Edição nº 5059 - sexta-feira, 18 de julho de 2008 Classificados | Assinatura | Impressão
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Inflação e juros vão penalizar crescimento do PIB até 2010

Paulo Panossian é jornalista em Santos - paulopanossian@hotmail.com

A economia mundial vive de ciclos, ou seja, ora aquecida, ou até em depressão. Este momento econômico que vivemos vem de forma auspiciosa desde 2002. Talvez porque hoje este vigor de crescimento não está dependendo única e exclusivamente dos países desenvolvidos. Ao contrário, acho que sua sustentação vertiginosa origina do desempenho das nações em desenvolvimento como China, Índia, Rússia, México e o Brasil! Estima-se que mais de 400 milhões de pessoas no mundo entraram para zona de maior consumo nestes últimos anos, ou seja, passaram a pertencer à classe média devido ao robusto avanço dos PIBs destes países citados, entre outros!
O Brasil desde 2004 vem diminuindo os índices do desemprego, dos aproximadamente 12% caiu em 2008 para 8,3%, significando mais de 6 milhões de pessoas de volta ao mercado de trabalho e com carteira assinada! Não por outra razão que o consumo geral é expressivo.
Logicamente que, para atingir um crescimento acima de 4%, a necessidade de alto grau de investimento é imperioso, e interessados é que não faltam para colocar o seu rico dinheiro em nosso país.
Para este ano de 2008 a previsão é de que o País receba mais de US$ 35 bilhões de recursos de investidores internacionais que estão sendo aplicados em importantes setores da economia. Os resultados são sentidos na agricultura, setores automobilístico, de siderurgia, da construção civil, químico, naval e de energia.
Não podemos deixar de salientar que a liberação de crédito para empresas e pessoas físicas vem crescendo; em 2002 alcançava 23,8% do PIB e em 2008 já está em 36,6%. Isso significa um incremento de R$ 320 bilhões no consumo nestes últimos seis anos, não à toa que os recordes de vendas no varejo são exuberantes! Somente em 2007, os empréstimos a empresas e pessoas físicas tiveram uma evolução de 27,8%, contra crescimento do PIB de 5,8%.
Alguém pode estar questionando: mais crédito, mais consumo não é igual a mais emprego? Sim! Esta constatação do excesso de crédito bem acima da evolução do PIB é o mesmo que tentar colocar ½ litro de água num copo de 250 ml, ou seja, não cabe! É a lei da oferta e da procura, e neste caso a nossa produção não está suportando a volúpia do consumo.
Todos nos perguntamos: o crescimento da economia brasileira é sustentável? Diria que não. Falta muito para tal. Dependemos desde uma reforma política decente, até a improrrogável reforma tributaria, trabalhista, uma nova da previdência e também da urgente independência para as agências reguladoras que o Governo Lula está desprezando. Isso sem falar na precária situação em que se encontra a infra-estrutura no País, como estradas, portos, ferrovias e o baixo nível de escolaridade.
Como o nosso Congresso reúne um conjunto de vaquinhas de presépio, ou seja, aliados e até da oposição que dizem amém ao governo atual, não creio que os nossos parlamentares estão preocupados em realizar estas tarefas que poderiam selar definitivamente a sustentabilidade da nossa economia a patamares bem maiores do que os de hoje, na casa dos 4,5%.
O problema é que o momento atual traz algumas graves preocupações. Estamos no centro de uma nova crise do petróleo. O barril que custava em 2003 US$ 30, hoje está em US$ 145. Os preços dos alimentos estão disparando devido ao alto custo dos fertilizantes e insumos agrícolas que dependem dos derivados de petróleo e da constatação de que um número maior de habitantes está consumindo mais, devido à expansão econômica no mundo.
Para muitos é difícil compreender por que o Brasil, tendo uma agropecuária auto-suficiente na maioria absoluta dos produtos básicos que consumimos (exceção ao trigo), e que seus preços subiram somente neste último semestre 30%, aniquilando e empobrecendo as compras da família brasileira na hora de fazer o supermercado.
Gosto sempre de lembrar aos leitores que acompanham os meus humildes artigos que o Brasil é ainda um país pobre, ou seja, a distribuição de renda para a maioria dos nossos trabalhadores é baixa, qualquer oscilação nos preços dos produtos básicos e o orçamento familiar não se sustenta.
Mas como o Lula sempre diz que “jamais na história deste país estivemos tão bem”, o povo acreditou, comprou a sua geladeira, televisão, computador e até a casa própria e o carro novo, e agora vai pagar a conta desta lorota. A inadimplência está crescendo a olhos vistos. Os bancos estão diminuindo o crédito. Sinal que tempos agudos estão por vir.
A culpa é sozinha do governo brasileiro? Não. Porém, se o presidente Lula desse ouvidos para os analistas em macroeconomia há dois anos, teria reduzido os gastos públicos (não os investimentos) e aumentado o superávit primário para pelo menos 5% do PIB. Com esta atitude os agentes financeiros e de mercado sentiriam mais confiança na gestão governamental e provavelmente a inflação não estaria nos patamares atuais em torno de pouco mais de 6% ao ano.
Por que minha preocupação com relação à economia em 2010, como acentuo no título deste artigo? Não podemos esquecer que o IGP-M, que corrige os preços administrados, como aluguéis, IPTU, IPVA, telefone, água, luz e muitos outros, está na casa dos 13% hoje. Qual orçamento familiar, mesmo com renda mensal em torno de R$ 2.000, vai agüentar estes aumentos que a partir do início de 2009 vão recair no bolso do trabalhador?
Logicamente que a inadimplência, que já é alta, vai explodir porque os recursos já estão comprometidos e a atividade humana deverá recrudescer e o fantasma do desemprego poderá ressurgir. O remédio será amargo para equacionar este quadro econômico. Só que os efeitos negativos desta tarefa recairão em 2010.
Portanto, toda prevenção e prudência com relação ao futuro que se avizinha é recomendável. Vamos ficar de olho! O Lula também, se quiser fazer o seu sucessor, apesar de a oposição estar adormecida...

