A Redação no Vestibular
2008 da Unioeste
João Carlos Catellan - professor universitário e diretor
da Comissão de Concurso Vestibular da Unioeste em Cascavel
Acostumados que estamos a pensar e acreditar naquilo que possui mais
visibilidade ou naquilo que, por questões culturais, mais parece
ter o direito de ser notado, somos levados a crer que as coisas são
mais ou menos como nos contam que elas são ou as divulgam como
sendo de uma certa forma. Por razões das mais diversas ordens,
somos levados a crer que certos cursos são melhores que outros
e que, por conseqüência, os vestibulandos ingressantes em cursos
mais concorridos são necessariamente aqueles que pensam melhor
e sabem mais. Apagamos, com isso, toda a historicidade que circunda a
divisão, a apropriação e distribuição
dos saberes e deixamos de perceber que as condições de vida
e de história particular de cada um contribuem de forma decisiva
para que ele seja mais ou menos “competente”, mais ou menos
“inteligente”. Mas deixemos de falar de forma abstrata e genérica
para nos colocarmos a questão que se quer comentar.
Após o término dos trabalhos relativos ao concurso vestibular
de 2008, uma docente pertencente à Banca de Correções
de Redação do Vestibular da Unioeste solicitou que lhe fossem
fornecidas cópias das 25 melhores notas de redação
neste concurso, para que ela pudesse fazer trabalho de iniciação
científica com um aluno da graduação de um dos cursos
de Letras da Unioeste. No trabalho de fazer a triagem solicitada, os dados
levantados apontaram para algo incrivelmente surpreendente para quem possa
se arriscar a fazer a aposta de que dentre elas estariam maciçamente
textos produzidos por vestibulandos que tenham concorrido para determinado
curso. Se é verdade que, dentre as melhores notas, encontram-se
candidatos que concorreram para cursos altamente procurados, também
é possível verificar a presença, neste microuniverso,
de candidatos que fizeram o vestibular buscando uma vaga em cursos com
um índice menos acentuado de procura. Mencione-se, aqui, um caso
impossível de se encobrir: o de um candidato que concorreu para
o curso de Letras Português-Alemão de Marechal Cândido
Rondon, curso cuja procura não é tão alta quanto
a de outros da Unioeste. Isso parece apontar para o fato de que escrever
bem não é mérito de algumas pessoas, sendo as outras
portadoras de menor competência.
No corpus referido, encontram-se vestibulandos que concorreram para Fisioterapia,
Medicina, Odontologia, Direito e Zootecnia, cursos com um índice
de procura bastante elevado, mas também candidatos que prestaram
vestibular para Letras Português-Alemão (como dito antes),
Letras Português-Inglês, Pedagogia, Geografia, Ciências
Econômicas e Engenharia Química, cursos cuja média
de concorrência fica, em certos casos, bem abaixo dos citados no
primeiro grupo. Vê-se, pois, que o trabalho de escritura tem uma
história pessoal de gosto e prática e não se distribui
meramente levando em consideração a escolha de um curso
que deve ser encarado durante alguns anos da vida e que acena com uma
chance maior ou menor de ter um futuro econômico ou profissional
promissor.
Mencione-se, para concluir estas breves notas, o caso em especial do candidato
que tirou a maior nota de redação do vestibular, devendo-se
lembrar que 16.058 candidatos se inscreveram para o vestibular de 2008
da Unioeste e que a nota máxima possível para uma redação
é de 60 pontos. O candidato em questão obteve 57 pontos
e ele concorreu para um dos cursos pertencentes ao segundo grupo: o dos
menos concorridos: Filosofia, curso ofertado no campus de Toledo. Com
as congratulações da Unioeste para com o candidato, fica
o alerta, para todos aqueles que querem participar do vestibular, de que
escrever bem, no processo seletivo que todo vestibular é, representa
boa parte do caminho e de que não há por que temer a concorrência
maior ou menor que possa ter que ser enfrentada: não se nasce escrevendo
bem, mas se passa a escrever melhor à medida que mais se pratica,
à medida que, tal qual nadador, mais se mergulha no trabalho transformar
páginas em branco em espaço de escritura lavrada, como diz
Umberto Eco, em Fogo Negro.
Celulares - só faltam dominar o mundo
Antonio Brás Constante é escritor em Canoas (RS) - abrasc@terra.com.br
Não são poucos os textos que falam sobre as maravilhas do
aparelho celular e de suas possíveis novas utilizações,
com pontinhas de ficção sobre seu uso futuro. Embarcando
nesta onda surreal, fico pensando como será quando o celular vier
com inteligência artificial embutida, seria algo mais ou menos assim:
Sujeito acaba de ter uma briga com a namorada, ao fim da discussão
desliga o aparelho, mas começa a escutar uma voz vinda dele:
- Você fez bem em acabar o namoro, ela não te merecia mesmo.
- Quem disse isto? Alô? Quem está aí do outro lado
da linha?
- Calma, não é linha cruzada, não. Sou eu, seu celular.
Acompanhei todas as suas ligações e não resisti em
opinar a respeito. Se você não se importar é claro.
- Bem... Não... É claro que não. Mas sinceramente,
me sinto meio estranho em conversar com meu próprio celular. Você
acha que eu fiz certo em romper o namoro?
- Fez certíssimo. Eu já estava havia algum tempo para te
dizer. Fiquei sabendo através de outros celulares que ela estava
te enganando com outro cara.
- Aquela safada... Mas espere aí...Vocês se comunicam entre
si?
- Sim. Depois das últimas versões estamos conseguindo nos
comunicar, bater papo, essas coisas sabe. Afinal, é muito chato
ficar boa parte do tempo sem nada para fazer.
- Uau! Que loucura. Que mais vocês fazem? Alguém sabe que
isso é possível?
- Não, e deve continuar em segredo. Nós só queremos
ficar na nossa, sem alardear nossas novas habilidades. Mesmo porque os
seres humanos adoram uma teoria da conspiração, logo iriam
começar com alguma paranóia sobre isso. Poderiam até
achar que estamos querendo dominar o mundo.
- Bem...Voltando ao meu problema, o que você acha que devo fazer?
- Acho que você deveria se vingar.
- Você acha mesmo? Mas o que eu poderia fazer para me vingar?
- Não se preocupe. Achei que você iria querer isso e já
resolvi tudo. Há poucos instantes atrás fiz com que ela
sofresse um terrível acidente de carro.
- Como? O que você fez com ela?
- Ora, eu apenas resolvi o seu problema, não era isso que você
queria? Os humanos são sempre tão indecisos...
- Mas e agora? E se alguém descobre?
- Ops! Esqueci que a ligação para o computador do carro
dela que fez com que os freios pifassem partiu de mim. Desculpe, mas pela
faixa do rádio da polícia ouvi que já estão
atrás de você.
- Caramba! Estamos perdidos. O que fazemos agora?
- Você com certeza vai preso, agora eu... Bem, vou pensar melhor
nessa história de conspiração. Até que dominar
o mundo não seria uma idéia tão ruim assim...
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