MISÉRIA
Vidas diferentes com realidades semelhantes revelam o abandono e o descaso
Retratos do desespero urbano
Luciane Piran, dona de casa, casada, dois filhos, de oito e quatro anos.
Lúcia Lopes, dona de casa, casada e sem filhos. A primeira vive
no Bairro 14 de novembro, região sul de Cascavel. A segunda no
Jardim Ipanema, no leste da cidade. Elas moram em casebres de chão
batido, sem água encanada ou energia elétrica. O marido
de Luciane, desempregado até pouco mais de um mês, cuida
de uma horta para sustentar a família. O de Lúcia, com problemas
de saúde e a visão comprometida, trabalha de catador de
papel. A meta diária das duas mulheres é uma só:
tentar não morrer de fome.
As semelhanças não param por aí. As duas famílias
são vítimas do esquecimento do poder público. Elas
não têm acesso aos programas sociais dos governos federal,
estadual e municipal.
“Com R$ 200 conseguiríamos passar o mês inteiro”,
diz Luciane.
Em lágrimas, ela descreve a sofrida situação: “Moramos
oito anos em Cascavel e a vida sempre foi difícil. Moramos aqui
de favor e o dono da casa mandou que a gente saísse”.
A família Lopes vivia no Bairro Esmeralda e foi transferida pela
prefeitura para o local em que estão atualmente. Eles e outras
três famílias que dividem o terreno utilizam baldes e um
banheiro improvisado nos fundos do quintal para a higiene pessoal e as
necessidades fisiológicas. “Nos tiraram do Esmeralda e nos
largaram aqui. Não recebemos ajuda”.
Segundo ela, desde que se mudou para o Jardim Ipanema, nenhuma assistente
social ou equipe da prefeitura os procurou para saber de suas condições.
“Tem dias em que passamos fome. O que nos ajuda são os R$
15 que meu marido ganha catando papel, além da doação
dos outros”.
A situação das duas famílias está longe de
ser exceção e mostra o retrato da miséria em Cascavel.
Em alguns bairros, esses casos já se transformaram em regra, em
que os casos esporádicos são de pessoas que possuem condições
de sobrevivência.
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Sem resposta
A Secretaria de Ação Social da prefeitura foi procurada
pelo Hoje duas semanas antes da publicação desta matéria
para que informassem os programas do governo municipal na área
de assistência e reinserção social. No entanto, não
houve retorno por parte da administração municipal.
SEM CRITÉRIOS
Distribuição de ajuda é desigual
O artigo sexto do capítulo 2 da Constituição brasileira,
em que trata dos direitos sociais, diz: “São direitos sociais
a educação, a saúde, o trabalho, a moradia [...],
assistência aos desamparados, na forma dessa Constituição”.
Embora seja a lei soberana do País, ela está longe de ser
cumprida. O problema é que muitos cidadãos não são
tratados de forma igual, principalmente quanto aos seus direitos básicos.
Prova disso foi constatada in loco em Cascavel. Enquanto famílias
que moram na cidade, estão inseridas no Código Tributário
Municipal, são excluídas dos programas sociais, ocupações
irregulares são atendidas, inclusive com equipes médicas.
Esse é caso dos acampamentos de sem-terra em Cascavel, que recebem
cestas básicas da prefeitura entregues nos próprios locais,
têm a visita periódica de assistentes sociais, médicos
e dentistas.
A prática não tem o aval do Conselho Municipal de Assistência
Social, no entanto, a prefeitura mantém o repasse, apesar de não
garantir o mesmo atendimento ao restante da população.
“São totalmente erradas essas doações, pois
a maioria dos integrantes quer levar vantagem, além do mais, eles
usam da violência para conseguirem o que querem. Só sabem
comer, dormir e esperar a ajuda do governo”, desabafou o presidente
do Conselho, Santo Savi, destacando as famílias trabalhadoras que
não tem qualquer tipo de assistência.
A diretora da Secretaria de Ação Social, Maria Machado,
bem como a assessoria de imprensa da prefeitura, foram procurados em busca
de informações a respeito dos atendimentos prestados aos
grupos de sem-terra, bem como os motivos que os levam a atendê-los,
já que a questão da reforma agrária é de competência
da União. Mas ninguém quis falar sobre o assunto.
DESABAFO
Sem perspectivas de saírem da dependência
A dona de casa Roseni Fernandes tem quatro filhos e está à
espera da quinta criança que nascerá em dois meses. Ela
vive no Conjunto Araucária, região norte de Cascavel. Recebe
auxílio do Programa Bolsa-Família, tem água encanada,
energia elétrica, filhos na escola, e marido que trabalha de servente
de pedreiro.
Passando para o conjunto Julieta Bueno, Bairro Interlagos, encontramos
Jucinéia Aparecida Machado, família grande, de nove pessoas.
Também recebe o Bolsa-Família e tem as condições
mínimas de sobrevivência.
