Edição nº 4723 - Sexta-feira, 17 de agosto de 2007 Classificados | Assinatura | Impressão
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Midas e mecenas

Adilson Luiz Gonçalves é escritor, engenheiro, professor universitário em Santos - algbr@ig.com.br

Ambos eram reis na Antigüidade e seus nomes são lembrados até hoje: Mecenas é sinônimo de incentivador das artes, enquanto o “toque de Midas” caracteriza aqueles que conseguem transformar o que tocam no ouro do sucesso. Entretanto, o dom concedido pelos deuses gregos a Midas transformou-se em castigo, pois, embora acumulasse riquezas infindas, não podia amar ou alimentar-se, afinal, tudo o que tocava virava ouro!
A riqueza material, conquistada ou herdada, não é, portanto, garantia de felicidade se não vier acompanhada de elevação de espírito. Também é verdade, ela pode provocar inveja e instabilidade social, comprometendo a felicidade de todos. Prova disso são os enormes gastos pessoais e governamentais com segurança.
O remédio, tanto nos tempos antigos como nos atuais, é humanizar a riqueza dividindo um pouco do que nos sobra com os que nada têm, dando-lhes motivação, esperança e oportunidade de desenvolverem seu potencial em prol da sociedade.
O governo deve fazer sua parte mediante atividades diretas ou oferecendo incentivos tributários aos que investem em projetos sociais, culturais e esportivos. Muitos empresários têm correspondido a essas expectativas, financiando atividades de inserção social e revelação de talentos, principalmente na área esportiva, que tem maior alcance mercadológico. Mas, e a cultura?
É certo que é mais fácil obter retorno publicitário financiando grandes espetáculos, com artistas famosos em teatros confortáveis, e cobrando ingressos incompatíveis com o poder aquisitivo da maioria da população. Isto, no entanto, conduz ao distanciamento do povo da cultura erudita.
No caso da música clássica - que um dia já foi popular - a situação é agravada por protocolos rígidos e pelas atitudes elitistas de alguns “cultos” e “estrelas”, que com seus estereótipos e arrogância em nada contribuem para a popularização da grande arte, com mútuos benefícios.
Mas isto está mudando: governos e empresários estão despertando para a necessidade de garantir mais que alimentação, trabalho, saúde e educação a todos, como forma de assegurar estabilidade social e desenvolvimento.
A fome do povo não é apenas de comida, mas, também, de cultura! Mas se não faltam projetos, falta o inestimável apoio para socializar seus benefícios.
Não seria maravilhoso se orquestras e corais pudessem se apresentar regularmente e levar as obras dos grandes compositores clássicos e populares até as escolas, clubes e todos os locais onde elas proporcionassem a mesma emoção e prazer?
Essa não é - e não deve ser - uma tarefa solitária! Ela precisa do apoio de mecenas, que com seus toques de Midas levem o ouro da cultura ao coração do povo e, assim, alimentem, também, sua alma.
É como diz a música dos Titãs: “Diversão e arte, para qualquer parte!”.

Que os livros sejam abertos...

Silvana Rodrigues da Fonseca é acadêmica do 3º ano de Letras da Unipar, em Cascavel - sil_letras.unipar@yahoo.com.br

“Abram o livro na página x, leiam o texto e façam os exercícios. Terminaram? Então guardem o livro...” Será que neste milênio essa cena ainda é repetida? Infelizmente sim!
O livro didático é uma importante ferramenta dentro da escola, em especial na pública, pois muitas vezes é um dos únicos recursos, senão o único, do qual o professor dispõe. No entanto, sua funcionalidade depende da forma como as aulas são encaminhadas.
Outrora, os livros didáticos eram impostos às escolas, porém, com a queda do regime militar, o processo tomou novos cursos. Este ano, por exemplo, as escolas estão selecionando, dentre as opções disponibilizadas pelas editoras, as obras que serão utilizadas pelos alunos nos próximos anos. Essa é uma forma mais democrática para que o professor eleja qual material atenderá melhor às necessidades dos estudantes.
Herói ou vilão? Esses foram os termos que Ricardo Prado (Revista “Nova Escola”) utilizou, e muito bem, para marcar as facetas do livro didático. Para ele, o verdadeiro desafio é saber como utilizar esse aliado para se ter aulas mais criativas. De acordo com Ezequiel Theodoro da Silva (Unicamp), “Ele [o livro didático] é um meio para atingir os objetivos. O professor que transformar esse meio em fim perde a essência do seu fazer”.
Antes de trabalhar com os alunos, espera-se que o professor estude o conteúdo apresentado no livro e, de acordo com suas metas, selecione os pontos a serem discutidos em sala. Além disso, o professor deve utilizar-se de outros recursos que venham ao encontro da sua proposta, pois os alunos podem ficar cansados se as atividades do livro não forem dinâmicas.
Percebem-se três pontos fundamentais a respeito do livro didático: primeiro - ele deve ser um material de qualidade; segundo - deve ser bem trabalhado, pois assim atingirá o terceiro ponto que é a aceitabilidade. Felizmente, temos excelentes obras, com algumas exceções é claro.
Muitos autores têm buscado apresentar conteúdos relevantes, com visual agradável e atividades que permitem a formação de opinião - essencial para todos os estudantes. Quanto ao livro ser bem trabalhado, essa é tarefa única e exclusiva do professor. Não se deve esquecer, no entanto, que seu preparo e dedicação farão com que as aulas tomem rumos norteadores ou simplesmente sejam reforçadoras do senso comum, sem despertar o interesse do aluno por um conhecimento sistêmico, visando à construção de novos saberes. O interesse e a aceitabilidade são reações da ação do mestre. Os estudantes têm paixão por desafios e sua capacidade de produção é surpreendente, podendo transcender as paredes da sala de aula, se o tema e o encaminhamento propostos forem bons o suficiente para despertá-los.
Então, abra o livro, professor, discuta e questione com seu aluno, pois, afinal, está, principalmente em suas mãos, a formação do aluno, do cidadão, do profissional e do ser humano que ele virá a ser.

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