Lista fechada é duplo golpe
Percival Puggina é escritor em Porto Alegre - www.puggina.org
Pode uma votação parlamentar formal se constituir em golpe?
Sim, pode. Recebe o nome de golpe congressual e tem, inclusive, antecedente
histórico no episódio em que o Congresso Nacional impediu
o retorno de Café Filho à presidência da República.
Após o suicídio de Getúlio, lembremos, o posto foi
assumido por seu vice, Café Filho, que alguns meses depois sofreu
um enfarte, sendo substituído por Carlos Luz, presidente da Câmara.
No dia 22 de novembro de 1955, Café, autorizado pelos médicos,
enviou carta ao Congresso anunciando que iria retornar, mas as duas Casas,
sem qualquer motivo de base constitucional, declararam-no impedido. Aquilo
foi um golpe congressual.
Para que entendamos bem do que estamos falando no caso da lista fechada,
é importante saber que golpes, na acepção política
da palavra, são ações que visam manter no poder ou
destituir do poder por meios irregulares. É o que está por
acontecer. Nos últimos cinco pleitos para a Câmara dos Deputados,
com o sistema em vigor - lista aberta - a renovação oscilou
entre um mínimo de 44% em 1998 e um máximo de 62% em 1990.
Na eleição do ano passado ficou em 48%. Com a adoção
da lista fechada, que impede o eleitor de votar no candidato de sua preferência,
esse índice não deverá passar de 5%. Trata-se, portanto,
de artimanha que visa manter com mandato mais de um terço da Casa
que a ela não retornaria pelo voto popular. Eis o golpe número
um.
Entre suas conseqüências mais fáceis de antever destaca-se
a potencialização do corporativismo característico
da instituição, que se consolidará como clube de
amigos reunidos na defesa de seus interesses, ao total resguardo da fiscalização
do eleitor. Este primeiro golpe, portanto, impedirá o eleitor de
retirar do Parlamento, pelo recusa do voto, os parlamentares cuja conduta
moral ou política mereça rejeição. Numa Casa
que se tem revelado cada vez mais tolerante para com os delitos de seus
membros, isso se constitui num definitivo alvará de soltura concedido
a todo o plenário.
O voto em lista fechada promove, contudo, outro golpe ainda mais sério
à democracia ao cristalizar os blocos parlamentares de governo
e oposição nas suas atuais proporções. Ele
está no eixo do projeto de poder concebido por Lula e seu partido,
e foi anunciado pelo presidente já na primeira entrevista concedida
após a proclamação do resultado do pleito de 2006.
Quem está mandando continuará mandando por longos anos.
É o que pretendem, contra a vontade popular, numa manobra que assume
como dado da realidade o fato de sermos uma casa de tolerância e
um país que se deixou imbecilizar politicamente.
Vacas fantasmas
Pedro Cardoso da Costa é bacharel de Direito em Interlagos (SP)
- pedro.cardoso.costa@terra.com.br
No Brasil, a elite dominante cria certos vícios que se perpetuam.
Um, de resultados deprimentes, seria o fato de algumas pessoas não
serem alcançadas pelas leis, apesar do clichê de que a norma
seja para todos. O processo de Renan Calheiros no Conselho de Ética
no Senado e as suas provas malucas são atestados recentes dessa
cultura da impunidade.
No início do episódio, o presidente do Senado negou tudo.
Depois afirmou que o lobista de uma das maiores empreiteiras brasileiras
agira apenas como seu boy. O dinheiro vivo, apesar da montanha, voava
por Brasília em sacolas como se tornou praxe recente. Justifica-se.
É muito mais prático carregar 100 mil em sacos de lixo a
efetuar uma transferência bancária. Todo dinheiro era do
senador, comprovado com empréstimo bancário adquirido somente
nove meses - nove meses! - após o pagamento. Só um senador
tem condições de pagar uma dívida com dinheiro vivo
adquirido nove meses depois. Era dinheiro fantasma literalmente. Não
poderia ser desse mundo.
Mas veio a explicação terrena de que o empréstimo
era para repor o dinheiro do pagamento da pensão. Oras, mas só
a justificativa de senador explica que o dinheiro era para auto-repor-se.
Parece aquela frase da encrenca Caetano-Lobão. Não seria
plausível se viesse de um normal!
Todo essa mistério era desfeito quando o Brasil ficou sabendo que
se tratava de um senador-fazendeiro. Aí, apareceram as vacas fantasmas.
Ou de ouro. Não se discuta que as vaquinhas existiam; apenas que
foram vendidas a compradores inexistentes. Destas, Renan apresenta todos
os recibos. Não os tem, nenhum, nenhum, da única pessoa
que afirmou ter comprado as vacas de ouro. Sim, porque o maior preço
da arroba era no rico estado industrializado de São Paulo. Era
que não se tinha conhecimento das opulentas vacas “renenianas”
no seco agreste alagoano.
Tudo isso corresponde à seriedade com que o Conselho de Ética
agiu. Primeiro, o senador-delegado Romeu Tuma disse que queria absolver.
Só no Brasil e na linha do dinheiro-fantasma de Renan, o investigado
tem o veredicto antes da abertura do processo. Mas Epitácio Cafeteira
substituiu o delegado. Nem precisou copiar a sentença. Serviu a
do próprio delegado.
Para sintetizar: o veredicto veio antes da abertura do processo; não
houve necessidade de ouvir a parte contrária, com “100% de
respeito ao princípio constitucional do Contraditório”.
O coroamento de tamanha seriedade veio a condução do processo
pelo próprio réu. Ele determina a abertura, o foro competente,
marca o julgamento e, quando percebe a falta do quórum absolvidor
Romeu-Epitácio, adia o julgamento. Como o Brasil é enaltecido
pela criatividade, instituiu-se o auto-réu-juiz; ou o auto-juiz-réu!
Bem que o presidente Lula poderia definir quem seria mais ingênuo
ou bagrinho, se seu irmão tolinho ou o senador-presidente. Muito
ingênuo para um segundo substituto à presidência da
República.
|