O reajuste do Congresso: por que o espanto?
José Luiz Ames é doutor em Filosofia e professor da Unioeste/campus
de Toledo - profuni2000@yahoo.com.br
O Congresso Nacional auto-concedeu-se um reajuste de 91% sobre os seus
vencimentos. Certamente, quando comparado aos reajustes salariais concedidos
aos trabalhadores brasileiros e, particularmente, ao salário mínimo,
mostra-se uma ofensa. No entanto, quando avaliamos o comportamento desses
congressistas ao longo dos quatro anos, não é possível
encontrar nenhuma razão para espanto ou indignação.
Reflitamos: o que é capaz de nos espantar? Nos admiramos daquilo
que nos surpreende. Quando ocorre algo inusitado, inesperado, dizemos:
Oh! Ninguém se espantará ao ver o sol nascer. Afinal, é
óbvio que ele nasce todo dia! O nascer do sol em meio a algo não
corriqueiro, em um céu de nuvens coloridas, talvez espante alguns.
Consideremos, agora, nossos congressistas: ao longo desses últimos
quatro anos foram notícia pelos escândalos nos quais se envolveram.
Foram tantos que só listá-los ocuparia esse espaço.
Além disso, a maioria daqueles comprovadamente envolvidos foi inocentada
pelo espírito corporativista reinante no Congresso Nacional.
A decisão de praticamente dobrar os vencimentos é absolutamente
coerente com a trajetória desses indignos representantes dos cidadãos
brasileiros. Condutas dessa ordem são previsíveis. Espanto
eles nos provocariam se decidissem congelar seus vencimentos pelos próximos
quatro anos. Diríamos: Oh! Enfim um pouco de dignidade e de nobreza.
Poderia alguém contra-argumentar que nem todos são assim;
que nem todos compactuam com a conduta indigna daqueles que se envolveram
em atos de corrupção e que, agora, decidiram por este escandaloso
reajuste. É verdade. Há, felizmente, um bom número
de pessoas dignas que honram os votos daqueles que os conduziram à
representação da vontade popular.
A pergunta que incomoda é: como é possível uma conduta
indigna prosperar sem a omissão ou mesmo conivência daqueles
que não compactuam? O corrupto merece todo desprezo do cidadão,
porque o envergonhou ao servir-se da delegação recebida
para auferir vantagens ilícitas. E os demais, os que se omitem?
Haveria quem se arriscasse a estas práticas indignas se tivesse
certeza da punição? Na medida em que a “banda saudável”
do Congresso não pune quem transgride a lei, seja por estratégias
protelatórias, seja pelo próprio perdão ao faltoso
acobertados pelo anonimato do voto, torna-se conivente com o criminoso.
Indignação e espanto nos provocam aqueles que se mostraram
íntegros ao longo de sua trajetória política. Das
duas uma: ou é um número tão ínfimo que nada
podem contra uma maioria corrupta e irresponsável, ou a suas posições
condenatórias são puramente retóricas. A primeira
alternativa é aterradora: como é possível ser comandado
por um Congresso podre? O que ele faz já não nos espanta,
mas nos assusta, pois é preciso esperar que o pior sempre ainda
está por vir! A segunda possibilidade é desalentadora: seria
admitir que não há sequer resquício da inteireza
ética que esperamos daqueles que nos dirigem.
O que fazer? Proponho o desprezo público. Ninguém mais pronuncie
o nome dessas pessoas. Não os refira nos eventos em que comparecem
e nos quais ficam ofendidíssimos quando não são distinguidos
e não lhes é concedida a palavra. Como eles vivem da notícia,
um modo de puni-los é pela vaidade. Recusemos a mão que
nos estendem, nos esquivemos dos tapinhas nas costas, queimemos o cartão
de Natal que nos enviam (pago com nosso dinheiro!), viremos o rosto quando
sua face se contrai querendo oferecer um sorriso. A boa lição
que podemos tirar disso é: jamais reeleger ninguém! Pessoas
que agem com descaramento, ofendem a dignidade dos cidadãos premiando
corruptos, se locupletam auto-concedendo-se benefícios negados
a todos os demais merecem de nós unicamente o desprezo e da justiça
a punição. O desprezo depende de cada um de nós.
Já a punição..., só um otimista utópico
acreditará nela!
|