A
culpa é do sistema
Maria Lucia
Victor Barbosa é socióloga em Londrina - mlucia@sercomtel.com.br
Ao assistir
a entrevista dada pelo presidente Luiz Inácio ao jornal da Band,
dia 14, fiquei impressionada com a sua capacidade de responder não
respondendo. Sem dúvida, paira sobre o presidente da República
o treinamento dado por Duda Mendonça e suas esquivas, embora nada
convincentes, devem ter tido o poder de engabelar a maioria que o assistiu.
Passando os olhos sobre papéis, emitindo surradas respostas, fazendo
o costumeiro auto-elogio de seu mandato, Luiz Inácio descartou
qualquer responsabilidade na corrupção que infesta seu governo,
pois, segundo afirmou, “a culpa é do sistema”.
Além do mais, o poderoso José Dirceu, que foi tocado do
cargo de “gerentão” ou “chefe da quadrilha”
por Roberto Jefferson, teria sido pelo presidente exonerado num evidente
combate a corrupção da parte deste e de sua implacável
intenção de punir culpados.
Também a queda do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, LILS
atribuiu ao seu sentido ético. Entretanto, como se sabe, a permanência
de Palocci no cargo, que já vinha se mostrando inviável
por conta de numerosos escândalos, se tornou insustentável
quando da quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo. Palocci
não gostou quando o rapaz afirmou que ele freqüentava a casa
onde havia farta diversão prodigalizada por uma “empresária
do sexo” e negociatas bastante lucrativas, ingredientes que alegravam
a vida dos integrantes da chamada República de Ribeirão.
Dessas coisas, porém, Luiz Inácio nunca soube.
Ministros vampiros, ministros sanguessugas, ministros que enriqueceram
rapidamente à sombra dos muros da corte, irmão lobista,
filho privilegiado por milhões da Telemar, nada disso tem a ver
com o presidente. Tudo é culpa do sistema. E se algumas pessoas
do PT erraram, entre as quais, os inseparáveis companheiros de
sua Excelência como o ex-presidente da sigla José Genoino,
o ex-tesoureiro Delúbio Soares e o ex-secretario Silvinho Land
Rover, naturalmente, a culpa é do sistema. Eles, coitados, são
criaturas angelicais, apesar de traidores do chefe.
Também o fracasso de programas governamentais foi edulcorado e
transformado em êxito nas palavras do candidato e presidente, atestado
inequívoco de quanto Duda Mendonça, marqueteiro real e homem
das rinhas de galo e dos paraísos fiscais, continua influente na
moldagem da imagem e da retórica do seu mais importante discípulo
político e obra-prima de simulação. Desse modo, se
algo não atingiu resultado mais extraordinário, já
se sabe, a culpa é do sistema.
Conclusão: são todos inocentes. Pelo menos os companheiros
e, sobretudo, seu chefe supremo. Por isso mesmo merecem continuar no comando
do País. Note-se que Genoino, o tomador de empréstimos ilícitos
intermediados por Marcus Valério, e cujo irmão deputado
foi envolvido no escândalo dos dólares na cueca, freqüenta
o Palácio do Planalto para visitar o companheiro Lula e, quem sabe,
vai ser eleito deputado federal, assim como Palocci.
O PT já discute a absolvição de José Dirceu,
essa vítima do sistema juntamente com o seu homem de confiança,
Waldomiro Diniz. João Paulo Cunha, Luizinho, enfim, todos os mensaleiros
inocentados por seus pares no Congresso seguem em frente sem medo da felicidade
e prevê-se que o PT manterá grande bancada no Congresso.
Imagina-se o quanto os companheiros da base mensalista devem estar felizes
aguardando futuros “mensalões”.
Por outro lado, LILS influencia com seu magnetismo a sociedade brasileira
que parece disposta a reconduzi-lo ao cargo para que tenha nova chance
de, quem sabe, cumprir o que prometeu e não fez em quatro anos,
claro, por culpa do sistema. Também não custa perdoar e
reeleger todos que cometeram pecadilhos inofensivos como fraude em licitação,
corrupção, formação de quadrilha, evasão
de divisas.
Que importância tem se continuamos na rabeira do crescimento mundial,
o que inclui o latino americano? Se as taxas de juros seguem elevadas?
Se a carga tributária saltou para 37% do PIB (Produto Interno Bruto)?
Se a corrupção se alastra livremente, se o desemprego aumenta?
Se já existem sinais preocupantes na economia como a queda do agronegócio
e da produção industrial? Se Evo Morales se apropria do
que é nosso com apoio do governo brasileiro frouxo e ideológico.
Isso faz parte do sistema.
Pensando bem, diante desse sistema que anestesia a conduta ética
do povo e do governo, que torna a imoralidade aceita como coisa natural,
que mantém a ignorância de uns, o cinismo de outros, a alienação
de muitos, não sei se dá mais vergonha do que nojo, ou mais
nojo que vergonha da Terra de Macunaíma em que o Brasil vai se
transformando, onde heróis sem caráter são exaltados,
eleitos e reeleitos.
|