 

Mocinho ou bandido?

Adilson R. Peppes é dirigente sindical em Cascavel - adilsonpeppes@bol.com.br

Quem tem 40 anos ou mais, assim como eu, certamente já viu algum filme que retratava o desbravamento do oeste americano.
Esses filmes, quase sempre, tinham seu grande final quando o mocinho do bem duelava e vencia o bandido do mal, que acabava morto ou preso, para que assim pagasse pelos seus crimes.
Pois bem, quis lembrá-los disso porque nos dias atuais, na nossa nua e crua realidade, nós, pobres mortais, cidadãos comuns, já não sabemos mais definir quem é o mocinho, ou quem é o bandido, quem está para nos defender dos perigos ou quem está para nos matar.
Os últimos acontecimentos no Estado do Rio de Janeiro nos confundem ainda mais, policiais que se organizam em milícias, querendo cobrar por um suposto serviço de segurança que é dever do Estado, policiais formando grupos de extermínio, matando sem escrúpulo algum, extravasando seu ódio bestial em pessoas inocentes, membros do exército brasileiro, órgão máximo da soberania nacional, entregando jovens para serem brutalmente assassinados por traficantes, policiais que abrem fogo inexplicavelmente contra um carro de família e matam crianças inocentes, e o que dizer então quando policiais matam uma jovem que voltava para sua casa e ainda consomem o corpo da vítima?
A indignação toma conta de nossa população todos os dias, quando vemos pais chorando a morte de seus filhos, debruçados sobre seus leitos de morte, tendo que desistir de seus sonhos, de suas metas de vida por conta de atos impensados de quem estava ali para proteger, para oferecerem ajuda, para salvarem a vida.
Caros leitores, isso já passou de absurdo, isso já passou dos limites aceitáveis, isso está simplesmente insustentável e o pior é saber que isso não pára que isso já se tornou normal, faz parte do cotidiano, a cada noite vamos nos deitar com uma nova tragédia permeando nossos sonhos, com uma nova atrocidade nos tirando o sono e termos que aceitar que depois se indenizam as famílias com um mísero salário mínimo e fica tudo resolvido, mas que valor tem a vida então? Que conceitos podemos tirar disso tudo? Para onde estamos caminhando afinal?
Só sei que a cada dia está mais difícil ensinar nossas crianças, cada dia mais escasso os bons exemplos a serem seguidos, cada dia mais distantes as soluções dos problemas sociais do nosso país, quando olhamos os números aterradores que apontam para mais de quinhentas mortes cometidas por policiais do estado do Rio de Janeiro, tenho saudade dos tempos onde era claro quem era o mocinho e quem era o bandido.

 

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