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O país das leis

Aldemir Aparecido do Nascimento é cidadão cascavelense - aldemir1@pop.com.br

Há alguns dias, um amigo comentou as leis no Brasil. Disse ele que nossas leis são de alguma forma feitas para deixar brechas em que os próprios elaboradores possam se aproveitar num futuro. Ele se referia ao fato de os deputados que participaram dos esquemas de corrupção e desvio de verbas, nos anos de 2005 a 2006, estarem livres e alguns até sendo reeleitos. Todos se aproveitando de brechas deixadas nas leis. Até porque sendo eles os autores, conhecem todas muito bem.
Trazendo para a nossa realidade, aqui, no interior do Paraná, mais precisamente em Cascavel, temos visto coisas absurdas, em que nossos legisladores usam do poder de fazer leis para beneficiar financiadores de campanha ou mesmo parentes.
Agora assistimos à Prefeitura de Cascavel, numa manobra escandalosa, repassar uma área institucional no centro do Guarujá, um dos bairros mais populosos da cidade, para a Codevel, que, em seguida, a transformou em área industrial e a repassou para um empresário do bairro, construir uma fábrica de confecções. Nem vamos comentar do absurdo do valor cobrado, que foi de pouco mais de R$ 5 mil numa área nobre de 1.140 m². Para os senhores terem uma idéia do tamanho da área, é pouco mais de quatro lotes comuns do bairro, por apenas R$ 5 mil.
Em livro algum de arquitetura urbana e em projeto algum de plano-piloto de respeito se vê uma coisa dessa. A prefeitura, que deveria direcionar e planejar as áreas industriais, comerciais e residenciais da cidade, “assassinou” o planejamento de mais de duas décadas que reservou uma área para o interesse coletivo, e vendeu para ali construir uma indústria, onde dezenas de caminhões estarão diariamente descarregando e carregando produtos enquanto crianças estarão ao lado brincando nas quadras de esportes, dezenas de senhores e senhoras idosas estarão diariamente usando aquela via para se deslocar até o posto de saúde do bairro que é ao lado dessa área e centenas de crianças de diversas idades estarão diariamente passando em frente para se deslocar até as escolas e creches do bairro, tudo isso disputando espaço na rua com esses caminhões.
Essa administração conseguiu jogar no lixo tudo o que os mais célebres pensadores do planejamento urbano idealizaram. Tudo para beneficiar um parente de vereador que ajudou na campanha do prefeito.
E para resolver a situação, a Câmara de Vereadores, que ajudou na “besteira” aprovando a lei de transferência da área, agora vem a público dizer que tudo será resolvido de acordo com a vontade da comunidade, fazendo uma audiência pública nas dependências da Câmara, na qual a maioria decidirá os rumos da transação.
Não consigo ver coisa mais covarde e absurda do que esta. Eles, que foram eleitos para nos representar e defender nossos direitos, agora vêm como Pilatos, lavar as mãos e deixar que o povo resolva. Quando sabemos que o povo que realmente precisa dessa área, em sua maioria, não dispõe de dinheiro para se deslocar até a Câmara de Vereadores, são trabalhadores que não vêem a hora de chegar em suas casas e descansar de um dia difícil de trabalho.
E mais, o simples fato de ter que se deslocar até a Câmara de Vereadores já é em si um constrangimento, onde a maioria do cidadão comum nunca esteve, e, com certeza, não se sentiria à vontade. Ao contrário do empresário, que com certeza alugará ônibus para levar seus funcionários e parentes, para fazer número e decidir a favor dos interesses de um pequeno grupo, em detrimento de toda a população do bairro que sonhava um dia poder desfrutar de uma praça no local, onde avós poderiam acompanhar o crescimento de netos enquanto brincariam em um parque infantil que prefeito algum até o momento teve a sensibilidade de construir.
Se querem uma audiência pública, que a façam no salão comunitário do bairro, onde o povo que realmente precisa da área possa se deslocar e o poder econômico não terá peso.
Mas esse absurdo não é o único dessa administração. A incompetência é tamanha que logo que assumiram queriam transformar um campo de futebol num cemitério, simplesmente porque era o mais fácil a ser feito. Esquecendo que, para isso, deveriam elaborar um projeto com a aprovação dos órgãos responsáveis.
Sem dar importância ao fato, primeiro a administração local teve problemas com a comunidade à qual pertence o campo, sendo obrigada a rever suas intenções, resolveu então que o cemitério seria ao lado do campo, e já começou a fazer o aterro dessa área, gastando milhares de reais em centenas de cargas de terra, sem elaborar projeto e consultar o IAP da possibilidade de se construir ali o cemitério. Tudo em vão, pois a área não permite a construção de cemitérios, e o que já existe ali é irregular. E o contribuinte pagando por todas essas incompetências e essa falta de planejamento.
Depois, em outra manobra escandalosa, compraram um terreno superfaturado para a construção de um cemitério e mais uma vez tiveram que desfazer o negócio, porque a notícia do valor vazou e a imprensa e a comunidade caíram em cima.
Não satisfeitos, colocaram a feira no cartão-postal da cidade e queriam construir um camelódromo na praça central de Cascavel.
Não somos contra a construção, ou até mesmo a doação de terrenos para a indústria, tão pouco contra a construção de área para feirantes e vendedores ambulantes, o que não queremos é ver a nossa cidade e o nosso bairro sendo retalhados de forma irresponsável por quem não tem preocupação nem com daqui a uma semana, quanto mais para os próximos anos, pela falta de espaços para uso comum pelas comunidades. Tudo isso sendo feito por uma administração que, ao que tudo indica, não terá continuidade. Mas esses quatro anos estão demorando muito a passar.
Pensamos que todos têm direito a trabalhar, produzir e vender seus produtos, gerar emprego e ter seu ganha pão, mas dentro de áreas coerentemente preparadas para isso, e não tomando da comunidade áreas de uso comum.
Por fim, analisando fatos como esses, somos levados a concluir que essa administração não está ali para resolver os problemas da cidade e de sua gente, mas para resolver os “problemas” dos amigos do prefeito e de sua base parlamentar.

 

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