A pedagogia que emergiu das cinzas
Tarcísio Vanderlinde é professor da Unioeste no campus de Marechal Cândido Rondon - imprensa@unioeste.br
O tema Acessibilidade: Um Caminho para a Inclusão marca a Semana Nacional dos Portadores de Dificuldades Especiais. A acessibilidade parece ser um dos grandes desafios para a inclusão daqueles que são diferentes. Mas o maior problema ainda continua na cabeça das pessoas. Entidades como a CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) e até a Rede Globo têm contribuído para dar visibilidade à questão, contudo, os avanços ainda são modestos.
Pouco se sabe, por exemplo, sobre os procedimentos pedagógicos voltados aos portadores de deficiência discutidos por Reuven Feuerstein. Lev Seminovitch Vigótski e Jean Piaget podem ser considerados os principais inspiradores da formulação da mediação como princípio educacional defendido por Feuerstein. Nascido na Romênia em 1921 e ainda ativo em Israel (esteve participando de seminário em São Paulo em janeiro de 2006), Feuerstein pode ser considerado um dos grandes educadores do século XX.
Das suas convicções de que a inteligência não é um dom inato e que, portanto, não poderia ser mensurada por testes padronizados, é que nasce a idéia de que a inteligência é dinâmica e modificável ao longo da vida. Dessa visão surge a sua principal teoria, a da Modificabilidade Cognitiva Estrutural. Nessa concepção, a inteligência é modificável e pode ser construída a partir de múltiplos fatores que se relacionam com todos os comportamentos cognitivos.
As experiências que levaram Feuerstein a formular suas idéias a respeito de educação foram com crianças salvas do holocausto durante a Segunda Guerra Mundial. Feurstein percebeu que apesar de terem aprendido a sobreviver, essas crianças acabaram não desenvolvendo suas capacidades cognitivas, eram “indivíduos privados culturalmente”. A crença na modificabilidade do ser humano, e, portanto na possibilidade de recuperar o tempo perdido dessas crianças não se origina apenas numa visão filosófica ou religiosa do educador. Mas a origem étnica e a visão religiosa teriam tido peso significativo nas conclusões do educador. Acredita-se que Feuerstein teria sido estimulado por alguns textos religiosos como o da visão profética descrita por Ezequiel: “De algum modo, esses ossos viverão”.
Mas sua crença, acima de tudo pode ser considerada como resultado de um árduo trabalho realizado com crianças portadoras de problemas cerebrais de diversas naturezas e da Síndrome de Down. A vivência de Feuerstein com essas crianças levou-o a acreditar na capacidade de adaptação do ser humano para sobreviver, mesmo em situações extremamente desfavoráveis, ou seja: um cenário de pós-guerra, no qual imperava o medo da morte, da perda de entes queridos, situação que levou a denominar as crianças vítimas do holocausto de “crianças das cinzas”. É deste cenário, portanto que emerge sua pedagogia. Os estudiosos do educador concordam que a pedagogia estabelecida por ele não é importante apenas no ambiente escolar, mas pode ser aplicada por pessoas de qualquer idade e nível de escolaridade. Esta conclusão é a motivação que certamente mantém o educador octogenário ativo.as
A teoria da modificabilidade de Feuerstein fundamenta-se na crença de que todo ser humano é capaz de modificar-se, independente de sua idade, condição genética, origem, etnia. Esta modificação, contudo deve ser produto da interação entre pessoas, o que implica a presença de um mediador, aquele que seleciona os estímulos que permitem ao mediado uma maior compreensão do mundo. A mediação como princípio educacional é a base que faz movimentar a pedagogia que emergiu das cinzas do holocausto através das crianças sobreviventes.
Como conclusão pode-se afirmar que a pedagogia de Feuerstein questiona a pedagogia da excelência, muito exigida na visão hegemônica dos processos educacionais, mas, perigosa e excludente se considerada uma condução inclusiva de abrangência social mais justa.
Para informações adicionais consulte-se: Souza, Ana Maria Martins de; Depresbiteris, Lea; Machado, Osny Telles Marcondes. A mediação como princípio educacional: bases teóricas das abordagens de Reuven Feuerstein. São Paulo: Editora Senac, 2004.
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