Edição nº 4626 - Sábado, 19 de maio de 2007 Classificados | Assinatura | Impressão
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Professor da pós-modernidade

Araci Jost é pedagoga de escola pública em Cascavel - aracijost@hotmail.com

Nas três últimas décadas do século XX e início deste século, a humanidade construiu um avanço tecnológico fantástico, propiciado pelo desenvolvimento do capitalismo tardio que reitera em sua essência, o aumento exacerbado do consumo e a necessidade de superacumulação de riquezas. Este avanço tecnológico que deveria melhorar as condições de vida de todos os seres humanos gera, ainda, uma miséria maior para um grande contingente de pessoas, em detrimento da requerida acumulação de capital para uma elite que tem o domínio da ciência. Esse processo de exclusão, que se amplia pari passu com o avanço tecnológico, tem se apresentado à sociedade nos noticiários diários da grande e pequena mídias, por meio do aumento potencializado da violência em nível mundial. Tal fenômeno tem provocado questionamentos e reflexões nos diversos segmentos da sociedade organizada, e o desfecho dessas análises têm desaguado na possibilidade de apontar uma instituição, a escola, como lócus privilegiado para a resolução de todos esses problemas sociais.
Diante do exposto, quero pontuar o papel exercido pelo professor, geralmente considerado, por diversas razões, o profissional responsável pelo “fracasso” escolar dos excluídos. É comum ouvirmos ou lermos afirmações contundentes, de que é por meio da escola que o País vai construir uma sociedade mais justa e igualitária. Nesta perspectiva, o discurso aponta para a necessidade de investir na formação e valorização do professor, pois é ele que efetiva o processo didático-pedagógico em sala de aula.
Paralelamente a isso, vivenciamos, como educadores, o aprofundamento desta exclusão, não só na história de vida dos alunos da escola pública que atendemos, como também na nossa própria história que se enfraquece dia após dia, com a desvalorização profissional que se expressa no baixíssimo salário e na falta de investimentos na educação. Com isso, exercemos o nosso papel como professor, contando somente com o velho giz e a lousa desbotada pelo tempo, num contexto de avanços tecnológicos tremendos, em que a microeletrônica e a informática alteraram profundamente o espaço geográfico e o tempo, enquanto o espaço em que atuamos, nada avançou, ao contrário, se deteriorou acentuadamente. Portanto, quando se fala em inclusão digital, nos defrontamos com esta realidade contraditória, que a sociedade organizada finge não perceber, da falta de estruturas ainda mais primárias, como a energia elétrica, num elevado número de escolas públicas do nosso país. Somando-se a isso, ignora-se também que o professor - que é responsabilizado pelo baixo nível na aprendizagem dos alunos da escola pública - não tem acesso a essas tecnologias, nem mesmo como fonte de pesquisa para subsidiar a elaboração de suas aulas.
É nesta sociedade desigual que o professor da pós-modernidade, no enfrentamento permanente de críticas e questionamentos, procura desempenhar o seu papel de intelectual orgânico junto às massas, na busca intencional de ajudar essas massas na assimilação dos conceitos indispensáveis para construção da cidadania, que propicie a capacidade de fazer análises críticas da realidade, contrapondo o falso conceito de cidadania do capitalismo, expressado nas “famosas” políticas compensatórias. É desse lócus de contradições, que o professor acena para a sociedade com as manifestações e paralisações coletivas, na busca de sensibilizar os outros segmentos da sociedade para uma luta, que vai além das retóricas e recomendações habituais, de conscientização que é possível construir um novo mundo, com uma melhor distribuição de renda. Para isso, é preciso reivindicar o acesso a direitos fundamentais, como a educação de qualidade. É essa a luta dos professores: uma valorização profissional que inclua, além da questão salarial, melhorias nas condições de trabalho como boas bibliotecas, computadores e acesso a redes de pesquisa e outros bens culturais. Portanto, a possibilidade de construir uma nova sociedade passa pela resistência e posicionamento coletivo de todos que dependem de sua força de trabalho para sobreviver, pois seus filhos somente terão acesso ao conhecimento científico acumulado pela humanidade, através da escola pública, espaço privilegiado no processo de humanização. A luta é nossa! A luta é da sociedade!

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