Injustiça da Justiça!
Pedro Cardoso da Costa é bacharel em Direito e mora em Interlagos
(SP) -pedroccosta@ig.com.br
A impunidade é tão antiga no Brasil quanto o analfabetismo.
Ambos são perpetuados e insolúveis. São tratados
na mídia em surtos. Nestes períodos, autoridades das respectivas
áreas aparecem com as justificativas de por que não há
solução. Especialistas apontam as medidas que deveriam ter
sido tomadas e não foram. Tudo isso, resultava numa lei; atualmente,
num pacote. Solução: nenhuma.
A reportagem de capa da revista “Veja” desta semana já
poderia ter sido a da primeira edição. Diz o que não
explicita. Definitivamente, a Justiça brasileira não faz
justiça. Não afirmou assim, porque a mídia brasileira
escreve sobre a Justiça com muita sutileza, com muito receio, até.
Talvez baseada num clichê nefasto de que decisão judicial
não se discute; cumpre-se. Aliás, repetido por Barbara Gancia
na “Folha de São Paulo” de 10 de agosto, página
C2.
Essa reportagem cita que de 345 mil boletins de ocorrência apenas
22 mil tornaram-se inquéritos; que também é fase
apenas investigativa. Os demais foram arquivados nas próprias delegacias.
Dos homicídios em São Paulo e Rio de Janeiro, apenas 2%
chegam à condenação. Ou seja, de cada 100 pessoas
assassinadas, 98 assassinos ficam impunes completamente. No Japão
e nos Estados Unidos esse número chega a mais de 90%.
Não cita que muitas dessas condenações são
fictícias; que não passam do papel, de serviços prestados
à comunidade, semi-abertas. E os crimes menos graves não
chegam ao mundo jurídico porque não são mais denunciados.
E olha que os contrários a penas maiores afirmam que somente a
certeza da punição inibe a prática de crimes.
Quer dizer, nem com outros 500 anos haverá melhoria nesse campo.
Outro vício repetido nessa reportagem seria o de apontar soluções
em abstrações excessivas, culpar sempre as leis, sem menção
que são aprovadas por homens, muitos vezes interessados em fazê-las
confusas e ruins para a defesa própria. Apontar como solução
que para desatar o nó no início da investigação
policial seria preciso “aperfeiçoar o trabalho da polícia
na fase posterior às prisões” equivale ao comentário
do jogador do time que está perdendo, ao dizer que “a gente
vamos pra cima, com muita garra, empenho e dedicação”.
Não cita com quais recursos técnicos ou táticos e
esquecem que o adversário pode sair de baixo. As demais soluções
apresentadas são assemelhadas.
O excesso de justiças especiais é um dos principais trunfos
para a indústria da prescrição. Os juízes
ficam anos a fio discutindo a quem competiria apreciar o caso concreto.
A prescrição é questão de tempo. Apenas um
trocadilho. Todos os envolvidos sabem. Uns se calam, outros se beneficiam.
O foro privilegiado está demonstrado ser a cereja da impunidade.
O Supremo Tribunal Federal nunca condenou um político. Se fosse
uma indústria estaria fechada por falta de produção
e de objetivo.
Os mandados e citações são os “emperradores”
dos processos. Mas continuam contando prazo da juntada aos autos. Todo
escritório de advocacia opera a rede mundial de computadores. Mas
não vale para receber uma intimação ou citação.
Na rede tem todos os mecanismos de certificação: digital,
bílis, assinatura. Não vale para o processo. Se a interpretação
da regra não serve para fazer esse tipo de citação,
digitação não poderia corresponder à datilografia,
tantas vezes citada nos textos legais.
Não precisam repetir que qualquer problema requer a conjunção
de medidas para a solução. Mas a predisposição
para resolver é a premissa básica. Sem esta, as outras não
virão. Mas há um agravante. As autoridades justificam a
perpetuação às várias dificuldades, como se
não tivessem o dever de evitá-las ou resolvê-las.
Se fosse para fazer apenas o fácil, não precisaria de administradores.
Os cidadãos são tachados de simplistas quando apontam soluções.
Ou seja, correto seria apenas aceitar as justificativas. E apregoam que
acreditem na Justiça. Com os resultados zerados, só se fôssemos
todos vulgares!
Enquanto réu confesso, como Pimenta Neves, décadas para
ser julgado, sem corar ninguém de vergonha por isso; enquanto a
Justiça brasileira não puder julgar todos e quaisquer crimes
num prazo máximo de um ano, seu padrão de qualidade é
péssimo. Não importa se outros países possam ultrapassar
esse prazo. Também são ruins. Nada deveria ficar mais de
um ano sem julgamento.
Atribuir julgamento justo e correto tecnicamente à demora em vários
anos, ou é maldade ou esperteza. Os “excelentíssimos”
Paulo Medina, Rocha Mattos e Lalau deveriam ser seguidores fiéis
dessa tese.
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