Edição nº 4889 - quarta-feira, 30 de janeiro de 2008 Classificados | Assinatura | Impressão
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Kit falta de vergonha
Percival Puggina é empresário e escritor em Porto Alegre - www.puggina.org

“Vai transar? O governo dá camisinha. Já transou? O governo dá pílula. Engravidou? O governo dá o aborto. Teve filho? O governo dá o Bolsa-Família. Tá desempregado? O governo dá Bolsa-Desemprego. Vai prestar vestibular? O governo dá o Bolsa-Cota. Não tem terra? O governo dá o Bolsa-Invasão e ainda te aposenta. É um círculo vicioso manejando a manada. Eeeh..oh..oh.. vida de gado... povo marcado... povo feliz” (Autor desconhecido).
E eu acrescento: Perdeu a vergonha? Não procure no governo que ele não tem.
Em certo escritório, dois colegas foram assistir a uma apresentação de dança. Um deles só aceitou o programa porque o amigo o presenteou com o ingresso, constrangendo-o, assim, a comparecer. Quando o espetáculo terminou, o colega admirador da arte indagou: “E então, gostaste?” Ao que o outro, com franqueza, respondeu: “Uma bela música, um lindo cenário, garotas muito bonitas, bem ensaiadas, mas tu sabes como eu sou - se não transo, não me divirto”.
Lembrei-me disso ao ver as campanhas que promovem o uso de preservativos de borracha durante o Carnaval. No festival de grossura que assola o País, a grande imprensa e o próprio governo parecem decididamente dispostos a transformar o Carnaval numa festa da sexualidade irresponsável.
Sempre houve e sempre haverá quem só se divirta dessa maneira, como o sujeito da anedota, mas felizmente ainda não é isso o que se observa na maioria dos salões e nas ruas, onde a diversão corre por conta da música, do ritmo, da dança, e de muitas outras atividades e prazeres aos quais as pessoas se dedicam em tais circunstâncias. Portanto, a associação que se procura fazer, com cunho oficial, chancela verde-amarela e repercussão mundial, entre Carnaval e libertinagem, é uma forma de estabelecer o desvio como padrão, até que a boa conduta se converta em desvio.
Quando isso acontecer, estará evidenciado o segundo e fatal erro de tais campanhas, pois se há relação entre o avanço da Aids e a promiscuidade sexual, quanto mais promíscuos houver, maior será a incidência da moléstia que supostamente se deseja combater. No Carnaval deste ano, a falta de vergonha oficial alcançou seu ponto máximo. Tendo compreendido, talvez, que a camisinha não é um salvo-conduto perfeito, o governo inclui no kit falta de vergonha uma pílula do dia seguinte (não deveriam ser três?), para facilitar o aborto no caso de fracasso do preservativo.

O “peso social” da infertilidade para a mulher
Luciana Leis é psicóloga da Clínica Gera e especializada no tratamento de casais com problemas de fertilidade - wirthmarcia@uol.com.br

Na história da humanidade, a desigualdade entre homens e mulheres sempre marcou as relações sociais e definiu os papéis sexuais. Deste modo, na cultura ocidental coube ao homem trabalhar e garantir o sustento do lar.
Às mulheres foram destinados os afazeres domésticos e os cuidados com os filhos. Com a sociedade assim organizada, com o passar do tempo, as mulheres foram ficando vinculadas à idéia da maternidade para “tornarem-se plenas”. A capacidade de gerar um filho foi reconhecida como "natural" em todas as mulheres, bem como o desejo da maternidade.
No entanto, com o advento da 1ª Guerra Mundial, as mulheres tiveram que sair de suas casas para cuidarem de feridos em hospitais, cultivarem o campo e ocuparem os postos dos homens nas indústrias. A guerra proporcionou maior liberdade, responsabilidade e novas perspectivas profissionais às mulheres. Desta forma, cada vez mais integrada ao sistema produtivo, a maternidade passou a não ser mais o centro da vida das mulheres. A vida profissional e a afetiva passaram a ocupar lugares de destaque no universo feminino.
Uma nova mãe. Mesmo em meio a tantas transformações e conquistas, o desejo da maternidade continuou sendo muito valorizado pelas mulheres. E, aqui, devemos diferenciar o desejo de maternidade da mulher moderna daquele que existia antigamente, uma vez que todas as mudanças sociais que ocorreram no decorrer de anos levaram a um amadurecimento deste processo.
Hoje o aspecto mais valorizado pela mulher é a liberdade de ser responsável por seu próprio caminho. A maternidade deixou de ser o único objetivo da vida da mulher, passando a ser uma das possíveis escolhas em busca de seu desenvolvimento pessoal.
A maternidade é um dos caminhos para que as mulheres possam se realizar e sentirem-se produtivas. O desejo de filhos está bastante interiorizado na maioria delas, fruto de uma conquista histórica e passado de mãe para filha através de processos identificatórios. Sendo assim, a notícia da infertilidade pode abrir um vazio quanto ao referencial feminino, principalmente se não houver abertura para a análise de outras possibilidades onde se possa “se sentir mulher”.
Associada à questão sociocultural que não deve ser desconsiderada, é interessante destacar também que o desejo de filhos data desde a primeira infância, onde podemos ver meninas brincando com seus “bebês imaginários”, adiando, assim, a concretização deste desejo para a vida adulta.
Tendo em vista todos os fatores até agora expostos, nota-se que ter filhos acaba sendo um dos importantes pilares da construção da identidade feminina. Entre as mulheres com dificuldade para engravidar é comum o sentimento de que não conseguir ser mãe é como não ser completamente mulher. Desta maneira, podemos compreender melhor todos os sentimentos envolvidos na busca do filho desejado: “ansiedade a mais”, “preocupação a mais”, “desejo de engravidar maior que as outras mulheres”, como se sem este “a mais” a gravidez não pudesse acontecer.
Podemos afirmar que este “a mais” de investimentos, na verdade, nos revela um “a menos” no campo da feminilidade. A busca centrada no filho faz com que esta mulher se esqueça que além da maternidade existem outras possibilidades de investimentos férteis e gratificantes, enquanto o bebê não vem.

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