Professor da pós-modernidade
Araci Jost é pedagoga de escola pública em Cascavel - aracijost@hotmail.com
Nas três últimas décadas do século XX e início
deste século, a humanidade construiu um avanço tecnológico
fantástico, propiciado pelo desenvolvimento do capitalismo tardio
que reitera em sua essência, o aumento exacerbado do consumo e a
necessidade de superacumulação de riquezas. Este avanço
tecnológico que deveria melhorar as condições de
vida de todos os seres humanos gera, ainda, uma miséria maior para
um grande contingente de pessoas, em detrimento da requerida acumulação
de capital para uma elite que tem o domínio da ciência. Esse
processo de exclusão, que se amplia pari passu com o avanço
tecnológico, tem se apresentado à sociedade nos noticiários
diários da grande e pequena mídias, por meio do aumento
potencializado da violência em nível mundial. Tal fenômeno
tem provocado questionamentos e reflexões nos diversos segmentos
da sociedade organizada, e o desfecho dessas análises têm
desaguado na possibilidade de apontar uma instituição, a
escola, como lócus privilegiado para a resolução
de todos esses problemas sociais.
Diante do exposto, quero pontuar o papel exercido pelo professor, geralmente
considerado, por diversas razões, o profissional responsável
pelo “fracasso” escolar dos excluídos. É comum
ouvirmos ou lermos afirmações contundentes, de que é
por meio da escola que o País vai construir uma sociedade mais
justa e igualitária. Nesta perspectiva, o discurso aponta para
a necessidade de investir na formação e valorização
do professor, pois é ele que efetiva o processo didático-pedagógico
em sala de aula.
Paralelamente a isso, vivenciamos, como educadores, o aprofundamento desta
exclusão, não só na história de vida dos alunos
da escola pública que atendemos, como também na nossa própria
história que se enfraquece dia após dia, com a desvalorização
profissional que se expressa no baixíssimo salário e na
falta de investimentos na educação. Com isso, exercemos
o nosso papel como professor, contando somente com o velho giz e a lousa
desbotada pelo tempo, num contexto de avanços tecnológicos
tremendos, em que a microeletrônica e a informática alteraram
profundamente o espaço geográfico e o tempo, enquanto o
espaço em que atuamos, nada avançou, ao contrário,
se deteriorou acentuadamente. Portanto, quando se fala em inclusão
digital, nos defrontamos com esta realidade contraditória, que
a sociedade organizada finge não perceber, da falta de estruturas
ainda mais primárias, como a energia elétrica, num elevado
número de escolas públicas do nosso país. Somando-se
a isso, ignora-se também que o professor - que é responsabilizado
pelo baixo nível na aprendizagem dos alunos da escola pública
- não tem acesso a essas tecnologias, nem mesmo como fonte de pesquisa
para subsidiar a elaboração de suas aulas.
É nesta sociedade desigual que o professor da pós-modernidade,
no enfrentamento permanente de críticas e questionamentos, procura
desempenhar o seu papel de intelectual orgânico junto às
massas, na busca intencional de ajudar essas massas na assimilação
dos conceitos indispensáveis para construção da cidadania,
que propicie a capacidade de fazer análises críticas da
realidade, contrapondo o falso conceito de cidadania do capitalismo, expressado
nas “famosas” políticas compensatórias. É
desse lócus de contradições, que o professor acena
para a sociedade com as manifestações e paralisações
coletivas, na busca de sensibilizar os outros segmentos da sociedade para
uma luta, que vai além das retóricas e recomendações
habituais, de conscientização que é possível
construir um novo mundo, com uma melhor distribuição de
renda. Para isso, é preciso reivindicar o acesso a direitos fundamentais,
como a educação de qualidade. É essa a luta dos professores:
uma valorização profissional que inclua, além da
questão salarial, melhorias nas condições de trabalho
como boas bibliotecas, computadores e acesso a redes de pesquisa e outros
bens culturais. Portanto, a possibilidade de construir uma nova sociedade
passa pela resistência e posicionamento coletivo de todos que dependem
de sua força de trabalho para sobreviver, pois seus filhos somente
terão acesso ao conhecimento científico acumulado pela humanidade,
através da escola pública, espaço privilegiado no
processo de humanização. A luta é nossa! A luta é
da sociedade!
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