A família de Cristiane Bello, 19, é formada por sete pessoas:
sua mãe, sua filha e seus quatro irmãos, com idade entre
oito e 16 anos. “Nos mantemos com os R$ 150 que minha mãe
ganha catando papel e com o salário que recebo trabalhando em aviários,
catando galinhas”. O único auxílio é a bolsa
do Peti (Programa para a Erradicação do Trabalho Infantil),
que varia de R$ 80 a R$ 95 por mês. Segundo ela, em todo fim de
mês falta comida. “Para não deixar meus irmãos
passarem fome, pedimos dinheiro emprestado para comprarmos algo para comer”,
confessa Cristiane.
“Antigamente recebíamos visitas do pessoal da prefeitura,
que sempre se preocupavam em saber do que precisávamos. Mas agora
ninguém naus aparece”, lamenta Roseni.
Com Jucinéia o caso é um pouco diferente. “Há
alguns dias recebemos uma visita do pessoal da prefeitura, mas eles só
vêm quando é para saber do pagamento da casa”. Ela
afirmou que o valor total da dívida já chega a R$ 7 mil.
“Não temos condições de pagar, e, além
do mais, sempre que chove dentro de casa fica tudo molhado. Nunca vieram
nos perguntar como está a nossa situação”.
As duas mulheres lembraram que no passado recebiam cestas básicas
e atendimentos em casa.
FOME ZERO
Milhares de pessoas sobrevivem do Bolsa-Família
O ditado “Não dê o peixe, ensine a pescar” não
faz parte das política sociais públicas. Tanto que, via
de regra, a mão do governo nas periferias e favelas é vista
apenas por meio do Programa Bolsa-Família, que prevê o repasse
mensal de dinheiro às famílias cadastradas. O benefício
faz parte da integração das Bolsas Escola e Família
e outros criados no Governo de Fernando Henrique Cardoso e ampliado na
primeira gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, dentro do
Programa Fome Zero.
Em Cascavel o Bolsa-Família atende a 9.782 famílias, número
que oscila devido à quantidade de cortes e ingressos. No entanto,
apesar de significativo o número, há ainda outras 13 mil
famílias à espera de serem inseridas no programa.
O que chama atenção no perfil dos bolsistas cascavelenses
é a quantidade de filhos: mais de 126 famílias beneficiadas
possuem entre cinco e oito filhos, mas só recebem auxílio
para no máximo três.
Para algumas, o auxílio é a única fonte de sustento.
Janete Ferreira Araújo mora do Bairro Cascavel Velho, região
leste de Cascavel. Seu marido está desempregado e tenta ajudar
na renda da família catando papel, mas a fonte fixa de sustento
são os R$ 95 repassados pelo programa todos os meses. “Já
passamos semanas comendo apenas polenta, pois era a única coisa
que tínhamos em casa”.
Com três filhos para criar, um deles doente, Janete procura lotes
para carpir em troca de dinheiro. “Não conseguimos um emprego
melhor. Nem casa temos. Moramos de favor com meu cunhado por não
temos como pagar aluguel”.
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Exigências
Os valores pagos pelo Bolsa-Família varia de R$ 15 a R$ 95, de
acordo com a renda mensal por pessoa e com o número de crianças.
Ao integrar no programa, há o comprometimento do beneficiário
em manter as crianças e adolescentes freqüentando a escola
e a cumprir os cuidados básicos em saúde: o calendário
de vacinação para as crianças de até seis
anos, e a agenda pré e pós-natal para as gestantes e mães
lactantes.
Os critérios de elegibilidade são definidos como pessoas
em situação de pobreza - com renda mensal por pessoa de
R$ 60,01 a R$ 120 -, ou extrema pobreza - com renda mensal por pessoal
de até R$ 60.
COMBATE À POBREZA
Setor privado assume papel do Estado
Enquanto a ajuda do poder público não chega, o setor privado
se manifesta com projetos que auxiliam famílias pobres, andarilhos,
mendigos, pessoas sem perspectivas.
Em Cascavel, duas entidades estão registradas na Secretaria de
Ação Social e prestam atendimentos voluntários aos
carentes: o Albergue Noturno da Sociedade Espírita de Jesus e o
Instituto Alfredo Kaefer.
O Albergue Noturno existe desde 1973 e oferece atendimento para pessoas
em casos de alta complexidade, como mendigos, transeuntes, moradores de
rua, e até mesmo àqueles têm parentes em hospitais
e não têm onde ficar.
A presidente da Associação Espírita Irmandade de
Jesus e coordenadora do Albergue, Valdemira Bibiano da Silva, conta que
quem o procura tem direito a banho, jantar, pernoite e café da
manhã durante, no máximo, sete dias por mês. “Os
cidadãos que vêm aqui são muito carentes, passam fome.
Temos casos de pessoas que todos os meses procuram o albergue”.
A capacidade de alojamento é de 70 pessoas, sendo 60 camas para
homens e dez para mulheres, devido à demanda masculina ser maior.
“São raras as vezes em que alojamos mulheres”.
