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Criação de emprego e geração de qualidade

Luiz Gonzaga Bertelli é presidente executivo do Ciee (Centro de Integração Empresa-Escola) e diretor da Fiesp (Federação da Indústria do Estado de São Paulo) - roberto_mattus@cieesp.org.br

Ano eleitoral é sempre um bom momento para a reflexão sobre os grandes e, infelizmente, recorrentes problemas nacionais, cuja solução parece caminhar a passos de tartaruga, tal a morosidade com que são enfrentados. Quando os candidatos se mobilizam disputando os cargos públicos, suas campanhas, evidentemente, dão preferência a temas que ocupam o topo das pesquisas sobre as maiores preocupações do cidadão. Isso não significa, necessariamente, que tais temas terão prioridade durante os mandatos dos eleitos.
Para confirmar essa lamentável situação, basta lembrar que há décadas a questão do emprego é abordada de maneira superficial, descolada da realidade do mercado. Primeiro porque a criação de novos postos de trabalho não depende apenas da vontade dos governantes, mas de uma série de medidas articuladas, incluindo investimento em infra-estrutura, política educacional adequada, segurança dos marcos regulatórios e reformas fiscal, previdenciária e política, entre outras - enfim, um conjunto de medidas bem conhecidas e sempre adiadas -.
Mas apenas para efeito de raciocínio, vamos imaginar que se abram vagas em quantidade suficiente para absorver não só os atuais quase 10 milhões de brasileiros desempregados, mas também os quase 2 milhões de jovens que, todos os anos, batem à porta do mercado de trabalho, em busca do primeiro emprego. O mais triste é que, mesmo chegando a essa situação ideal, nem todos os que estão na fila de espera conseguirão um emprego, por uma razão fácil de entender: os nossos indicadores educacionais e de qualificação profissional revelam que boa parte dos desempregados não preencherá os requisitos exigidos atualmente pelo mercado de trabalho, mesmo que tenham em mãos um diploma do Ensino Médio ou, até, de curso superior.
Não é preciso ser especialista em relações laborais para perceber que muita coisa mudou no universo empresarial. Já não basta um conceituado diploma para assegurar estabilidade e bom salário, pois as empresas dão mais valor à formação teórica somada à experiência. Fato que suscita uma pergunta muito repetida: como exigir prática de quem nunca assinou um contrato de trabalho? A resposta já foi “descoberta” pelos encarregados dos processos seletivos e pelos muitos estudantes que saem a campo, batalhando por uma oportunidade de estágio. É esse tipo de treinamento prático, introduzido no Brasil há 42 anos como atividade pedagógica (complementação do aprendizado escolar), que assegura a efetivação de 84% dos jovens que têm a sorte de conquistar um estágio em organizações parceiras do Ciee (Centro de Integração Empresa-Escola). Bastaria esse número para comprovar a eficácia do estágio como fonte de recrutamento de talentos e como instrumento de inclusão profissional. Esse papel ainda é comprovado pela experiência. De início, o estágio foi adotado e valorizado no âmbito das grandes empresas, em especial as multinacionais norte-americanas e européias que já haviam absorvido, em seus países de origem, a cultura do treinamento dos próprios talentos. Hoje já é praxe em organizações de médio e até mesmo pequeno porte, que testaram e aprovaram os resultados de programas de estágio bem administrados e realizados de acordo com parâmetros definidos pelas escolas e por especialistas em capacitação profissional.
Nesta era do conhecimento, os formuladores de políticas públicas, interessados em processos eficientes de inclusão dos jovens no mercado de trabalho, não podem deixar de estimular a prática do estágio. E isso não apenas por seu valor como instrumento de capacitação de futuros profissionais, mas também por outro aspecto altamente positivo: a bolsa-auxílio, paga por todas empresas parceiras do Ciee como remuneração ao estudante em treinamento, é reconhecida pelos próprios jovens e suas famílias como uma renda fundamental para que milhares deles consigam concluir seus estudos e assim deixem de engrossar as estatísticas de baixa escolaridade, que relegam o País a um dos últimos lugares no ranking mundial de qualificação profissional e transformam tantos brasileiros em vítimas da desigualdade educacional, talvez mais perniciosa do que a tão criticada desigualdade de renda.

 

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