Em busca da competitividade
Rafael Melo e Silva é professor de Comércio Exterior em
Brusque - meloscbr@yahoo.com.br
As importações de têxteis e calçados de origem
chinesa foram alvo de uma nova decisão da Camex (Câmara de
Comércio Exterior Brasileira). Como forma de proteger o mercado
nacional da avalanche de produtos importados nessas categorias, a alíquota
do impostos de importação (I.I.) nacional será reajustada
de 20% para 35%, valor máximo para alíquotas de importação
definidas no âmbito da OMC. A medida agrada de forma geral o setor,
porém trás à tona questões ligadas a fragilidade
de alguns segmentos da indústria nacional e as posições
defendidas pelo País frente à OMC (Organização
Mundial do Comércio).
Aprovada por unanimidade na Camex, o aumento do I.I. para calçados
e têxteis será levado ao Mercosul para efetiva validação.
Atualmente as alíquotas do imposto de importação
vigentes para os membros do Mercosul são definidas através
da TEC (Tarifa Externa Comum). Como forma de permitir que os estados protejam
setores mais sensíveis de suas economias, foi instituída
a lista de exceções à TEC. Nesta lista cada membro
pode alterar, para mais ou para menos, a alíquota de até
100 itens, revisados a cada seis meses.
A medida tem caráter de proteção direta aos setores
envolvidos. Diferentemente do ocorrido em processos envolvendo medidas
antidumping, o governo não exigiu das indústrias ações
de investimento e modernização para torná-la mais
competitiva frente à concorrência externa. Fato que torna
a medida paliativa, sem uma estratégia de médio-longo prazo
para o setor.
Entre os reflexos diretos, deverá, de fato, ser observado o aumento
de competitividade dos produtos nacionais. Entretanto, é questionável
a redução dos volumes importados pelo setor. Especialistas
da área afirmam que o aumento da alíquota sem uma sensível
redução dos volumes importados deverá impactar em
um aumento de preço dos produtos finais no mercado interno da ordem
de 10% a 15%.
Internacionalmente, a medida “protecionista” brasileira, embora
plenamente legal e em conformidade com os acordos no âmbito da OMC,
gera preocupação. A posição do País
no tocante à queda das barreiras de acesso e subsídios aos
produtos agrícolas pode ser afetada: para concessões em
uma área espera-se tratamento semelhante a outras. Nesta toada,
um expressivo aumento de alíquota de importação,
sem constituir uma ação antidumping “declarado”,
deverá vir à mesa de negociação na continuidade
da Rodada Doha da OMC.
Assim, o aumento da alíquota do I.I. atendeu uma reclamação
da indústria, reduzindo temporariamente a competitividade dos artigos
chineses do setor de calçados e têxteis. Os reflexos do aumento
deverão ser observados a partir do segundo semestre de 2007, quando
as novas alíquotas passarão a vigorar.
A medida adotada está longe de ser a panacéia para os setores
envolvidos, os problemas da competitividade brasileira encontra-se em
pontos mais profundos e estruturais; de impostos a taxas de juros, de
política cambial à infra-estrutura. Desta forma, medidas
paliativas devem ser analisadas com cuidado, sobretudo quanto ao seu impacto
no mercado como um todo.
A cidadania é tarefa que não termina
Itacir Gonzatto é diretor técnico legislativo da Câmara
de Cascavel e acadêmico 3º ano Jornalismo da Univel
Como cidadão, todo ser humano já nasce com uma série
de direitos: direito à vida, ao trabalho, à liberdade. Também
as crianças têm direitos só para elas, assim como
os consumidores, os idosos, e até mesmo os animais. Ser cidadão
também é bater o pé para que os direitos não
sejam só leis no papel.
No Brasil, estamos “gestando” a nossa cidadania. Damos passos
importantes com o processo de redemocratização. Mas muito
temos que andar. Ainda predomina uma visão reducionista da cidadania
(votar, e de forma obrigatória, pagar impostos... ou seja, fazer
coisas que são impostas) e encontramos muitas barreiras culturais
e históricas para a vivência da cidadania. Somos filhos e
filhas de uma nação nascida sob o signo da cruz e da espada,
acostumados a apanhar calados, a dizer “sempre” sim senhor”,
a “engolir sapos”, a achar “normal” as injustiças,
a termos um “jeitinho” para tudo, a não levar a sério
a coisa pública, a pensar que direitos são privilégios
e exigi-los é ser boçal e metido, a pensar que Deus é
brasileiro e se as coisas estão como estão é por
vontade Dele.
Os direitos que temos não nos foram conferidos, mas conquistados.
Muitas vezes compreendemos os direitos como uma concessão, um favor
de quem está em cima para os que estão em baixo. Contudo,
a cidadania não nos é dada, ela é construída
e conquistada a partir da nossa capacidade de organização,
participação e intervenção social.
A cidadania não surge do nada como um toque de mágica, tampouco
a simples conquista legal de alguns direitos significa a realização
destes direitos. É necessário que o cidadão participe,
seja ativo, faça valer os seus direitos. Simplesmente porque existe
o Código do Consumidor, automaticamente deixarão de existir
os desrespeitos aos direitos do consumidor ou então estes direitos
se tornarão efetivos? Não. Se o cidadão não
se apropriar desses direitos fazendo-os valer, esses serão letra
morta, ficarão só no papel.
Construir cidadania é também construir novas relações
e consciências. A cidadania é algo que não se aprende
com os livros, mas com a convivência, na vida social e pública.
É no convívio do dia-a-dia que exercitamos a nossa cidadania,
por meio das relações que estabelecemos com os outros, com
a coisa pública e o próprio meio ambiente. A cidadania deve
ser perpassada por temáticas como a solidariedade, a democracia,
os direitos humanos, a ecologia, a ética.
A cidadania é tarefa que não termina. A cidadania não
é um dever de casa, no qual faço a minha parte, apresento
e pronto, acabou. Enquanto seres inacabados que somos, sempre estaremos
buscando, descobrindo, criando e tomando consciência mais ampla
dos direitos. Nunca poderemos chegar a entregar a tarefa pronta, pois
novos desafios na vida social surgirão, demandando novas conquistas
e, portanto, mais cidadania.
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