Estado
larápio
Maria
Lucia Victor Barbosa é socióloga - mlucia@sercomtel.com.br
Será inútil
dizer que sempre houve corrupção. Será cínico
declarar que se sempre foi assim todos devem continuar a ter caixa dois,
roubar, delinqüir, corromper, aumentar riquezas através da
corrupção como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.
Ocorre, que neste governo do partido que havia prometido durante anos
que viria para mudar, chegamos ao auge do amoralismo. A sensação
é a de que banditismo foi institucionalizado alcançando
os Poderes constituídos em suas instâncias mais altas.
Em recente entrevista à TV Globo, o presidente da República,
num daqueles atos falhos que traem o subconsciente afirmou: “em
meu governo combati a ética”. De fato Sua Excelência
pode se gabar, começando com o indefectível “nunca
em nenhum governo”, e acrescentar: roubou-se tanto, mentiu-se tanto,
enganou-se tanto.
O impressionante desses quase quatro anos de nossa história é
que a corrupção abrigada no próprio Estado nunca
foi tão deslavada. Sem o mínimo pudor a roubalheira é
escancarada nos Três Poderes, mina instituições antes
consideradas impolutas, coopta entidades que não só se calam
como participam do desregramento generalizado.
Não há mais uma clara distinção entre bandidos
e autoridades e isso foi esfregado na cara dos deputados que argüiam
o mega facínora Marcola. Ele debochou de mensaleiros e sanguessugas
com o escárnio de chefão poderoso que instituiu um Estado
dentro do Estado frouxo, corrupto, incompetente, quando não conivente
com os companheiros do crime que agora apelam para jargões de esquerda
para justificar seus atos. Afinal, nessas plagas latino-americanas quem
é de esquerda é do bem. Isto foi inculcado durante anos
nas mentes dos estudantes universitários, nos meios eclesiásticos,
artísticos, intelectuais, entre profissionais liberais. Assim,
se o PCC é de esquerda, logo é do bem.
Entretanto, depois de fazer curvar a mais poderosa rede de televisão
do país que exibiu um vídeo com indivíduos encapuzados
se queixando das prisões, exigência para que o jornalista
da Globo seqüestrado fosse solto, não é de se duvidar
que em breve o PCC consiga nosso Aldo Moro, seqüestrado em 1978 pelas
Brigadas Vermelhas e executado quando o governo italiano se recusou a
soltar brigadistas.
Em Terra de Macunaíma, porém, o provável é
que evolua a obediência aos bandidos da parte das autoridades. Num
cenário possível presídios de segurança máxima
serão abolidos. Uma lei, quem sabe, decretará o fim dos
crimes hediondos. Conceder-se-á hábeas corpus aos criminosos
de alta periculosidade. A eles, e apenas a eles serão oferecidos
direitos humanos, pois, coitados, são pessoas sofridas. E se o
governo de Luiz Inácio se recusou a declarar as Farc como terroristas,
conforme pedido do presidente colombiano, por que nosso PCC seria considerado
como tal? Enfim, se confirmará em grande estilo que no Brasil o
crime compensa.
De outro lado continuarão a dançar a dança da impunidade
mensaleiros, sanguessugas, larápios de recursos públicos,
golpistas escolados nas manhas do suborno, especialistas na arte de fraudar
licitações, malandros adestrados em superfaturamento, sonegadores
e formadores de quadrilhas, corruptos e corruptores a dobrar fortunas
resguardadas em paraísos fiscais. Reeleitos muitos deles continuarão
na doce vida que o poder concede a quem o alcança e nele se mantém.
Leis e impostos apenas para eleitores, muitos dos quais dizem nas pesquisas:
“eu faria a mesma coisa se chegasse lá”.
Diante desse estado de deterioração moral a que se chegou
vale perguntar: que povo é esse que aceita docilmente sustentar
com pesados impostos os luxos da corte? Que encara como natural a corrupção
das mais altas autoridades? Que é presa fácil da propaganda
enganosa?
Entendemos tudo sobre futebol. Temos na ponta da língua as escalações
de todas as Copas do Mundo. Sabemos de cor e salteado os gols que nelas
foram feitos pelo Brasil. Mas não nos lembramos em qual vereador
ou deputado votamos. Elegemos qualquer candidato que sabe contar piadas.
Achamos chatos os candidatos sérios, inteligentes preparados, experientes,
dignos porque estes não têm a nossa cara. O reino Brasil
apodreceu e nem nos damos conta ou isso não nos importa. Afinal,
como diz o presidente da República, todo mundo tem caixa dois e
se todo mundo tem podemos ter também, Depois é só
dizer: não sei, não vi, não estou nem aí.
Quando o mau exemplo vem de cima, quando não há mais Poderes,
instituições e entidades de classe com os quais se contar
instala-se a anomia, intensifica-se o individualismo, aumenta a impunidade
e com ela a violência. Contente o povo samba e canta: “me
engana que eu gosto”.
Cada vez mais me convenço de que Nelson Rodrigues tinha razão
quando afirmou: “subdesenvolvimento não se improvisa, é
obra de séculos”.
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