Edição nº 4693 - Quarta-feira, 18 de julho de 2007 Classificados | Assinatura | Impressão
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Vaia Pan-Americana

Dartagnan da Silva Zanela é professor da rede pública do estadual e mora em Reserva do Iguaçu - opontoarquimedico@yahoo.com.br

Muitos ficaram impressionados com a vaia olímpica que o senhor Luiz Inácio Molusco da Silva recebeu na abertura dos jogos Pan-Americanos. Aliás, sete vaias.
Lula foi vaiado logo em sua majestosa chegada. Em seguida nas três saudações em que teve o seu nome lembrado em português, espanhol e inglês. Mais uma vez quando foi citado pelo presidente do Comitê Olímpico Brasileiro e depois ao ser chamado pelo presidente da Organização Desportiva Pan-Americana. Seis vezes. A sétima ocorreu no ensaio geral. Teríamos uma oitava, mas seus assessores o aconselharam a abrir mão de declarar abertos os jogos.
Mas para ser sincero, isso não me impressiona muito. Coisas superficiais não costumam chamar a minha atenção. Me diverte, porém não me impressiona. O que me deixa um tanto perplexo são outras coisas que, via de regra, a impressa brasileira não dá muita importância como, por exemplo, os gastos astronômicos para a realização do Pan.
Segundo o jornal britânico “The Times”, a organização Jogos Pan-Americanos do Rio revelou ao mundo a face torpe de nosso Estado, principalmente a burocracia corrupta e ineficiente.
De acordo com o jornal britânico, a grana investida nos jogos teve como o objetivo mostrar ao mundo que o Brasil não tem condições de organizar eventos maiores (Ah! Que dó!), como a Copa do Mundo e as Olimpíadas.
Ora, o orçamento previsto para o Pan-Americano saiu de controle devido (adivinhem) à má administração dos recursos e da corrupção endêmica, tornando o preço final para o contribuinte (os tongos de plantão) cerca de oito vezes mais caro que as estimativas iniciais.
E qual é a única atitude que a sociedade brasileira é capaz de fazer diante deste desfrute orçamentário? Vaiar o senhor presidente e aplaudir os atletas. Nada mais, nada menos que isso.
Realmente, como sociedade, somos um grande fiasco Pan-Americano.

Entre o discurso e a prática
Luiz Leitão é articulista em São Paulo - luizleitao@ebb.com.br

Qualquer pessoa razoavelmente informada a respeito dos problemas nacionais sabe o que é necessário fazer para tirar o Brasil do marasmo, resolver as questões seculares que atormentam a todos. Na leitura diária dos jornais trata-se, neste quesito, sempre das mesmas coisas: infra-estrutura (transportes, saneamento, eletricidade), educação, criminalidade, corrupção, impunidade e saúde.
Semana passada esteve em visita ao País o secretário do Tesouro dos EUA, Henry Paulson. Falando para uma platéia de empresários em Nova Lima (MG), o figurão disse o que todos estão cansados de saber que precisa ser feito para resolver os problemas nacionais, e numa atitude pretensiosa, afirmou que estaria disposto a “encorajar” as reformas necessárias. Certamente a leitora e o leitor, escolados de tanto ouvir o discurso de nossos políticos, enxergam aí a óbvia declaração vazia, só para constar.
Modificar para melhor as instituições brasileiras significa lutar contra interesses corporativos, cartoriais, lobbies poderosos; combater arcaísmos como o conceito de “direitos adquiridos”; equilibrar a relação entre os políticos e a sociedade, hoje totalmente desfavorável a esta, e quase infinitas outras ações. É até um truísmo dizer que mudar este país é tarefa para várias gerações.
Reformas mesmo, só na direção oposta: agindo em benefício próprio, os deputados estaduais de Minas Gerais travam uma batalha na Assembléia Legislativa por causa do veto ao projeto de lei que impediria os membros do Ministério Público de processá-los. Na Câmara, o deputado Paulo Renato de Souza (PSDB-SP), em lugar de se aliar com o movimento contra a impunidade e a corrupção, propõe a criação de um novo tribunal, só para julgar autoridades com prerrogativa de foro. Com custo estimado em R$ 100 milhões anuais, a criação desta nova corte vai na contramão da imprescindível e inadiável redução do tamanho do Estado; é a velha saída de jogar a conta para o contribuinte. Atualmente, deputados não podem sequer ser investigados sem autorização da Justiça.
O Partido dos Trabalhadores, quando na oposição, boicotou iniciativas para conferir mais sobriedade ao Estado brasileiro, e agora, quando o Governo Lula resolve melhorar o desempenho de certas áreas da administração federal com um projeto de lei autorizando a criação de fundações públicas de direito privado, é acusado pela atual oposição de incoerência pelo fato de outrora ter sido contra tais medidas. Como se rever conceitos, evoluir e mudar de idéia fosse pecado.
Na linha do secretário americano, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse, em audiência na Câmara, que “a questão tributária atrapalha os investimentos” - e não só estes -, fato mais do que sabido, e acrescentou que o governo está trabalhando numa proposta de reforma tributária. Que reforma é esta se o Executivo federal briga com unhas e dentes pela prorrogação da malsinada Contribuição “Provisória” sobre Movimentações Financeiras (CPMF)?
As pessoas discutem política, muitas vezes de forma apaixonada, quando a massa dos que compõem este universo é um tanto uniforme. No tocante a ações em benefício próprio não há grandes diferenças entre, por exemplo, PT e PSDB. Se o primeiro tenta - e consegue - impedir investigações no Congresso Nacional, o pessoal do PSDB faz o mesmo na Assembléia Legislativa de São Paulo, obstando a CPI da máfia da CDHU.
Como poder político não é algo exclusivo dos que detêm mandato popular, e grupos empresariais, cada vez maiores e mais concentrados, sindicatos e associações o têm de sobra, utilizam-no, é claro, em benefício próprio. O cidadão comum não tem acesso a um parlamentar ou ministro, o representante sindical ou de um conglomerado tem. Eis por que as coisas não mudam.

 

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