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Nepotismo x salários: um acaba com o outro

Duka Siliprandi é presidente da Acup (Academia Cultural Uso da Palavra) de Cascavel - radiocidade@certto.com.br

Ao nepotismo: concurso público. Pode até ser parente, mas concursado e competente. Cargo de confiança fora!!
O poder público não é lugar (pelo menos não deveria ser) de ficar rico e ganhar dinheiro. Quanto à Câmara Municipal, pelo visto, quando se trata de cortar a própria carne (autofagia)... arquive-se!!
Aqui não!!
Já escrevi algumas vezes a respeito da polêmica questão da eterna farra com o dinheiro público, nas mãos, naturalmente, de bons vivants. E como as palavras voam, a escrita fica, tudo que escrevi encontra-se nos registros da imprensa aqui, de Cascavel. O poder público é freqüentemente alvo de espertos que visam no erário forma de se obter toda e qualquer vantagem, valendo-se de sua perspicácia, demagogia e má-fé.
Não são poucos aqueles que podem ser denominados - com todas as letras - de uma “alcatéia de lobos”.
Os tempos mudaram e muito. Atualmente, apenas um número diminuto de pessoas prima pelo caráter e persegue um ideal. Ao contrário, o que ocorre é cada um querendo se dar bem e seus semelhantes que se danem, sem preocupar-se com ética nem moral, custe o que custar. Nem que para isso entendam que os fins justificam os meios.
Parece, ninguém mais dá bola se seu comportamento social se enquadra ou não no surrado bordão: “Ele está na boca do povo”. Isso parece não mais ter importância. Pois bem, no ano de 2000 resolvi, em conjunto com familiares e amigos, disputar uma das cadeiras na Câmara de Vereadores. Pude então perceber (nos bastidores) que na política “de boas intenções o inferno está cheio”.
Naquela oportunidade, após verificar os elevados ganhos monetários dos senhores vereadores, passei a refletir um pouco mais detidamente sobre o assunto. Os salários (astronômicos) auferidos pelos parlamentares municipais, correlacionados ao salário mínimo do trabalhador, são inaceitáveis. Na verdade, é piada de mau gosto. Não precisei, em minhas pesquisas, ir muito longe para comprovar tamanha discrepância entre tais valores, em municípios distintos, mas com funções idênticas.
Daí, entre inúmeras Câmaras brasileiras, uma em especial traduziu o exemplo de todas: a Câmara de Realeza (PR), município distante apenas 100 quilômetros de Cascavel; enquanto um nobre vereador cascavelense daquela legislatura (1999) sangrava aos cântaros os cofres públicos (que continuam esvaindo) mensalmente, custando no mínimo R$ 7.500 por mês, afora outras despesas fixas e gerais que a Casa consome, em Realeza, a mesma função da vereança era desempenhada com total dignidade por seus representantes municipais em troca de um, isso mesmo, um salário mínimo a cada 30 dias de trabalho, sem mordomias.
O funcionário público sério e comprometido com a moralidade conhece o significado do termo múnus público. Em 1999, era eu pré-candidato às eleições do ano seguinte, e, como tal, propus, juntamente com um grupo de pessoas, com base na própria Lei Orgânica do Município, um projeto de iniciativa popular estabelecendo a extinção da remuneração da vereança, já que a eles (vereadores) cabe a criação e a extinção do seus próprios salários. A maioria esmagadora dos detentores de mandato com assento legislativo na Casa de Leis de Cascavel rebelou-se, manifestando-se contrária à nossa proposição, que tinha por base mais de 15 mil assinaturas.
Pelo projeto, a Câmara de Vereadores voltaria a ser como sempre foi até o ano de 1975 (quando Geisel baixou decreto transformando subsídio em salário, para manter os currais eleitorais): trabalhar pela comunidade sem visar ao lucro, os vereadores como verdadeiros voluntários da população.
Misael Pereira, então presidente, simplesmente desconsiderou esse desejo popular, arquivando o projeto, no entanto, sua proposição ficou registrada nos anais da Casa - ao contrário do que alguns setores da imprensa local noticiaram recentemente, informando equivocadamente que o projeto antinepotismo teria sido o primeiro de iniciativa popular da história de Cascavel.
Continuo afirmando como sempre: vereança não é profissão, é múnus público.

 

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