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Oportunidade perdida

Senador Alvaro Dias é vice-presidente do Senado Federal - gsadia@senado.gov.br

“Quem sabe aproveitar a ocasião é um homem de oportunidade”
Goethe (1749-1832)

Eu lamento que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não esteja aproveitando o que o ele próprio qualifica como o período mais tranqüilo para se governar desde a ditadura militar. Seu cotidiano é pautado pela procrastinação, reproduzindo a costumeira rotina administrativa da primeira gestão presidencial.
O presidente Lula não tem pressa e segue transferindo para outro dia o enfrentamento explícito das questões cruciais postas pela complexa realidade nacional.
Em que pesem os eventuais solavancos, a economia mundial é favorável e o ambiente interno é até passivo, ou seja, há complacência com os desvios éticos e disfunções gerenciais. Os países emergentes crescem exibindo taxas altíssimas e o Brasil permanece na retaguarda, quase ancorado em Port-au-Prince. Os questionamentos e críticas aos rumos do governo estão pulverizados. Portanto, não há qualquer empecilho à ação governamental.
O presidente Lula, em lugar de jactar-se e contar vantagens, prosseguindo na linha habitual das projeções superdimensionadas e ampliando o estoque de promessas mirabolantes, deveria tirar proveito do cenário de bonança e imprimir ao segundo mandato a feição do estadista.
Os desafios com os quais o Brasil se defronta nessa quadra da história são verdadeiros ultimatos e deverão definir se passamos para a outra margem do rubicão ou se nos deixamos levar pela enxurrada da incompetência.
O prometido desenvolvimento social e econômico do País não se dará neste quadro de impunidade e inércia em que estamos vivendo. A alternativa para recuperar o crescimento e nos reposicionar na rota do desenvolvimento sustentável foi um plano econômico acanhado que sabidamente tangenciou os problemas estruturais da economia brasileira.
Estou convencido de que o decantado PAC (Plano de Aceleração Econômica) é mais uma sigla do arsenal pirotécnico do governo federal, reedição do velho simulacro do “espetáculo do crescimento”. Na realidade, aquilo que o presidente da República classifica como o maior plano econômico da história deste país, em grande medida é uma manipulação das informações, considerando que mais da metade dos investimentos previstos já estavam programados pela Petrobras.
Insisto não se tratar de adesão fácil e oportunista ao pessimismo cultuado. O meu ceticismo está baseado em antecedentes da gestão anterior e na constatação de que inexistem condições objetivas para que as metas estabelecidas sejam verdadeiramente alcançadas até 2010. Sendo assim, o anúncio de mais de R$ 500 bilhões de investimentos no referido horizonte temporal frustrará expectativas.
Registro que entre 2003 e 2006 o pagamento de juros e serviços da dívida foi de U$ 517 bilhões, enquanto se alcançou a cifra de U$ 39 bilhões em investimentos no Brasil por parte do Poder Público. Enquanto a China investe o equivalente a 35% do Produto Interno Bruto, o Brasil investe a metade, ressaltando que boa parte dos recursos é garantida pelo setor privado.
Nada foi feito para melhorar o ambiente de negócios e oferecer segurança aos investidores com marcos regulatórios claros e estáveis. A capacidade de atrair investimentos está aquém da necessidade de fomentar o desenvolvimento do nosso país. A propósito, lembro que até mesmo os brasileiros estão apostando maciçamente lá fora. Em 2005 eles investiram, no exterior, US$ 111 bilhões.
Menciono ainda a falta de respeito à propriedade privada, quando reconhecida pelo governo como problema social e não como desrespeito às leis, como outro fator inibidor de investimentos.
A despeito de ter sido eleito com 62% dos votos do eleitorado, o que assistimos é ao presidente Lula transferir as suas prerrogativas aos partidos políticos que constituem a base de apoio ao seu governo, não assumindo uma posição de liderança.
A ambiência favorável para promover o desenvolvimento do País está sendo desperdiçada e, pelo visto, os critérios da competência e probidade são solenemente ignorados na formação da equipe.

 

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