Uma dica chinfrim
Dartagnan da Silva Zanela é professor da rede estadual do Paraná
em Reserva do Iguaçu e professor universitário - opontoarquimedico@yahoo.com.br
Já há muito que o adágio popular nos ensina que
a pressa nos leva ou a comer cru ou a queimar os beiços, não
é mesmo? Esta é uma lição singela e, como
toda lição deste gênero, nós a desdenhamos
como todo aquele ar de arrogância e pseudo-superioridade. Porém,
em meio a toda esta afobação acabamos por negligenciar as
coisas mais importantes de nossas vidas em nome de um tempinho pífio
a mais.
Corremos com nosso automóvel de modo irresponsável em nome
de alguns minutinhos a mais, deixamos de ficar com nossa família
em nome de algumas horas a mais sabe lá com quem e, de modo impróprio,
tiramos sempre conclusões impensadas sobre assuntos que, de modo
algum exigem esse afã de nosso ser.
Há muito já dizia um grande amigo meu que a pressa da conclusão
é amiga da ignorância. Obviamente que há inúmeras
situações em que temos de tomar uma e outra decisão
de supetão, todavia, quando o assunto é simplesmente emitir
um parecer sobre uma notícia, um evento, uma obra, um autor, de
modo algum somos obrigados a ter na ponta da língua uma resposta
pífia e dissimulada com todo aquele ar pedante de suposta erudição.
Aliás, das manifestações da mediocridade humana,
a que melhor retrata o ridículo existencial de um indivíduo
é a dissimulação de sapiência que, por sua
deixa, inexiste totalmente em sua alma, como muito bem nos lembra François
La Rochefoucauld.
Todavia, como na maior parte das situações ridículas,
a pessoa, necessariamente, não é obrigada a se colocar no
referido estado. Posa nestas vestes de tolo, por desejar de maneira parva
chegar a um ponto sem percorrer o caminho devido, similar a um lunático
que, se joga para chegar ao pé da montanha mais cedo de os outros.
Então, se você não deseja de modo algum cair mais
nesta situação ultrajante que, literalmente, toma conta
de nossa sociedade, a solução é mais simples do que
você possa imaginar. Basta dedicar um pouco de sua atenção
aos ensinamentos do professor Mortimer J. Adler, um dos maiores educadores
de todos os tempos e, talvez, por essa mesma razão, um ilustre
desconhecido nestas paragens tupiniquins.
De suas obras, recomendaria a leitura do livro A Arte de Ler, onde apresenta,
em ordem decrescente, um método simples e fantástico para
se ler um livro, uma serena problematização do sistema educacional
de sua época (a obra fora publicada primeiramente na década
de 40 da centúria passada) e uma sincera e cativante confissão
de sua experiência pessoal com a leitura.
Este, com a humildade que é característica de todo grande
mestre, e totalmente ausente nas massas bestializadas pela pretensão
miúda, confessa que, após concluir o seu curso superior,
descobriu que não sabia ler. Não que ele não houvesse
lido tudo o que ele deveria ter lido durante o seu tempo de estudante.
Ele realmente era um estudante. Mas, sim, que havia lido muito e aprendido
muito pouco com o muito que leu.
O mesmo também nos confidencia que, para piorar a sua situação,
ele tinha que dar aulas sobre aqueles livros que ele havia lido e estudado,
mas que, por incrível que venha a parecer, seus conteúdos
eram ilustres desconhecidos. Diante de tal confissão, cabe a pergunta
que, pelo seguir destas linhas, se faz mais do que obvia: você,
quando se formou (no ensino superior ou médio), não teve
a mesmíssima impressão?
Pois bem, a denúncia de si feita por Adler não pára
neste quesito. Como ele tinha que dar aulas sobre aquelas obras todas
e tinha que encontrar uma solução para o problema que, em
um primeiro momento foi a de tomar em mãos resumos, resenhas e
comentários sobre as obras, ao invés de retomar as obras
para lê-las novamente. E, deste modo, dissimulou para os seus alunos
uma pseudo-erudição temperada com um pedantismo atroz. E,
mais uma vez, não temos como não levantar a lebre: quem
nunca fez isso? Quem nunca fez isso que atire o seu diploma.
Tomando consciência deste seu ridículo fundamental o professor
Mortimer, depois de ter entrado em contato com o professor Charles van
Doren, passou a repensar a forma como ele desenvolvia as suas leituras
e a refletir sobre a forma como ele deveria proceder com os seus futuros
estudos, pois ler um texto é algo que demanda uma atenção
especial. Atenção esta que, na maioria das vezes, não
se encontra presente em nosso semblante.
E mais! Ler é uma arte e, como toda arte, a leitura deve ser composta
por um conjunto de técnicas que permitam ao indivíduo fazer
isso com a maior maestria possível, visto que, toda arte, tem por
meta a perfeição e não simplesmente a feitura de
algo de qualquer modo. No popular, isso seria um reles “chachixo”
e, se uma gambiarra prejudica o bom andamento de qualquer coisa em nosso
cotidiano, imagine o quanto uma leitura “chichelenta” pode
ser prejudicial para o intelecto de um sujeito.
Se você conseguir fazer esse exercício de abstração,
já estará dando o primeiro passo para a libertação
de uma prisão cognitiva construída por você mesmo.
Se não, pergunte-se: Qual foi o último livro que você
leu? De que área especificamente era a obra? Qual era o tema central
da mesma? Como era a estrutura da mesma? Quais eram os conceitos trabalhados
pelo autor e de que modo ele os conceitua? Qual é a idéia
central defendida pelo autor? Qual a relevância desta obra dentro
do debate intelectual sobre o assunto tratado pelas suas laudas? Quem
é o autor, qual é a sua história?
Se você não respondeu a essas perguntas temos aí um
grave problema, pois, se não somos capazes de respondê-las,
significa simplesmente que nós lemos muito mal. Tomar consciência
desse problema é o prelúdio de uma possível solução.
Conhecer a obra do senhor Mortimer Adler, uma ótima opção.
Porém, fingir que cada uma dessas palavras escritas neste libelo
não dizem nada, que não passam de um colóquio flácido
é sinal de demência incurável.
Ora, e seria possível encontrar uma palavra mais apropriada para
o panorama educacional em nosso país do que essa? Uma pessoa que
lê uma obra e entende lhufas dela e, por não ter entendido
nada, acha o autor o máximo, deve ser chamada de quê?
Você pode dar o nome que quiser a realidade, mas ela continuará
a ser o que é, goste você ou não dela. E, por fim,
como nos lembra o historiador Issac Assimov: “Se conhecimento pode
trazer problemas, não é sendo ignorante que poderemos solucioná-los”.
Infelizmente, não é esta compreensão que se faz reinante
em nossa sociedade.
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