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Diante da velhacaria

Tarcísio Vanderlinde é professor da Unioeste no Campus de Marechal Cândido Rondon

O célebre filósofo cristão Francis Schaeffer já observava que palavras relacionadas ao imaginário religioso são as melhores à disposição dos manipuladores. A manipulação pode acontecer por mediadores espirituais no interesse das próprias religiões, mas em tempos de eleições, muitos políticos, em atitude messiânica, costumam se apropriar do imaginário religioso para encobrir velhacarias. A constatação vem dos próprios políticos que se envergonham ao ver seus colegas fazendo o jogo da aparência imaculada. Tem candidato que conseguiu transformar os dígitos de um versículo bíblico em seu número de campanha.
Em artigo lapidar, o senador Eduardo Matarazzo Suplicy destacou que a defesa da ética constitui fundamento de praticamente todas as religiões. Assim poderia se concluir que a religiosidade pudesse contribuir para condutas mais éticas evitando a corrupção, por exemplo. Mas não é o que acontece. O que se percebe é que muita gente, mesmo não professando religião, é exemplo de procedimento reto, com respeito pela verdade e pelo próximo. Por outro lado, há também quem, embora professe alguma fé religiosa cometa ações antiéticas e atos de corrupção (Folha de São Paulo, 24 de dezembro de 2005).
De acordo com o senador, o conceito de justiça é um dos pilares das religiões que têm a finalidade não só de dar uma visão espiritual ao mundo, num contato com um ser superior ou alívio ao sofrimento, mas também indicar um comportamento social, disciplinando as relações humanas com temperança e sabedoria. Como reflexo destes valores é que a própria Constituição Brasileira expressa que a administração pública obedecerá aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade e eficiência, considerando os direitos humanos e a cidadania. Advogados que assessoram políticos e cuidam das licitações sabem estes princípios na ponta da língua. No quotidiano, porém, são raras as administrações públicas que os seguem.
Não existe garantia que o discurso religioso venha sustentado por procedimentos éticos. Esta não será certamente uma relação de causa e efeito. Parafraseando Roberto Romano, filósofo e professor de ética da Unicamp, o discurso só terá eficácia quando as pessoas convertidas operarem coisas boas, em termos éticos e morais.
As pessoas de bem concordam que enquanto houver história sempre haverá algum tipo de corrupção, mas também concordam que quando pessoas retas exercem o poder podem fazer a diferença e afastar a velhacaria sem precisar necessariamente fazer um discurso religioso. Quando a retidão coincidir com o discurso religioso, então ainda poderá ser melhor.
No momento em que escrevia este texto explodiam focos de corrupção em Rondônia e no Amapá. Na seqüência, no Rio de Janeiro foram presos 30% dos funcionários do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Vale lembrar que tanto em Rondônia quanto no Amapá e Rio de Janeiro a corrupção está relacionada a ações de pessoas que deveriam zelar pelo bom cumprimento das leis.
Ao citar Amartya Sem, o senador Suplicy lembra que o modo como as pessoas agem depende freqüentemente de como elas vêem e percebem o comportamento dos outros, especialmente dos que estão nos postos de maior responsabilidade. É por isso que ninguém precisa se impressionar com o que ocorre em termos de segurança em São Paulo e outras regiões do País. E conclui citando Hui-man Tzu, filósofo que viveu na China em 122 a.C.: “Se a linha medidora da guia mestra estiver certa, o corte da madeira será reto; não porque se faz algum esforço especial, mas porque aquilo que a dirige faz com que assim seja. Da mesma maneira, se o dirigente for sincero e íntegro, funcionários honestos servirão em seu governo e os velhacos se esconderão, mas, se o dirigente não for íntegro, os perversos farão como querem, e os homens leais se afastarão”.

 

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