Edição nº 4797 - Terça-feira, 30 de Outubro de 2007 Classificados | Assinatura | Impressão
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Coragens

Luciano Pires é jornalista, escritor, conferencista e cartunista - www.lucianopires.com.br

Os deputados Raul Jungman e Fernando Gabeira me deixaram perplexo quando participaram daquela confusão na entrada do Congresso, no dia do julgamento de Renan Calheiros. Tentaram entrar no plenário do Senado e foram impedidos pelos seguranças, entre gritos e empurrões... Nunca imaginei vê-los saindo no tapa. Não combina com eles...
Pois naquele dia, como em tantos outros, assistimos a um confronto entre coragens. De um lado a coragem moral impelindo os deputados para dentro do plenário para fiscalizar uma votação que prometia ser - como foi - vergonhosamente arranjada. De outro lado a coragem física dos seguranças a serviço dos covardes morais impedindo-os de entrar.
No campo das discussões ideológicas, coragem física é arma de quem não tem capacidade para enfrentar desafios intelectuais. Faltam argumentos? Porrada! E em nossa sociedade, infelizmente, a coragem física é mais aceita e incentivada que a coragem moral.
A coragem física tem beleza plástica. Motiva. Faz história, recebe medalhas, aparece na mídia, produz heróis. A coragem física de um bombeiro que arrisca a vida, por exemplo. A coragem do policial que combate o criminoso. A coragem do soldado que enfrenta as balas do inimigo. A coragem do domador diante do leão. Do trapezista lançando-se no espaço. A coragem do atleta que se expõe a contusões em busca da vitória. A coragem de seu filho ou sobrinho, que tira as rodinhas de apoio da bicicleta e sai equilibrando-se pela primeira vez...
Já a coragem moral não é transmitida ao vivo pela televisão. E, se for, raramente é compreendida. Coragem moral é discreta, virtualmente invisível. É muito comum que seja exercida de forma solitária. Não dá pra sentir sua força. A coragem moral raramente dá medalha, pódio ou estatuetas. Não pode ser comprada nem emprestada. E por isso as pessoas não vêem importância nela.
Já a coragem física todo o mundo vê. Implica numa certa truculência. Em treinamento incansável. No desenvolvimento de reflexos. No condicionamento para responder aos momentos de pressão. E pode ser comprada. Aqueles leões-de-chácara que quebram braços são comprados pelos covardes morais. E ganham sempre, na porrada, no curto prazo.
O que acontece hoje no Congresso brasileiro é uma luta quase impossível de três ou quatro dezenas de corajosos morais contra centenas de covardes morais, que atuam com portas fechadas, bem distantes de nossos olhos. O irônico é que nos bastidores do embate moral, a coragem física é mero instrumento, o que torna a coragem moral mais importante. No entanto... Como dar valor a uma coragem que ninguém vê? Ou entende? Que não interessa à mídia? Que não se aprende na escola? Que não é referência?
Talvez os corajosos morais devessem comprar uns corajosos físicos e organizar uma militância para impor a moral na porrada.
- Mas isso é imoral! Pois é...

 

Arqueologia no campo santo

Tarcísio Vanderlinde é professor doutor da Unioeste, no campus de Marechal Cândido Rondon - assessoria@unioeste.br

Assim como tantos outros daquela comunidade, ali também me dirigi por vezes incontáveis para sepultar um amigo ou parente. A oportunidade é adequada para uma reconciliação com o inevitável, com a dimensão pessoal de finitude.
Se tantos que nos foram íntimos estão agora ali descansando, parece que o inevitável passa a ter uma maior aceitabilidade. Acostumar-se com esta dimensão pode diminuir a carga de estresse e melhorar a qualidade de vida. Encarar o assunto de frente auxilia na desconstrução do mito da eterna juventude, coisa inventada pelo capitalismo e que costuma atormentar muitas pessoas até o final de suas vidas. O lugar onde se guardam os mortos pode enfim ser um local que ajuda a se pensar nos valores que transcendem a própria vida.
Contudo, cemitérios podem servir também para outras reflexões. É um lugar que revela a existência de um tipo de mercantilização de coisas consideradas sagradas e serviços que vão se sofisticando com o tempo. Em muitos casos, procura-se manter a posição social do indivíduo através dos materiais que se utilizam na construção da “última morada”.
Quem não tem posição pode ter até a sepultura esquecida ou apagada. Por outro lado, um jazigo de destaque pode também revelar o ardor da homenagem póstuma e o amor da família por aquele ente querido que já se foi.
A formatação dos túmulos indica a evolução de arquiteturas específicas de determinada época em que os mortos foram sepultados. Pode-se imaginar o costume de décadas passadas examinando a forma dos túmulos. Os dizeres do epitáfio, às vezes escritos em idiomas que expõe a situação étnica ou cultural da pessoa, pode revelar saudade, esperança ou indicar subliminarmente a situação trágica que aquele indivíduo partiu.
Além de fotografias, às vezes ali são deixadas vestes, brinquedos, objetos de uso cotidiano como chapéu, uma alegoria ao lazer da pessoa ou o desenho de uma bandeira do clube de futebol que o finado torcia em vida. Também não é tão incomum constatar que pessoas mandaram construir sua “última morada” estando ainda vivas. Tem sempre alguém que não quer deixar muito serviço para os outros.
Outro aspecto interessante a ser observado é que a direção de como as pessoas foram sepultadas ou acomodadas no cemitério, pode relacionar-se à opção espiritual da mesma. Mas o tempo e as transformações socioculturais vão interferindo nesta tradição. Em decorrência daquilo que se crê, talvez tenha se entendido a irrelevância de ser sepultado numa ou outra direção. Pode haver de fato coisas mais importantes.
Visitar um campo santo e refletir sobre o nosso destino deveria nos converter em pessoas melhores e verdadeiramente preocupadas em deixar algo de bom para quem depois de nossa partida ainda ficar algum tempo por aqui. A verdade é que tudo passa muito rápido. O salmista já havia observado: “como a relva que floresce de madrugada: de madrugada viceja e floresce; à tarde murcha e seca”.
George Soros considerado um dos maiores especuladores dos tempos de globalização – que um dia também será passado – está comprando e arrendando milhares de hectares de terra no Brasil para satisfazer a volúpia da sociedade de consumo que já não consegue viver mais sem automóveis. Ele tem “confessado” que preferiria ser recordado como um filósofo que pudesse deixar alguma coisa mais útil para a humanidade, do que ser apenas lembrado como alguém que se notabilizou pela habilidade em ganhar muito dinheiro.
Desconsiderando que a confissão possa ser uma artimanha para ganhar ainda mais dinheiro, talvez, tardiamente, ele tenha descoberto que existam coisas mais respeitáveis para fazer, e, que poderiam trazer maior satisfação aos viajantes que tiveram o privilégio de viver algumas décadas neste planeta.

 

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