Para que servem homens-carneiros
Maria Lucia
Victor Barbosa é socióloga em Londrina - mlucia@sercomtel.com.br
Fiz uma pausa
nos artigos. Motivos particulares me levaram a deixar de lado esse meu
vício, o de escrever. Porém, mais do que a sobrecarga de
fatos do cotidiano, fiquei desestimulada a dar continuidade ao difícil
e árduo exercício de alinhar por escrito idéias,
opiniões e convicções. A sensação de
inutilidade tomou conta de mim e me lembrei da letra de uma música:
“Inúteis, nós somos inúteis”.
Afinal, para que escrever quando o eleitorado, em sua impressionante maioria,
consagrou nas urnas a corrupção, a incompetência,
a enganação, através da escolha de vários
de seus representantes nos Poderes Executivo e Legislativo? Seria o mesmo
que enviar informações a um rebanho de homens-carneiros.
Essas criaturas não raciocinam e muito menos lêem. Não
dá para escrever aos carneiros, ainda que assumam a forma humana.
Feliz em sua ignorância, no máximo o rebanho assiste ao Big
Brother Brasil enquanto se identifica com os atores da encenação
na sordidez das tramas, no mau caratismo das ações, no exibicionismo
que faz do sexo ato puramente animal.
Homens-carneiros reclamam, mas não agem. Ocasionalmente resmungam.
Espertíssimos em certas atitudes, como passar os outros para trás,
são facilmente enganados quando se trata do pai-Estado personificado
em qualquer populista. É curioso, por exemplo, que nos aeroportos
onde longas horas de espera ou vôos cancelados fazem de otários
os usuários do transporte aéreo desculpas esfarrapadas dadas
por autoridades sejam aceitas com a naturalidade dos que gostam de se
deixar enganar. A culpa é das companhias aéreas ou de algum
ato imprevisível de São Pedro. O pai-Estado não erra
nunca. Não existem controladores de vôos nem suas greves.
Viva o governo. Nacionalize-se a pouca vergonha. Ela é nossa.
No Congresso Nacional prossegue o espetáculo deprimente das adesões
partidárias ao poder central, sem que o rebanho perceba ou se importe.
Para culminar, a bancada do PSDB aderiu ao petista e candidato a presidente
da Câmara, Arlindo Chinaglia, o redentor dos “mensaleiros”
e de seu chefe, autor da promessa de dobrar o salário dos companheiros
deputados. Resta saber se o abjeto gesto de submissão ao Executivo
poderá mudar com a saída de Gustavo Fruet, como terceira
via (Fruet deveria ter sido o candidato a governador no Paraná,
mas o PSDB mais uma vez perdeu a oportunidade de se impor como oposição
real) ou se os tucanos vão abandoná-lo e traí-lo
como fizeram com Geraldo Alckmin.
Sempre disse e repito que a única oposição, estridente
e implacável, foi a do PT que agora, na situação,
faz o que bem entende sob aplausos gerais. Sem oposição
para valer, estamos diante do partido único, disfarçado
de partido dominante. Algo tão ao gosto de Hugo Chávez e
de seus seguidores do socialismo primata da América Latina. Um
socialismo que condenará o continente à morte por asfixia
de ignorância.
Neste cenário está em marcha o retrocesso do País
com seu crescimento pífio, sua violência infame e impune,
sua farsa democrática. E a predição de uma Constituinte
por nosso mandatário supremo, lembra os passos do hermano golpista
da Venezuela rumo ao poder totalitário.
O que falta para nos venezuelarmos? A imposição completa
da censura aos meios de comunicação. A punição
mais rigorosa a quem se opuser ao desgoverno petista. E, por que não,
um terceiro, quarto, quinto, sexto mandato para o senhor Luiz Inácio
que, sempre em descanso, se não está de férias, viaja,
se não viaja, descansa, sabendo que tudo ruma para seu contentamento.
O Brasil está parado, descansando nas praias. O governo está
parado aguardando o desfecho das barganhas congressuais. Se os ministros
nunca fizeram grande coisa, agora estão completamente parados.
E na paradeira geral seguem sem medo de serem felizes os revolucionários
de outrora que não precisaram dar um só tiro para chegar
ao poder, os socialistas de fachada que vivem como capitalistas, os democratas
de mentirinha que amam as ditaduras de esquerda, os trambiqueiros de todos
os partidos que tramam suas vantagens enquanto riem secretamente de seus
eleitores, os homens-carneiros. Estes têm uma única e grande
utilidade: servem para elegê-los.
Por conta de tudo isso me pergunto: vale a pena escrever? Talvez esse
ato inútil sirva como gesto de solidariedade para com a minoria
dos brasileiros que possui brio e dignidade. Talvez sirva apenas como
desabafo. Em todo caso, se todos se calarem será pior.
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