Vaia
Pan-Americana
Dartagnan
da Silva Zanela é professor da rede pública do estadual
e mora em Reserva do Iguaçu - opontoarquimedico@yahoo.com.br
Muitos ficaram
impressionados com a vaia olímpica que o senhor Luiz Inácio
Molusco da Silva recebeu na abertura dos jogos Pan-Americanos. Aliás,
sete vaias.
Lula foi vaiado logo em sua majestosa chegada. Em seguida nas três
saudações em que teve o seu nome lembrado em português,
espanhol e inglês. Mais uma vez quando foi citado pelo presidente
do Comitê Olímpico Brasileiro e depois ao ser chamado pelo
presidente da Organização Desportiva Pan-Americana. Seis
vezes. A sétima ocorreu no ensaio geral. Teríamos uma oitava,
mas seus assessores o aconselharam a abrir mão de declarar abertos
os jogos.
Mas para ser sincero, isso não me impressiona muito. Coisas superficiais
não costumam chamar a minha atenção. Me diverte,
porém não me impressiona. O que me deixa um tanto perplexo
são outras coisas que, via de regra, a impressa brasileira não
dá muita importância como, por exemplo, os gastos astronômicos
para a realização do Pan.
Segundo o jornal britânico “The Times”, a organização
Jogos Pan-Americanos do Rio revelou ao mundo a face torpe de nosso Estado,
principalmente a burocracia corrupta e ineficiente.
De acordo com o jornal britânico, a grana investida nos jogos teve
como o objetivo mostrar ao mundo que o Brasil não tem condições
de organizar eventos maiores (Ah! Que dó!), como a Copa do Mundo
e as Olimpíadas.
Ora, o orçamento previsto para o Pan-Americano saiu de controle
devido (adivinhem) à má administração dos
recursos e da corrupção endêmica, tornando o preço
final para o contribuinte (os tongos de plantão) cerca de oito
vezes mais caro que as estimativas iniciais.
E qual é a única atitude que a sociedade brasileira é
capaz de fazer diante deste desfrute orçamentário? Vaiar
o senhor presidente e aplaudir os atletas. Nada mais, nada menos que isso.
Realmente, como sociedade, somos um grande fiasco Pan-Americano.
Entre
o discurso e a prática
Luiz Leitão é articulista em São
Paulo - luizleitao@ebb.com.br
Qualquer
pessoa razoavelmente informada a respeito dos problemas nacionais sabe
o que é necessário fazer para tirar o Brasil do marasmo,
resolver as questões seculares que atormentam a todos. Na leitura
diária dos jornais trata-se, neste quesito, sempre das mesmas coisas:
infra-estrutura (transportes, saneamento, eletricidade), educação,
criminalidade, corrupção, impunidade e saúde.
Semana passada esteve em visita ao País o secretário do
Tesouro dos EUA, Henry Paulson. Falando para uma platéia de empresários
em Nova Lima (MG), o figurão disse o que todos estão cansados
de saber que precisa ser feito para resolver os problemas nacionais, e
numa atitude pretensiosa, afirmou que estaria disposto a “encorajar”
as reformas necessárias. Certamente a leitora e o leitor, escolados
de tanto ouvir o discurso de nossos políticos, enxergam aí
a óbvia declaração vazia, só para constar.
Modificar para melhor as instituições brasileiras significa
lutar contra interesses corporativos, cartoriais, lobbies poderosos; combater
arcaísmos como o conceito de “direitos adquiridos”;
equilibrar a relação entre os políticos e a sociedade,
hoje totalmente desfavorável a esta, e quase infinitas outras ações.
É até um truísmo dizer que mudar este país
é tarefa para várias gerações.
Reformas mesmo, só na direção oposta: agindo em benefício
próprio, os deputados estaduais de Minas Gerais travam uma batalha
na Assembléia Legislativa por causa do veto ao projeto de lei que
impediria os membros do Ministério Público de processá-los.
Na Câmara, o deputado Paulo Renato de Souza (PSDB-SP), em lugar
de se aliar com o movimento contra a impunidade e a corrupção,
propõe a criação de um novo tribunal, só para
julgar autoridades com prerrogativa de foro. Com custo estimado em R$
100 milhões anuais, a criação desta nova corte vai
na contramão da imprescindível e inadiável redução
do tamanho do Estado; é a velha saída de jogar a conta para
o contribuinte. Atualmente, deputados não podem sequer ser investigados
sem autorização da Justiça.
O Partido dos Trabalhadores, quando na oposição, boicotou
iniciativas para conferir mais sobriedade ao Estado brasileiro, e agora,
quando o Governo Lula resolve melhorar o desempenho de certas áreas
da administração federal com um projeto de lei autorizando
a criação de fundações públicas de
direito privado, é acusado pela atual oposição de
incoerência pelo fato de outrora ter sido contra tais medidas. Como
se rever conceitos, evoluir e mudar de idéia fosse pecado.
Na linha do secretário americano, o ministro da Fazenda, Guido
Mantega, disse, em audiência na Câmara, que “a questão
tributária atrapalha os investimentos” - e não só
estes -, fato mais do que sabido, e acrescentou que o governo está
trabalhando numa proposta de reforma tributária. Que reforma é
esta se o Executivo federal briga com unhas e dentes pela prorrogação
da malsinada Contribuição “Provisória”
sobre Movimentações Financeiras (CPMF)?
As pessoas discutem política, muitas vezes de forma apaixonada,
quando a massa dos que compõem este universo é um tanto
uniforme. No tocante a ações em benefício próprio
não há grandes diferenças entre, por exemplo, PT
e PSDB. Se o primeiro tenta - e consegue - impedir investigações
no Congresso Nacional, o pessoal do PSDB faz o mesmo na Assembléia
Legislativa de São Paulo, obstando a CPI da máfia da CDHU.
Como poder político não é algo exclusivo dos que
detêm mandato popular, e grupos empresariais, cada vez maiores e
mais concentrados, sindicatos e associações o têm
de sobra, utilizam-no, é claro, em benefício próprio.
O cidadão comum não tem acesso a um parlamentar ou ministro,
o representante sindical ou de um conglomerado tem. Eis por que as coisas
não mudam.
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