Etanol: agroenergia para uma nova civilização
Eduardo Sciarra é deputado federal (Democratas/PR) - imprensa@eduardosciarra.com.br
Em recente palestra na Câmara dos Deputados, a convite da Frente
Parlamentar dos Biocombustíveis, o ex-ministro da Agricultura Roberto
Rodrigues, agora co-presidente da Comissão Interamericanas do Etanol
- ao lado do governador da Califórnia, Jeb Bush, e do presidente
do Banco Interamericano de Desenvolvimento, Luís Alberto Moreno
-, teceu importantes considerações sobre as oportunidades
que se abrem para o Brasil neste momento de transição entre
a era do petróleo e o que ele denominou de “nova civilização
da agroenergia”.
De fato, o nosso país, graças ao pioneirismo do Proálcool,
ainda nos anos 70, ocupa hoje a dianteira tecnológica, industrial
e comercial na transformação da biomassa em combustível
limpo, renovável e abundante.
A abertura dessa janela de oportunidade se deve, principalmente, ao anúncio
pelo presidente dos Estados Unidos de um plano para adicionar 20% de etanol
à gasolina que movimenta a enorme frota automobilística
americano, até 2017. Essa, aliás, foi uma questão
central na pauta das visitas que George W. Bush e Lula trocaram em março.
No dia 9 daquele mês, em São Paulo, ambos assinaram protocolo
de intenções no setor de cooperação agronergética.
Como lembrou Rodrigues, com o seu grande conhecimento de causa e - para
repetir Camões - “saber de experiência feito”,
a competitividade do álcool combustível brasileiro é
imbatível sob todos os pontos de vista. O segredo é a produtividade
de uma matéria-prima, a cana-de-açúcar. Enquanto
o milho dos Estados Unidos, fortemente subsidiado, produz apenas 3,5 mil
litros de etanol por hectare, a mesma área plantada com a nossa
brasileiríssima cana produz 6 mil litros.
No Brasil há espaço de sobra para fazer frente a qualquer
aumento da demanda americana (ou mundial) por etanol, agora ou no futuro:
temos 62 milhões de hectares ocupadas pela agricultura em geral
e, destes, apenas 6 milhões pela cana. De pastos, são mais
200 milhões de hectares, imensidão que se vai tornando supérflua
graças à evolução da tecnologia agropecuária
do confinamento e semiconfinamento. Tudo isso é possível
sem nenhuma agressão ao patrimônio ecológico da floresta
amazônica ou do Pantanal, mesmo porque essas regiões, excessivamente
úmidas, são pouco hospitaleiras para a cana-de-açúcar,
que necessita de uma estação seca para concentrar sacarose.
Ademais, graças a três décadas de desenvolvimento
da nossa agroindústria, a cadeia de negócios que giram em
torno da cana sustenta indústria de equipamentos e estrutura de
comercialização mundialmente conhecidas e respeitadas.
Para os nossos parceiros americanos, faz todo o sentido adotar o etanol
a fim de reduzir a dependência de países fornecedores de
petróleo instáveis ou hostis e diminuir as emissões
de gases que provocam o efeito-estufa, responsável pelo aquecimento
global. O que não dá para aceitar são os bilionários
subsídios aos plantadores de milho do meio-oeste, representados
por poderosas bancadas no Capitólio: sobretaxa de 2,5%, mais tarifa
de US$ 0,14 por litro de etanol importado, o que pune a superior competitividade
do produto brasileiro e já está influenciando o preço
das rações e da carne naquele país.
Contornar essa barreira, permitindo que o protocolo Bush/Lula saia do
papel, exigirá maturidade na condução das relações
bilaterais. Só assim o Brasil liderará com sucesso uma ampla
aliança política e empresarial dos setores antiprotecionistas
de lá e de cá. Em outras palavras, a política externa
deste segundo governo petista, no melhor interesse nacional, deverá
abandonar suas ilusões terceiro-mundistas para cair na real.
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