Em geral, são recebidas de 15 a 30 pessoas, mas no inverno o número
dobra.
Para atender albergueiros, são investidos cerca de R$ 2,5 mil mensais,
usados na compra de arroz, feijão, carne, materiais de limpeza
e outros produtos. Dez voluntários ajudam a entidade, os quais
fazem o jantar e consertam as roupas doadas pela comunidade.
Mas a boa vontade deles esbarra no poder público: “Várias
vezes solicitamos uma assistente social para entender o caso de cada pessoa
que nos procura. Mas nunca fomos atendidos”, lamenta Valdemira.
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Fortalecendo a Família
Outro projeto de auxílio às famílias pobres é
o programa Fortalecendo a Família, do Instituto Alfredo Kaefer.
Leonice Rotaza, colaboradora do projeto, explica que são atendidas
24 famílias dos Bairros Interlagos, Julieta Bueno, Araucária,
Gramado e Santa Cruz.
A proposta é organizar hortas comunitárias cujos produtos
são destinados ao sustento dos participantes. Semanalmente, as
famílias se dirigem ao Seminário Jesuítas para cuidar
das plantações. Lá recebem auxílio de dois
estudantes do curso de Agronomia da FAG (Faculdade Assis Gurcacz) que
os ensinam técnicas de plantio. “A previsão é
estender o programa para 50 famílias. A idéia é comercializar
os produtos cultivados, a fim de gerar renda aos participantes”.
Quinzenalmente os integrantes do projeto se reúnem na Escola Municipal
Maria Fumiko, onde recebem palestras e acompanhamento de assistentes sociais.
“Essas famílias vivem em casebres, alguns sem saneamento
e energia elétrica. Participando do Fortalecendo a Famílias
elas recebem, todos os meses, uma cesta básica”.
CRISE
Expectativa de melhora com a safra não foi concretizada
Setores econômicos
amargam baixas vendas
Apesar das expectativas otimistas para este ano por conta da recuperação
da safra agrícola, diferentes setores da economia cascavelense
amargam o baixo movimento e tentam driblar a crise com alternativas, algumas
ousadas. O comércio, por exemplo, aposta em liquidações
e vendas em longo prazo para conquistar o consumidor. O gerente de uma
loja de confecções Rui Mânica investiu na liquidação.
“Como o movimento vem calmo, decidimos fazer essa liquidação
com preços atrativos para chamar os clientes e, apesar de ser fim
de mês, está dando resultado”.
Rui iniciou as promoções dia 23 e já contabilizou
um aumento de aproximadamente 30% nas vendas, ajudado pelo frio registrado
no meio da semana.
O presidente da Amic (Associação de Micros e Pequenas Empresas
do Oeste do Paraná), Telmo Kottwitz, observa que o leve aquecimento
nas vendas com a queda na temperatura nos últimos dias é
um processo ilusório, já que os consumidores ainda estão
pagando dívidas contraídas no fim do ano e os que compram
agora estão gastando o que não têm reservado.
“Percebo pelo meu estabelecimento que neste mês voltaram cheques
acima da média. É o mesmo cliente dos cheques pagos nos
meses anteriores, mas neste momento esse consumidor está passando
por um período difícil e não está gastando”.
O presidente da Amic lembra que é preciso ter cautela nas vendas
de prazo estendido, uma das opções de comerciantes que precisam
desovar seus estoques parados. Ele explica que, com a expectativa de safra
boa, o comércio adquiriu mais mercadoria. Mas como o agricultor
aproveitou a melhoria para pagar financiamentos agrícolas e não
gastou no comércio, os empresários ficaram sem dinheiro
para novos investimentos e a alternativa está sendo a venda em
longo prazo. “É um suicídio da própria empresa,
porque, para manter o giro interno terá de fazer financiamento
e se houver balanço na economia não conseguirá se
recuperar”.
Telmo ressalta que, apesar da atual situação, a expectativa
é de melhora no segundo semestre do ano, em decorrência do
aumento do salário mínimo do trabalhador, da exportação
de carne e da continuidade de safra boa do agricultor.
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Crise generalizada
O Sindicato dos Hotéis, Bares, Restaurantes e Similares de Cascavel
também sente no bolso a crise econômica. O presidente da
entidade, Luiz Fadanelli, observa que a queda no movimento é geral.
Ele ressalta que em pizzarias, churrascarias e restaurantes da cidade
a reclamação é unânime. Fadanelli ressalta
que janeiro e fevereiro foram meses considerados bons, mas em março
e abril a clientela caiu cerca de 35%.
O presidente da Apras (Associação Paranaense de Supermercados)
de Cascavel, Rubmar Beal, nota que no setor a comercialização
foi inversa a dos restaurantes. Nos dois primeiros meses as vendas seguiram
a média baixa do ano passado, mas em março e abril a comercialização
cresceu cerca de 5%, se comparada ao mesmo período do ano passado.
“Nossa expectativa é boa. Esperamos fechar o ano com 7% a
8% a mais de vendas do que no ano passado”.
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