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Os passageiros da agonia

Enio Rodrigues da Rosa é professor e coordenador do Fórum Municipal em Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência em Cascavel - enrros@brturbo.com.br

“O papel empresarial não é fazer caridade cristã”, já dizia Henry Ford, em 1914, quando o governo norte-americano aprovou uma lei que obrigava as empresas contratarem “inválidos”. Para o inventor da linha de montagem conhecida como fordismo e os donos das empresas de ônibus que fazem as linhas interestaduais, negócio é negócio e caridade é outra coisa totalmente diferente que não se misturam.
No entanto, todos os homens burgueses, educados segundo os princípios do liberalismo, precisam não só fazer, mas principalmente estar engajados ativamente em alguma obra de caridade cristã. É através disso que se apresentam para a sociedade como bem feitores. É também assim que são condecorados com títulos honoríficos, beneméritos e outras honrarias. A maioria deles até cria as suas fundações ou ONGs “sem fins lucrativos” (sem fins lucrativos? Nós acreditamos nisso?) com pelo menos três objetivos básicos: 1 - arrancar um dinheirinho do Estado e dos doadores, porque caridade é bom desde que seja com o dinheiro alheio (o que tem de ONGs por aí servindo de bico e de desculpa para se ganhar e desviar dinheiro, principalmente público, não é mole, não, tanto que o TC do Paraná dará uma olhadela mais de perto neste angu); 2 - disputar uma fatia do crescente “mercado” da pobreza, já que aí também se aplica a lei da livre concorrência (há entidades disputando a tapa os “clientes” mendigos, menores de rua, pessoa com deficiência, etc), agora reforçado com o marketing da “responsabilidade social”; e 3 - perpetuar o nome desses “grandes” homens para a eternidade, pois não nos esqueçamos que isso dá voto, seja para o bem feitor diretamente ou para o seu candidato - Cascavel tem exemplos disso.
Então, onde pega a questão das passagens dos idosos? Embora as empresas aleguem o problema econômico, que é um aspecto que precisa ser considerado, sabemos que praticamente todas dispõem de uma cota das chamadas passagens de cortesias, distribuídas livremente, de acordo com critérios adotados pelas próprias empresas. Um dos critérios é o princípio da caridade aliado à influência política, ou seja, atender a solicitação do vereador, deputado, prefeito, por exemplo. O outro se destina ao atendimento dos amigos próximos dos donos das empresas que normalmente viajam sem pagar.
Portanto, o problema fundamental aqui não é outro se não o caráter impositivo, obrigatório da lei - foi sobre isso que Ford se insurgiu em 1914, porque fere o principio da livre iniciativa. A meu ver, se a lei não consegue romper definitivamente com a relação do favor, da caridade, pelo menos ela ameniza bastante e coloca o assunto num outro patamar de discussão e análise, transpondo a questão do âmbito da filantropia para o campo do direito e da cidadania. Uma coisa é a pessoa ter que se dirigir até o dono ou o gerente da empresa e pedir um favor, correndo o risco, inclusive, de ouvir comentários desagradáveis, ou nem sequer ser recebido, uma vez que, neste caso, ele não é obrigado a fornecer a passagem. Outra totalmente diferente é a pessoa chegar no balcão da empresa juntamente com os demais passageiros e dizer: eu quero marcar uma passagem para tal lugar. Aqui o máximo que ela pode ouvir do funcionário da empresa é que naquele dia ou horário não tem mais lugar, ou que ela poderá viajar no dia e horário desejado pagando 50% do valor da passagem, conforme prevê a lei. A coisa muda de figura.
Quanto ao argumento econômico das empresas, é preciso fazer aqui duas observações. Em primeiro lugar elas não terão prejuízos, porque na pior das hipóteses isso será transferido, diluído entre os demais passageiros. A única justificativa plausível seria a de que isso poderia contribuir com a redução do número de usuários em face do aumento das passagens, já que essa é a forma que as empresas sempre encontram para manterem os seus lucros - agora, como o Estado brasileiro tem sido muito generoso com os ricos, certamente as empresas serão recompensadas com outras formas ainda mais lucrativas. Em segundo lugar, não devemos esquecer que essas empresas exploram, mediante concessão pública, linhas que pertencem ao Estado. Não sei se elas pagam por isso, nem tão pouco quanto elas pagam.
Agora, para evitar esta desculpa do prejuízo econômico, basta que o Estado amarre, condicione a concessão da exploração das linhas ao fornecimento das passagens.
Por fim, vocês já constataram como, ultimamente, têm crescido muito as empresas com “responsabilidade social” no Brasil? Já se comprovou através de pesquisas de mercado que a maioria das empresas de “responsabilidade social” faz crescer os seus lucros por meio do aumento das vendas dos seus produtos (a coisa funciona mais ou menos assim: a empresa “responsável” ajuda alguns pobres; faz propaganda disso e aí os seus clientes comovidos vão lá e compram ainda mais os seus produtos; alguns chamam isso de parceria?). “O papel empresarial não é fazer caridade cristã”, agora, se é possível tirar proveito dela, que mal tem, não é? É utilizando-se do apelo da caridade cristã rebatizada de “responsabilidade social” como estratégia de mercado, que algumas empresas vêm acumulando cada vez mais riquezas. Como dizia São Francisco de Assis, é dando que se recebe.

 

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