Edição nº 4941 - sábado, 22 de março de 2008 Classificados | Assinatura | Impressão
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Por uma agenda positiva, contra nosso hibridismo...
Waldo Luís Viana é escritor, poeta, economista e radical de centro - waldo@infolink.com.br

Estou realmente cansado de ciladas geométricas. As esquerdas, na primeira década do século XXI, num mundo de relatividades quânticas, continuam a vivenciar na política o sonho da Revolução Francesa e repartem a sociedade entre girondinos e jacobinos.
Sou de centro, ou seja, radical de centro. Não suporto ser de esquerda e festejar a morte do general Pinochet ou ser de direita e ficar feliz com a esclerose de Fidel Castro. Para mim, sem dúvida, foram e são dois opressores do povo. Chávez e Morales, o Evo, fazem parte da mesma tigela populista e ditatorial. São homens que só aceitam no fundo a unanimidade e querem o contraditório na cadeia, fuzilado ou torturado. Não dá.
Considero farsantes, igualmente, quase todos os candidatos brasileiros. Não vi ou ouvi deles uma idéia que prestasse, a não ser as táticas e estratégias de sempre para chegar ao poder. Como sempre, eles negam as candidaturas, mas só pensam nelas. Quanto às alternativas para a população, nada. As propostas, vão traí-las como sempre logo após as eleições.
Devo confessar, entretanto, que gostaria de uma agenda positiva, antes de pensar em nomes e candidatos.
Vejam só, enquanto servia às esquerdas sem pestanejar, Fernando Gabeira era o tal. Agora, que expandiu sua cabeça (ele que não tem visto de entrada nos Estados Unidos, porque é considerado terrorista), as esquerdas metem o malho nele, dizendo que é um farsante lacerdista, lembrando a trajetória de Carlos Lacerda, que foi ídolo da direita, mas era um convertido das hostes de esquerda. Do mesmo modo, temos a vida pregressa de Roberto Campos, almoxarife de esquerda do Itamaraty, e do general Golbery, do grupo Sorbonne de 64 e um dos “fundadores de honra” do PT.
A barafunda é enorme, quando pensamos em termos de epistemologia ideológica, porque Hitler e Stálin eram de direita, de esquerda, ou o contrário? Quem matou mais, Pol Pot, a bomba de Hiroshima, Mao Tsé-Tung, Idi Amin Dada, Kadhafi, os norte-americanos na Coréia, no Vietnam ou no Iraque, ou os russos no Afeganistão, na Hungria, na Tchecoeslováquia ou na Chechênia? É pra escolher e dar com o pau...
No Brasil, temos o Lulinha paz e amor, que dizem ser um prestimoso colaborador do Foro de São Paulo, organização terrorista de esquerda, mas, para se manter no poder, convidou o senhor Henrique Meirelles como guardião da moeda, ex-presidente mundial do Banco de Boston e o mais capitalista de todos os brasileiros. Onde estaria a verdade?
É um saco ouvir também a guerra de terminologias: "comuna", "companheiro de viagem", de um lado e "fascista", "homem de direita" e "vendido ao imperialismo", de outro. Parece que não há o que escolher além de decidir o lado, num filme idiota entre mocinho e bandido.
Antigamente, era mais fácil e nítido vislumbrar um caminho, porque os conservadores optavam por convicções religiosas e os progressistas afirmavam que a religião era instrumento de opressão e ópio do povo.
Com a Teologia da Libertação, a comparação entre Jesus e Marx, o terrorismo islâmico e o sionismo reativo ficou tudo misturado. Os esquerdistas preferem os muçulmanos, que pretendem um retorno talibã à Idade Média, sob o dogmático véu do Corão, enquanto os que apóiam os Estados Unidos querem também a sobrevivência do Estado de Israel, que é um país democrático e de Primeiro Mundo. No meio, os palestinos, como bucha de canhão numa guerra interminável. Afinal, quem está certo?
Voltando ao Brasil, há um ranço de ódio aos militares que fizeram uma ditadura de alta-rotatividade entre generais e não fundaram nem uma tevê pública para exaltar os próprios feitos. São perseguidos, chamados de terroristas pelos guerrilheiros ricos e anistiados e assumem uma posição técnica na ativa e nostálgica, na reserva, lembrando-se, todavia, de que no período de 1964 a 1985 não precisavam botar as mulheres na rua reivindicando reajuste salarial de 10%. São verdadeiros fantasmas na democracia e completamente confusos sobre o caminho a seguir.
A milicada é de direita ou de esquerda?
Os políticos de esquerda e direita, gozando o pleno regime da impunidade e dos foros privilegiados, com inexcedível cinismo recorrem ao povo, de dois em dois anos, para perpetuarem sua "classe" no poder. O voto aqui é obrigatório porque, evidentemente, é um dever e não um direito. E é um dever porque não muda nada. E todo brasileiro sabe disso.
O presidente, para manter sua envergadura, uniu-se ao que há de mais podre e retrógrado nas oligarquias brasileiras para governar. Mas como ele é de esquerda, está tudo justificado: basta direcionar umas migalhas aos pobres (é fácil governar para eles) e botar uns guerrilheiros em cargos de gerência que o circo está fechado. Desde que se mantenha tudo como está.
A nossa pantomima democrática só permite esse jogo imbecil entre mocinho e bandido, em que o PT (o mocinho) escolhe o Fernando Henrique como bandido, para comparar tudo o que faz de ruim agora com aquilo que o outro fez no passado. Um jogo reles de comadres, como se o país não tivesse história, como se nada tivesse sido feito antes deles e não pudesse haver uma terceira via positiva no futuro. Nunca na história desse país...
Mas o Brasil é pródigo e híbrido em tempos de pós-modernidade. Aqui, inventou-se a figura do socialismo de mercado, ou seja, vale tudo em ser mascate e fazer negócios com gordas comissões em países do Caribe, da África, do Oriente Médio e da Ásia, desde que as operações sejam praticadas por empresários "de esquerda", sucessores dos empresários "cristãos" da época da ditadura, que preferiam os Estados Unidos e a Europa. Vale fingir ainda que o governo apóia o Mercosul, desde que esteja preservada a idéia encardida de solidariedade latino-americana, uma ficção que nunca existiu.
Esse hibridismo, que não é nem de direita ou de esquerda, só tem o poder como parâmetro, repudia a lei enquanto marco regulatório que deve se manter lento e desprezível, adora os paraísos fiscais, onde os políticos fazem a festa entre as eleições e não deseja qualquer medida capaz de fazer a nação dar um salto de qualidade: não haverá revolução na educação, na saúde, nem na segurança.
Viveremos assim, assim, com medidas paliativas, com o PAC das empreiteiras e da mãe gerentona-guerrilheira (querem maior hibridismo?) e um presidente superpopular, manipulando uma oposição dócil e vazia que nada tem a oferecer, a não ser incompetência.
E ficamos sem uma agenda positiva, nas ciladas geométricas de sempre, com acusações mútuas e xingamentos, torcendo para que nada se modifique ou aconteça porque é melhor assim...
Como diria Geraldo Vandré, que foi menestrel contra a ditadura e protegido da Aeronáutica: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer...”

 

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