Midas e mecenas
Adilson Luiz Gonçalves é escritor, engenheiro, professor
universitário em Santos - algbr@ig.com.br
Ambos eram reis na Antigüidade e seus nomes são lembrados
até hoje: Mecenas é sinônimo de incentivador das artes,
enquanto o “toque de Midas” caracteriza aqueles que conseguem
transformar o que tocam no ouro do sucesso. Entretanto, o dom concedido
pelos deuses gregos a Midas transformou-se em castigo, pois, embora acumulasse
riquezas infindas, não podia amar ou alimentar-se, afinal, tudo
o que tocava virava ouro!
A riqueza material, conquistada ou herdada, não é, portanto,
garantia de felicidade se não vier acompanhada de elevação
de espírito. Também é verdade, ela pode provocar
inveja e instabilidade social, comprometendo a felicidade de todos. Prova
disso são os enormes gastos pessoais e governamentais com segurança.
O remédio, tanto nos tempos antigos como nos atuais, é humanizar
a riqueza dividindo um pouco do que nos sobra com os que nada têm,
dando-lhes motivação, esperança e oportunidade de
desenvolverem seu potencial em prol da sociedade.
O governo deve fazer sua parte mediante atividades diretas ou oferecendo
incentivos tributários aos que investem em projetos sociais, culturais
e esportivos. Muitos empresários têm correspondido a essas
expectativas, financiando atividades de inserção social
e revelação de talentos, principalmente na área esportiva,
que tem maior alcance mercadológico. Mas, e a cultura?
É certo que é mais fácil obter retorno publicitário
financiando grandes espetáculos, com artistas famosos em teatros
confortáveis, e cobrando ingressos incompatíveis com o poder
aquisitivo da maioria da população. Isto, no entanto, conduz
ao distanciamento do povo da cultura erudita.
No caso da música clássica - que um dia já foi popular
- a situação é agravada por protocolos rígidos
e pelas atitudes elitistas de alguns “cultos” e “estrelas”,
que com seus estereótipos e arrogância em nada contribuem
para a popularização da grande arte, com mútuos benefícios.
Mas isto está mudando: governos e empresários estão
despertando para a necessidade de garantir mais que alimentação,
trabalho, saúde e educação a todos, como forma de
assegurar estabilidade social e desenvolvimento.
A fome do povo não é apenas de comida, mas, também,
de cultura! Mas se não faltam projetos, falta o inestimável
apoio para socializar seus benefícios.
Não seria maravilhoso se orquestras e corais pudessem se apresentar
regularmente e levar as obras dos grandes compositores clássicos
e populares até as escolas, clubes e todos os locais onde elas
proporcionassem a mesma emoção e prazer?
Essa não é - e não deve ser - uma tarefa solitária!
Ela precisa do apoio de mecenas, que com seus toques de Midas levem o
ouro da cultura ao coração do povo e, assim, alimentem,
também, sua alma.
É como diz a música dos Titãs: “Diversão
e arte, para qualquer parte!”.
Que os livros sejam abertos...
Silvana Rodrigues da Fonseca é acadêmica do 3º ano
de Letras da Unipar, em Cascavel - sil_letras.unipar@yahoo.com.br
“Abram o livro na página x, leiam o texto e façam
os exercícios. Terminaram? Então guardem o livro...”
Será que neste milênio essa cena ainda é repetida?
Infelizmente sim!
O livro didático é uma importante ferramenta dentro da escola,
em especial na pública, pois muitas vezes é um dos únicos
recursos, senão o único, do qual o professor dispõe.
No entanto, sua funcionalidade depende da forma como as aulas são
encaminhadas.
Outrora, os livros didáticos eram impostos às escolas, porém,
com a queda do regime militar, o processo tomou novos cursos. Este ano,
por exemplo, as escolas estão selecionando, dentre as opções
disponibilizadas pelas editoras, as obras que serão utilizadas
pelos alunos nos próximos anos. Essa é uma forma mais democrática
para que o professor eleja qual material atenderá melhor às
necessidades dos estudantes.
Herói ou vilão? Esses foram os termos que Ricardo Prado
(Revista “Nova Escola”) utilizou, e muito bem, para marcar
as facetas do livro didático. Para ele, o verdadeiro desafio é
saber como utilizar esse aliado para se ter aulas mais criativas. De acordo
com Ezequiel Theodoro da Silva (Unicamp), “Ele [o livro didático]
é um meio para atingir os objetivos. O professor que transformar
esse meio em fim perde a essência do seu fazer”.
Antes de trabalhar com os alunos, espera-se que o professor estude o conteúdo
apresentado no livro e, de acordo com suas metas, selecione os pontos
a serem discutidos em sala. Além disso, o professor deve utilizar-se
de outros recursos que venham ao encontro da sua proposta, pois os alunos
podem ficar cansados se as atividades do livro não forem dinâmicas.
Percebem-se três pontos fundamentais a respeito do livro didático:
primeiro - ele deve ser um material de qualidade; segundo - deve ser bem
trabalhado, pois assim atingirá o terceiro ponto que é a
aceitabilidade. Felizmente, temos excelentes obras, com algumas exceções
é claro.
Muitos autores têm buscado apresentar conteúdos relevantes,
com visual agradável e atividades que permitem a formação
de opinião - essencial para todos os estudantes. Quanto ao livro
ser bem trabalhado, essa é tarefa única e exclusiva do professor.
Não se deve esquecer, no entanto, que seu preparo e dedicação
farão com que as aulas tomem rumos norteadores ou simplesmente
sejam reforçadoras do senso comum, sem despertar o interesse do
aluno por um conhecimento sistêmico, visando à construção
de novos saberes. O interesse e a aceitabilidade são reações
da ação do mestre. Os estudantes têm paixão
por desafios e sua capacidade de produção é surpreendente,
podendo transcender as paredes da sala de aula, se o tema e o encaminhamento
propostos forem bons o suficiente para despertá-los.
Então, abra o livro, professor, discuta e questione com seu aluno,
pois, afinal, está, principalmente em suas mãos, a formação
do aluno, do cidadão, do profissional e do ser humano que ele virá
a ser.
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