OPINIÕES
Educar no silêncio
Dartagnan da Silva Zanela é professor da rede estadual do Paraná em Reserva do Iguaçu e professor universitário - opontoarquimedico@yahoo.com.br
“A verdade não é minha nem tua, para que possa ser tua e minha”.
(Santo Agostinho)
Certa feita, a escritora estadunidense Helen Keller, cega e surda de nascença (desde os 18 meses de vida), havia dito que ela desejava ardentemente apenas quatro coisas. Estas, por sua deixa seriam: “pensar com clareza e serenidade, amar a todos com sinceridade, proceder sempre com nobreza, pôr toda sua confiança em Deus”.
Estes alicerces fundamentalmente são as bases para uma educação edificante, para um educar realmente emancipador do ser humano, capaz de aprimorá-lo. Aprimorá-lo não pelas mãos manipuladoras de outrem, mas sim munindo o educando com as ferramentas elementares para que ele mesmo possa lapidar sua alma e aparar as arestas e agruras que deformam seu ser.
Terão aqueles que, provavelmente, dirão que este breve dito desta escritora luminosa e imersa na escuridão e no silêncio é deveras simplista, não é mesmo? Bem, eu, pelo contrário, vejo nestas simples palavras a complexidade da aventura humana. Por meio destas simples palavras vemos o que significa elevar o ser humano na plenitude de sua dignidade. E é no exemplo da autora que vemos a realização destes quatro pilares. Aliás, um exemplo vivo e radiante de que o ser humano é capaz de ser mais do que o mundo e seus ditos deterministas são capazes de explicar em suas incansáveis tentativas de nos impor suas meias-verdades.
Mas o que significa pensar com clareza e serenidade? É algo que o educar na sociedade hodierna literalmente relegou ao ostracismo, visto que o objeto de culto em todo colóquio sobre educação é justamente o surrado cacoete mental do tal do “pensamento crica”, digo, “crítico”. Um pensamento claro e sereno consistiria simplesmente, como nos ensina São Boaventura, em seu itinerarium mentis in deum, na capacidade de evitar e de nos esvaziar do excesso de opiniões, de idéias vazias.
Exercitando este esvaziamento mental, nos tornamos aptos a caminhar na senda da procura pela bem-aventurança da pobreza de espírito que nos ensina Nosso Senhor Jesus Cristo e assim nos tornando capazes (a duras penas, obviamente) de atingirmos a serenidade, pois obter clareza e serenidade no pensar não é, de modo algum, a mesma coisa que a tagarelice da criticidade chula e palpiteira.
Amar a todos com sinceridade, isso deveria ser cultivando por meio do educar e não por meio do cobiçar o que o outro tem ou invejar o que o outro é por um sentimento de remorso recalcado, tal qual os passos da vida da criticidade cinge nos passos de seus iniciados.
Lembramos também que este amar não é o eros carnal que é cultuado em nossa sociedade, mas, sim, o ágape, o sentimento caritativo para com o próximo e principalmente para como desconhecido, pois, como nos ensina o Papa Bento XVI em sua Encíclica Deus Caritas Est, o amor, este amor, transforma a nossa impaciência e inquietude da alma em paciência e esta se transfigura em esperança que, por sua deixa, nos dá firmeza de caráter. Algo que, realmente, carece por demais nos dias atuais.
Proceder sempre com nobreza. Putz! Tal palavra literalmente foi abolida de nosso vocabulário ordinário, não é mesmo? Obviamente que tal mutilação nada mais é que o reflexo da monstruosa incursão do politicamente-correto em nossa sociedade, mas o que necessariamente significa agir com nobreza? Simplesmente e tão só agir com retidão para com a Lei Universal, nas leis não-escritas, significa transfigurar-se em um reflexo de algo que é maior que a nossa mísera existência.
Agir nobremente significa submeter todos os nossos gestos à retidão que, na maioria das vezes, o mundo nega, que, via de regra, a baixeza secular tanto se esforça em destruir. Um bom exemplo que bem ilustra do que estamos apontando é o filme Depois da Chuva, do diretor Takashi Koizume (roteiro de Akira Kurosawa). No filme, o personagem principal, o Samurai Misawa, está “desempregado” e tem de enfrentar inúmeras dificuldades e, mesmo assim, ele mantinha-se sempre sereno, colocando-se acima dos problemas da maneira mais nobre possível.
Ah! Mas é claro! Como eu posso ser tão tolo. Falar em retidão na sociedade hodierna parece um tanto patético, não é mesmo? Todavia, o apatetamento não é inerente ao agir com nobreza, mas, sim, o reflexo do estado espiritual atual do homem moderno diante de toda e qualquer demonstração desta monta.
Por fim, confiar Naquele que É. E, vejam só: ao invés de se ensinar que se deve confiar no Criador, prefere-se ministrar lições que motivem o indivíduo a confiar em si mesmo, ou em algum guru, ou em uma ideologia política ou em uma vanguarda de líderes políticos iluminados que vão fazer a revolução, que farão pelo mundo tudo o que Deus não fez.
Ora, os três primeiros pilares somente têm sentido se estiverem firmados no quarto, pois a confiança Naquele que É levará o indivíduo a procurar conselho não na voz dos homens, mas, sim, no silêncio de seu íntimo, junto à centelha divinal que habita o âmago de nosso ser como, mais uma vez, nos ensina São Boaventura.
No silenciar de nosso corpo e de nossa alma poderemos, com muito esforço, ouvir o conselho divinal, que nos moverá a agir com nobreza, a fundar nossa vida no ágape para que possamos ter clareza e serenidade em nosso pensar.
Todo indivíduo que experimenta esta via, que se permite caminhar por esta vereda, percebe lucidamente que tudo aquilo que, popular ou eruditamente, é nominado por criticidade, não passa de um reles colóquio flácido nascido de uma tola revolta ululante parida na incompreensão de si e do mundo.
O “crime” de “pedofilia” e seus rebatimentos nos sujeitos sociais
Isabel Cristina dos Santos Marques e Vivian Bertelli Ferreira de Oliveira são graduandas do curso de Serviço Social da Unioeste - conradopm@hotmail.com
Traz-se à tona a discussão sobre a temática da pedofilia e, para desenvolver uma compreensão sobre a questão das manifestações da pedofilia, entende-se como necessário retroceder na história da construção social da infância, para demarcar como isso se deu no âmbito da sociedade burguesa. Atentando para o caráter contraditório das relações sociais em tal sociedade, posto que ao mesmo tempo em que se constroem instrumentos de proteção e garantia de direitos, ampliam-se as formas e recursos utilizados para a violação de tais direitos.
Parte-se do entendimento de que a pedofilia é uma violência sexual que vitimiza crianças e adolescentes. Tal violência impede que esses sujeitos, portadores de direitos humanos e sociais, recebam a devida atenção especial, compatível com a sua fase peculiar de desenvolvimento. Demonstrando que essa modalidade do abuso sexual ainda não foi enquadrada/tipificada em várias sociedades como um crime específico. Mas que aqueles que vitimizam esses sujeitos também são sujeitos portadores de direitos humanos e sociais, reconhecidos como sujeitos num estágio comprometido de sociabilidade porque vêem as crianças e adolescentes como objeto de gratificação sexual e mercadoria.
O curioso é que tal perspectiva de sociabilidade tem um caráter ambíguo no contexto das relações sociais capitalistas e que esta discussão inicial incide de um movimento de inquietação das autoras com relação à tal aspecto dessa realidade social. |