim, para alcançarmos a paz e a felicidade que sonhamos, devemos transformar as linhas retas do quadrado de nossas vidas em algo flexível, que possa ser moldado de tal maneira que consiga transformar os lados de nossa caixinha existencial em um belo par de asas. Dando-nos assim, condições de seguir junto com nossa imaginação rumo ao infinito.

 

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