Jorge
Luiz Trannin
“Quero
saber quando vamos fazer saúde”
Jorge Luiz
Trannin é chefe da 10ª Regional de Saúde desde 2003,
atende pelo Siate (Sistema Integrado de Atendimento ao Trauma em Emergências)
de Cascavel desde 2001, é médico desde 1983 e trabalha para
o governo do Estado desde 1983. Trannin fala sobre a responsabilidade
dos três níveis - federal, estadual e municipal - com a Saúde
e ressalta que Cascavel precisa produzir saúde e não gerenciar
a doença.
Hoje: Como
está a situação dos leitos do SUS em Cascavel?
Jorge Trannin: Nossa deficiência não é de leitos hospitalares,
é de leitos de UTI. Saíram os hospitais Policlínica
e São Lucas do sistema e fiquei sem 50 leitos, mas abri 20 leitos
no Hospital Santa Catarina e 30 no Nossa Senhora da Salete. Então
continuamos com o mesmo número de leitos hospitalares. Hoje, de
UTI, só temos cinco no Hospital Nossa Senhora da Salete e dez no
HU [Hospital Universitário]. Estou lutando para abrir mais dez
no Hospital Santa Catarina, pois temos a necessidade de 13 de UTI. O diagnóstico
das pessoas está errado ao pensarem que faltam leitos. Já
resolvemos esse problema, a questão agora é de UTI.
Hoje: O que
falta para abrir esses leitos?
Trannin: Só conseguiremos quando o Hospital Santa Catarina reabrir
os dez leitos que têm, mas para isso é preciso investimento.
Eles começaram em outubro e estão trabalhando a todo vapor.
Em dois, três meses, colocam os leitos de UTI. Recuperamos os leitos
credenciados perdidos e só nos falta recuperar os de UTI credenciados
perdidos. A nossa parte já fizemos. O que preciso agora é
que o Ministério da Saúde aumente o valor da tabela do SUS
e que a prefeitura diminua os agravos.
Hoje: Como
diminuir os agravos?
Trannin: Quando é que vamos começar a produzir saúde?
Essa é a pergunta que fiz em julho de 2003 para todos os 25 secretários
da Regional. Nos reunimos e fizemos um pacto: o que faremos para evitar
a doença. Os municípios começaram a investir no Programa
Saúde da Família, em capacitação dos médicos,
fizemos treinamento dos médicos dos municípios do interior,
capacitação em psiquiatria. Então hoje, dos 100 doentes
que vão para o HU todos os dias, só dez vêm dos 24
municípios, 90 são de Cascavel. O que está havendo
em Cascavel? Precisamos de uma unidade de saúde que pense em produzir
saúde.
Hoje: De
que forma?
Trannin: As pessoas precisam ser estimuladas a parar de fumar, a parar
de beber, a emagrecer, andar, caminhar, tomar remédio descentemente.
Se fizerem isso, a maioria das pessoas não ficará tão
doente. Temos que nos atentar aos dados epidemiológicos. Senão
o que acontecerá? Vamos abrir mais 100 leitos, 200 leitos. Estou
brigando para melhorar os leitos, temos que brigar juntos para melhorar
o pagamento do SUS, mas a prefeitura tem que reconhecer e brigar para
produzir saúde, caso contrário não haverá
leito suficiente.
Hoje: Seria
um diagnóstico social?
Trannin: Por que não colocam crianças para estudar 12 horas
por dia, como existe proposta, com esporte, lazer, cultura, para que elas
não fiquem na rua fumando crack? Temos que abrir 17 leitos para
menores drogados no Hospital Universitário, pois Cascavel tem um
enorme problema com isso. Temos que fazer diagnóstico. Será
que ele [menor] está fora de casa e não está estudando?
Será que a mãe tem problema? Precisamos saber o que está
acontecendo.
Hoje: É
difícil fazer esse estudo?
Trannin: Se a pessoa acha difícil fazer, acha-se incompetente,
acha que não consegue fazer, tem que sair, pedir o boné
e ir embora. O que não dá é dizer assim: ‘Mas
os médicos não têm interesse de atender nas unidades
básicas de saúde porque ganham pouco, não sei o que’.
Tem que achar solução porque, se o País é
pobre, a solução terá que ser encontrada. Fiquei
sem 50 leitos, fui lá e abri mais 50 em outros hospitais. Eles
querem isso? Não. Mas fui lá negociar, conversar, fazer
um novo fluxo. Então, converse com os médicos, veja as necessidades
deles. Temos que inventar para inverter essa realidade. Mas se não
começar, daqui a três ou quatro anos vamos continuar internando
diabéticos, as pessoas continuarão cegas porque são
diabéticas, continuarão tendo que amputar pernas porque
são diabéticas.
Hoje: Como
analisa o lado dos médicos?
Trannin: Se um médico está mal remunerado, é claro
que ele vai arrumar outros empregos. Agora você já imaginou
se um promotor de Justiça tiver que fazer bicos como advogado,
dando plantão à noite em algum lugar? Chamo isso de pacto
da mediocridade. O SUS finge que paga, o médico finge que atende
e o paciente finge que melhora. Não adianta a desculpa que não
tem dinheiro. Se acha que não tem a capacidade de gerenciar o caos
do jeito que é, vai embora.
Hoje: E tem
dinheiro para pagar os médicos?
Trannin: Dinheiro tem. Está no Ministério da Saúde,
no Ministério da Segurança, está no governo federal.
Temos que nos unir para lutar pelo dinheiro. Tudo bem, mas antes temos
que acabar com os ralos que têm aqui. Estamos desperdiçando
dinheiro público, tratando todos no nível terceário.
Se estivéssemos fazendo saúde de qualidade na base, estaríamos
diminuindo agravo, sobraria dinheiro, e poderíamos investir no
que realmente precisa. Agora, internando diarréia, desidratação,
é complicado. Não estamos conseguindo dar a volta nos problemas
básicos.
Hoje: E quanto
ao PAC (Posto de Atendimento Continuado), Samu (Serviço de Atendimento
Móvel de Urgência) e Siate?
Trannin: O PAC atende 40 mil pessoas, resolve 93% dos casos. Isso é
ótimo, mas são pessoas doentes. O Samu pega o paciente em
casa e leva para o hospital, maravilha. O Siate pega o traumatizado e
leva vivo para o hospital, muito bom. Mas isso tudo é doença.
Temos Secretaria de Saúde ou Secretaria de Doença?
BATE-RÁPIDO
Secretário de Saúde de Cascavel, Nadir Willi:
“Acho que tem experiência em hospitais privados. Falta experiência
com o produzir saúde. Só lidou com doença até
hoje”
Prefeito
de Cascavel, Lísias Tomé:
“Acho que podia ter dado uma resposta melhor nesses dois anos. Esperamos
que nos próximos dois dê a resposta que sempre esperei dele,
quando o conheci há 20 anos”
Direção
do HU:
“São altamente sérios, competentes. Toda vez que briguei
com eles, um dos dois tinha razão, ou eu ou eles, mas não
me arrependo porque ambos somos sérios”
Promotor
de Saúde, Ângelo Ferreira:
“Uma das pessoas mais inteligentes que já conheci, por isso
o admiro. Tento ser tão estudioso quanto ele, acho-me estudioso,
mas acredito que ele seja ainda mais”
Governador
do Paraná, Roberto Requião:
“Sério, honesto e acho parecido comigo. Não adianta
vir com bobagem, comigo e com ele o pau quebra”.
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