Coragens
Luciano Pires é jornalista, escritor, conferencista e cartunista
- www.lucianopires.com.br
Os deputados Raul Jungman e Fernando Gabeira me deixaram perplexo quando
participaram daquela confusão na entrada do Congresso, no dia do
julgamento de Renan Calheiros. Tentaram entrar no plenário do Senado
e foram impedidos pelos seguranças, entre gritos e empurrões...
Nunca imaginei vê-los saindo no tapa. Não combina com eles...
Pois naquele dia, como em tantos outros, assistimos a um confronto entre
coragens. De um lado a coragem moral impelindo os deputados para dentro
do plenário para fiscalizar uma votação que prometia
ser - como foi - vergonhosamente arranjada. De outro lado a coragem física
dos seguranças a serviço dos covardes morais impedindo-os
de entrar.
No campo das discussões ideológicas, coragem física
é arma de quem não tem capacidade para enfrentar desafios
intelectuais. Faltam argumentos? Porrada! E em nossa sociedade, infelizmente,
a coragem física é mais aceita e incentivada que a coragem
moral.
A coragem física tem beleza plástica. Motiva. Faz história,
recebe medalhas, aparece na mídia, produz heróis. A coragem
física de um bombeiro que arrisca a vida, por exemplo. A coragem
do policial que combate o criminoso. A coragem do soldado que enfrenta
as balas do inimigo. A coragem do domador diante do leão. Do trapezista
lançando-se no espaço. A coragem do atleta que se expõe
a contusões em busca da vitória. A coragem de seu filho
ou sobrinho, que tira as rodinhas de apoio da bicicleta e sai equilibrando-se
pela primeira vez...
Já a coragem moral não é transmitida ao vivo pela
televisão. E, se for, raramente é compreendida. Coragem
moral é discreta, virtualmente invisível. É muito
comum que seja exercida de forma solitária. Não dá
pra sentir sua força. A coragem moral raramente dá medalha,
pódio ou estatuetas. Não pode ser comprada nem emprestada.
E por isso as pessoas não vêem importância nela.
Já a coragem física todo o mundo vê. Implica numa
certa truculência. Em treinamento incansável. No desenvolvimento
de reflexos. No condicionamento para responder aos momentos de pressão.
E pode ser comprada. Aqueles leões-de-chácara que quebram
braços são comprados pelos covardes morais. E ganham sempre,
na porrada, no curto prazo.
O que acontece hoje no Congresso brasileiro é uma luta quase impossível
de três ou quatro dezenas de corajosos morais contra centenas de
covardes morais, que atuam com portas fechadas, bem distantes de nossos
olhos. O irônico é que nos bastidores do embate moral, a
coragem física é mero instrumento, o que torna a coragem
moral mais importante. No entanto... Como dar valor a uma coragem que
ninguém vê? Ou entende? Que não interessa à
mídia? Que não se aprende na escola? Que não é
referência?
Talvez os corajosos morais devessem comprar uns corajosos físicos
e organizar uma militância para impor a moral na porrada.
- Mas isso é imoral! Pois é...
Arqueologia no campo santo
Tarcísio Vanderlinde é professor doutor da Unioeste, no
campus de Marechal Cândido Rondon - assessoria@unioeste.br
Assim como tantos outros daquela comunidade, ali também me dirigi
por vezes incontáveis para sepultar um amigo ou parente. A oportunidade
é adequada para uma reconciliação com o inevitável,
com a dimensão pessoal de finitude.
Se tantos que nos foram íntimos estão agora ali descansando,
parece que o inevitável passa a ter uma maior aceitabilidade. Acostumar-se
com esta dimensão pode diminuir a carga de estresse e melhorar
a qualidade de vida. Encarar o assunto de frente auxilia na desconstrução
do mito da eterna juventude, coisa inventada pelo capitalismo e que costuma
atormentar muitas pessoas até o final de suas vidas. O lugar onde
se guardam os mortos pode enfim ser um local que ajuda a se pensar nos
valores que transcendem a própria vida.
Contudo, cemitérios podem servir também para outras reflexões.
É um lugar que revela a existência de um tipo de mercantilização
de coisas consideradas sagradas e serviços que vão se sofisticando
com o tempo. Em muitos casos, procura-se manter a posição
social do indivíduo através dos materiais que se utilizam
na construção da “última morada”.
Quem não tem posição pode ter até a sepultura
esquecida ou apagada. Por outro lado, um jazigo de destaque pode também
revelar o ardor da homenagem póstuma e o amor da família
por aquele ente querido que já se foi.
A formatação dos túmulos indica a evolução
de arquiteturas específicas de determinada época em que
os mortos foram sepultados. Pode-se imaginar o costume de décadas
passadas examinando a forma dos túmulos. Os dizeres do epitáfio,
às vezes escritos em idiomas que expõe a situação
étnica ou cultural da pessoa, pode revelar saudade, esperança
ou indicar subliminarmente a situação trágica que
aquele indivíduo partiu.
Além de fotografias, às vezes ali são deixadas vestes,
brinquedos, objetos de uso cotidiano como chapéu, uma alegoria
ao lazer da pessoa ou o desenho de uma bandeira do clube de futebol que
o finado torcia em vida. Também não é tão
incomum constatar que pessoas mandaram construir sua “última
morada” estando ainda vivas. Tem sempre alguém que não
quer deixar muito serviço para os outros.
Outro aspecto interessante a ser observado é que a direção
de como as pessoas foram sepultadas ou acomodadas no cemitério,
pode relacionar-se à opção espiritual da mesma. Mas
o tempo e as transformações socioculturais vão interferindo
nesta tradição. Em decorrência daquilo que se crê,
talvez tenha se entendido a irrelevância de ser sepultado numa ou
outra direção. Pode haver de fato coisas mais importantes.
Visitar um campo santo e refletir sobre o nosso destino deveria nos converter
em pessoas melhores e verdadeiramente preocupadas em deixar algo de bom
para quem depois de nossa partida ainda ficar algum tempo por aqui. A
verdade é que tudo passa muito rápido. O salmista já
havia observado: “como a relva que floresce de madrugada: de madrugada
viceja e floresce; à tarde murcha e seca”.
George Soros considerado um dos maiores especuladores dos tempos de globalização
– que um dia também será passado – está
comprando e arrendando milhares de hectares de terra no Brasil para satisfazer
a volúpia da sociedade de consumo que já não consegue
viver mais sem automóveis. Ele tem “confessado” que
preferiria ser recordado como um filósofo que pudesse deixar alguma
coisa mais útil para a humanidade, do que ser apenas lembrado como
alguém que se notabilizou pela habilidade em ganhar muito dinheiro.
Desconsiderando que a confissão possa ser uma artimanha para ganhar
ainda mais dinheiro, talvez, tardiamente, ele tenha descoberto que existam
coisas mais respeitáveis para fazer, e, que poderiam trazer maior
satisfação aos viajantes que tiveram o privilégio
de viver algumas décadas neste planeta.
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