Kit
falta de vergonha
Percival Puggina
é empresário e escritor em Porto Alegre - www.puggina.org
“Vai transar? O governo dá
camisinha. Já transou? O governo dá pílula. Engravidou?
O governo dá o aborto. Teve filho? O governo dá o Bolsa-Família.
Tá desempregado? O governo
dá Bolsa-Desemprego. Vai prestar vestibular? O governo dá
o Bolsa-Cota. Não tem terra? O governo dá o Bolsa-Invasão
e ainda te aposenta. É um círculo vicioso manejando a manada.
Eeeh..oh..oh.. vida de gado... povo marcado... povo feliz” (Autor
desconhecido).
E eu acrescento: Perdeu a vergonha? Não procure no governo que
ele não tem.
Em certo escritório, dois colegas foram assistir a uma apresentação
de dança. Um deles só aceitou o programa porque o amigo
o presenteou com o ingresso, constrangendo-o, assim, a comparecer. Quando
o espetáculo terminou, o colega admirador da arte indagou: “E
então, gostaste?” Ao que o outro, com franqueza, respondeu:
“Uma bela música, um lindo cenário, garotas muito
bonitas, bem ensaiadas, mas tu sabes como eu sou - se não transo,
não me divirto”.
Lembrei-me disso ao ver as campanhas que promovem o uso de preservativos
de borracha durante o Carnaval. No festival de grossura que assola o País,
a grande imprensa e o próprio governo parecem decididamente dispostos
a transformar o Carnaval numa festa da sexualidade irresponsável.
Sempre houve e sempre haverá quem só se divirta dessa maneira,
como o sujeito da anedota, mas felizmente ainda não é isso
o que se observa na maioria dos salões e nas ruas, onde a diversão
corre por conta da música, do ritmo, da dança, e de muitas
outras atividades e prazeres aos quais as pessoas se dedicam em tais circunstâncias.
Portanto, a associação que se procura fazer, com cunho oficial,
chancela verde-amarela e repercussão mundial, entre Carnaval e
libertinagem, é uma forma de estabelecer o desvio como padrão,
até que a boa conduta se converta em desvio.
Quando isso acontecer, estará evidenciado o segundo e fatal erro
de tais campanhas, pois se há relação entre o avanço
da Aids e a promiscuidade sexual, quanto mais promíscuos houver,
maior será a incidência da moléstia que supostamente
se deseja combater. No Carnaval deste ano, a falta de vergonha oficial
alcançou seu ponto máximo. Tendo compreendido, talvez, que
a camisinha não é um salvo-conduto perfeito, o governo inclui
no kit falta de vergonha uma pílula do dia seguinte (não
deveriam ser três?), para facilitar o aborto no caso de fracasso
do preservativo.
O “peso social”
da infertilidade para a mulher
Luciana Leis é psicóloga
da Clínica Gera e especializada no tratamento de casais com problemas
de fertilidade - wirthmarcia@uol.com.br
Na história da humanidade, a desigualdade
entre homens e mulheres sempre marcou as relações sociais
e definiu os papéis sexuais. Deste modo, na cultura ocidental coube
ao homem trabalhar e garantir o sustento do lar.
Às mulheres foram destinados os afazeres domésticos e os
cuidados com os filhos. Com a sociedade assim organizada, com o passar
do tempo, as mulheres foram ficando vinculadas à idéia da
maternidade para “tornarem-se plenas”. A capacidade de gerar
um filho foi reconhecida como "natural" em todas as mulheres,
bem como o desejo da maternidade.
No entanto, com o advento da 1ª Guerra Mundial, as mulheres tiveram
que sair de suas casas para cuidarem de feridos em hospitais, cultivarem
o campo e ocuparem os postos dos homens nas indústrias. A guerra
proporcionou maior liberdade, responsabilidade e novas perspectivas profissionais
às mulheres. Desta forma, cada vez mais integrada ao sistema produtivo,
a maternidade passou a não ser mais o centro da vida das mulheres.
A vida profissional e a afetiva passaram a ocupar lugares de destaque
no universo feminino.
Uma nova mãe. Mesmo em meio a tantas transformações
e conquistas, o desejo da maternidade continuou sendo muito valorizado
pelas mulheres. E, aqui, devemos diferenciar o desejo de maternidade da
mulher moderna daquele que existia antigamente, uma vez que todas as mudanças
sociais que ocorreram no decorrer de anos levaram a um amadurecimento
deste processo.
Hoje o aspecto mais valorizado pela mulher é a liberdade de ser
responsável por seu próprio caminho. A maternidade deixou
de ser o único objetivo da vida da mulher, passando a ser uma das
possíveis escolhas em busca de seu desenvolvimento pessoal.
A maternidade é um dos caminhos para que as mulheres possam se
realizar e sentirem-se produtivas. O desejo de filhos está bastante
interiorizado na maioria delas, fruto de uma conquista histórica
e passado de mãe para filha através de processos identificatórios.
Sendo assim, a notícia da infertilidade pode abrir um vazio quanto
ao referencial feminino, principalmente se não houver abertura
para a análise de outras possibilidades onde se possa “se
sentir mulher”.
Associada à questão sociocultural que não deve ser
desconsiderada, é interessante destacar também que o desejo
de filhos data desde a primeira infância, onde podemos ver meninas
brincando com seus “bebês imaginários”, adiando,
assim, a concretização deste desejo para a vida adulta.
Tendo em vista todos os fatores até agora expostos, nota-se que
ter filhos acaba sendo um dos importantes pilares da construção
da identidade feminina. Entre as mulheres com dificuldade para engravidar
é comum o sentimento de que não conseguir ser mãe
é como não ser completamente mulher. Desta maneira, podemos
compreender melhor todos os sentimentos envolvidos na busca do filho desejado:
“ansiedade a mais”, “preocupação a mais”,
“desejo de engravidar maior que as outras mulheres”, como
se sem este “a mais” a gravidez não pudesse acontecer.
Podemos afirmar que este “a mais” de investimentos, na verdade,
nos revela um “a menos” no campo da feminilidade. A busca
centrada no filho faz com que esta mulher se esqueça que além
da maternidade existem outras possibilidades de investimentos férteis
e gratificantes, enquanto o bebê não vem.
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