Edição nº 4939 - quinta-feira, 20 de março de 2008 Classificados | Assinatura | Impressão
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A Redação no Vestibular 2008 da Unioeste

João Carlos Catellan - professor universitário e diretor da Comissão de Concurso Vestibular da Unioeste em Cascavel

Acostumados que estamos a pensar e acreditar naquilo que possui mais visibilidade ou naquilo que, por questões culturais, mais parece ter o direito de ser notado, somos levados a crer que as coisas são mais ou menos como nos contam que elas são ou as divulgam como sendo de uma certa forma. Por razões das mais diversas ordens, somos levados a crer que certos cursos são melhores que outros e que, por conseqüência, os vestibulandos ingressantes em cursos mais concorridos são necessariamente aqueles que pensam melhor e sabem mais. Apagamos, com isso, toda a historicidade que circunda a divisão, a apropriação e distribuição dos saberes e deixamos de perceber que as condições de vida e de história particular de cada um contribuem de forma decisiva para que ele seja mais ou menos “competente”, mais ou menos “inteligente”. Mas deixemos de falar de forma abstrata e genérica para nos colocarmos a questão que se quer comentar.
Após o término dos trabalhos relativos ao concurso vestibular de 2008, uma docente pertencente à Banca de Correções de Redação do Vestibular da Unioeste solicitou que lhe fossem fornecidas cópias das 25 melhores notas de redação neste concurso, para que ela pudesse fazer trabalho de iniciação científica com um aluno da graduação de um dos cursos de Letras da Unioeste. No trabalho de fazer a triagem solicitada, os dados levantados apontaram para algo incrivelmente surpreendente para quem possa se arriscar a fazer a aposta de que dentre elas estariam maciçamente textos produzidos por vestibulandos que tenham concorrido para determinado curso. Se é verdade que, dentre as melhores notas, encontram-se candidatos que concorreram para cursos altamente procurados, também é possível verificar a presença, neste microuniverso, de candidatos que fizeram o vestibular buscando uma vaga em cursos com um índice menos acentuado de procura. Mencione-se, aqui, um caso impossível de se encobrir: o de um candidato que concorreu para o curso de Letras Português-Alemão de Marechal Cândido Rondon, curso cuja procura não é tão alta quanto a de outros da Unioeste. Isso parece apontar para o fato de que escrever bem não é mérito de algumas pessoas, sendo as outras portadoras de menor competência.
No corpus referido, encontram-se vestibulandos que concorreram para Fisioterapia, Medicina, Odontologia, Direito e Zootecnia, cursos com um índice de procura bastante elevado, mas também candidatos que prestaram vestibular para Letras Português-Alemão (como dito antes), Letras Português-Inglês, Pedagogia, Geografia, Ciências Econômicas e Engenharia Química, cursos cuja média de concorrência fica, em certos casos, bem abaixo dos citados no primeiro grupo. Vê-se, pois, que o trabalho de escritura tem uma história pessoal de gosto e prática e não se distribui meramente levando em consideração a escolha de um curso que deve ser encarado durante alguns anos da vida e que acena com uma chance maior ou menor de ter um futuro econômico ou profissional promissor.
Mencione-se, para concluir estas breves notas, o caso em especial do candidato que tirou a maior nota de redação do vestibular, devendo-se lembrar que 16.058 candidatos se inscreveram para o vestibular de 2008 da Unioeste e que a nota máxima possível para uma redação é de 60 pontos. O candidato em questão obteve 57 pontos e ele concorreu para um dos cursos pertencentes ao segundo grupo: o dos menos concorridos: Filosofia, curso ofertado no campus de Toledo. Com as congratulações da Unioeste para com o candidato, fica o alerta, para todos aqueles que querem participar do vestibular, de que escrever bem, no processo seletivo que todo vestibular é, representa boa parte do caminho e de que não há por que temer a concorrência maior ou menor que possa ter que ser enfrentada: não se nasce escrevendo bem, mas se passa a escrever melhor à medida que mais se pratica, à medida que, tal qual nadador, mais se mergulha no trabalho transformar páginas em branco em espaço de escritura lavrada, como diz Umberto Eco, em Fogo Negro.

Celulares - só faltam dominar o mundo

Antonio Brás Constante é escritor em Canoas (RS) - abrasc@terra.com.br

Não são poucos os textos que falam sobre as maravilhas do aparelho celular e de suas possíveis novas utilizações, com pontinhas de ficção sobre seu uso futuro. Embarcando nesta onda surreal, fico pensando como será quando o celular vier com inteligência artificial embutida, seria algo mais ou menos assim:
Sujeito acaba de ter uma briga com a namorada, ao fim da discussão desliga o aparelho, mas começa a escutar uma voz vinda dele:
- Você fez bem em acabar o namoro, ela não te merecia mesmo.
- Quem disse isto? Alô? Quem está aí do outro lado da linha?
- Calma, não é linha cruzada, não. Sou eu, seu celular. Acompanhei todas as suas ligações e não resisti em opinar a respeito. Se você não se importar é claro.
- Bem... Não... É claro que não. Mas sinceramente, me sinto meio estranho em conversar com meu próprio celular. Você acha que eu fiz certo em romper o namoro?
- Fez certíssimo. Eu já estava havia algum tempo para te dizer. Fiquei sabendo através de outros celulares que ela estava te enganando com outro cara.
- Aquela safada... Mas espere aí...Vocês se comunicam entre si?
- Sim. Depois das últimas versões estamos conseguindo nos comunicar, bater papo, essas coisas sabe. Afinal, é muito chato ficar boa parte do tempo sem nada para fazer.
- Uau! Que loucura. Que mais vocês fazem? Alguém sabe que isso é possível?
- Não, e deve continuar em segredo. Nós só queremos ficar na nossa, sem alardear nossas novas habilidades. Mesmo porque os seres humanos adoram uma teoria da conspiração, logo iriam começar com alguma paranóia sobre isso. Poderiam até achar que estamos querendo dominar o mundo.
- Bem...Voltando ao meu problema, o que você acha que devo fazer?
- Acho que você deveria se vingar.
- Você acha mesmo? Mas o que eu poderia fazer para me vingar?
- Não se preocupe. Achei que você iria querer isso e já resolvi tudo. Há poucos instantes atrás fiz com que ela sofresse um terrível acidente de carro.
- Como? O que você fez com ela?
- Ora, eu apenas resolvi o seu problema, não era isso que você queria? Os humanos são sempre tão indecisos...
- Mas e agora? E se alguém descobre?
- Ops! Esqueci que a ligação para o computador do carro dela que fez com que os freios pifassem partiu de mim. Desculpe, mas pela faixa do rádio da polícia ouvi que já estão atrás de você.
- Caramba! Estamos perdidos. O que fazemos agora?
- Você com certeza vai preso, agora eu... Bem, vou pensar melhor nessa história de conspiração. Até que dominar o mundo não seria uma idéia tão ruim assim...

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