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EDUCAÇÃO

Resultados do Prova Brasil revelam que o problema é mais grave do que se imagina

A educação está uma catástrofe?

O aprendizado do aluno brasileiro no ensino fundamental é o adequado? E o ensinamento transmitido a eles? Se a base para essas perguntas for o resultado do exame Prova Brasil, aplicado pelo MEC (Ministério da Educação) para alunos de 4ª e 8ª séries, a resposta é não. E o problema é grave.
A prova avalia o desempenho do aluno – nas disciplinas de Matemática e Português - numa escala de 0 a 500 e a média obtida é desastrosa, ao mesmo tempo em que preocupa. Cascavel não foge à regra. Embora a média dos alunos locais tenha ficado um pouco acima da média nacional, o desempenho é inferior a 50% do total possível.
De posse dos resultados, o Hoje procurou especialistas e professores para avaliarem o que está acontecendo com a educação básica. Foram ouvidos o professor do curso de pedagogia da Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná), campus Cascavel, Paulino José Orso - doutor em História e Filosofia da Educação; a pedagoga Rosângela Nietto, especialista em docência do Ensino Superior; e o vice-prefeito de Cascavel Vander Piaia, professor universitário, mestre em História da Economia, doutor em História e Secretário de Educação.
Apesar dos diferentes pontos de vista dos professores entrevistados, o consenso entre eles é que o fracasso no sistema brasileiro é reflexo de um leque de problemas que não podem ser isolados quando se fala em deficiências educacionais.
O professor Paulino analisou os dados apontados na avaliação e confirmou a precariedade. “Para um cidadão minimamente exigente os números revelam uma verdadeira catástrofe educacional”.
Depois de traçado um comparativo Brasil-Paraná-Cascavel, Orso expôs que, apesar de a Capital do Oeste, em alguns pontos, ter ficado acima da média paranaense e nacional, não significa que o ensino da cidade é mais eficaz que no restante do País. “Avaliar a qualidade do ensino da cidade, baseado em resultados paupérrimos não contribui em nada para a solução do problema”.
A pedagoga Rosângela Nietto concordou que os resultados não foram os esperados, mas os avaliou de forma mais otimista. “Não vejo o caso de forma tão negativa, pois ficamos acima da média nacional”.

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A raiz do problema
O professor doutor Paulino José Orso explicou que não há um responsável único pela situação. A infra-estrutura e as condições de funcionamento da escola; a sobrecarga de trabalho do professor, bem como os baixos salários e as condições estressantes de trabalho são fatores que contribuem para a situação precária do ensino. Quanto aos alunos, há o problema da disciplina, condições econômicas, drogas, violência, cansaço físico e intelectual e ausência de uma proposta pedagógica clara e com objetivo bem definidos. Outro determinante apontado pelo professor é a escassez de recursos provenientes do governo e ausência de participação efetiva da comunidade, considerando-as com poucas perspectivas. “Vemos os políticos fazendo discursos, afirmando que a educação é prioridade, mas, na prática, reduzem os investimentos e incentivam a privatização”.
Rosângela Nietto aponta o problema maior da educação, além dos já citados, como a ausência dos pais no ambiente escolar, o que gerou uma inversão de papéis na educação das crianças. “De uns anos para cá, muitas famílias têm atribuído a função de criação das crianças unicamente para a escola. Precisamos de pais mais responsáveis com a educação”.
Vander Piaia esclareceu que nos últimos 17 anos houve uma aceleração em projetos contra o abandono da família na vida escolar dos filhos. “Batemos muito na questão familiar. É necessário que haja essa valorização na escola, para que consigamos mudar o perfil da educação”.

VIDA ESCOLAR
Pais ausentes semeiam
desinteresse nos filhos

A ausência dos pais foi assunto unânime entre os três especialistas. Segundo eles, houve uma inversão de papéis, cuja função de educar passou a ser somente da escola.
O desinteresse familiar na vida escolar das crianças se deve a falta de tempo, pois a maioria dos pais trabalha; falta paciência para lidar com as atividades que envolvem a escola; e até mesmo falta de conhecimento, que afasta os pais da construção do saber de seus filhos.
Das sete crianças de 4ª série do Ensino Fundamental que foram entrevistadas, cinco afirmaram que os pais não participam das atividades escolares. Algumas delas declararam que, quando pedem ajuda, levam bronca dos pais e irmãos mais velhos, que sempre estão cansados demais para ajudá-los. Outras reconheceram que os progenitores não tiveram estudo e entendem o por que do escasso interesse.
A dona de casa Liliane Capelli tem uma filha que estuda na 4ª série. Ela concorda com a descrição dos professores em relação a tímida participação da família na escola. “Percebemos o desinteresse quando tem reunião na escola. Muitos pais não vêm quando são chamados, pois não se interessam”.
O descaso da família pela vida escolar das crianças semeia adolescentes que não darão importância aos estudos, seguindo a lógica de que os filhos se espelham em seus pais.
A explanação da pedagoga Rosângela Nietto, a qual demonstra que o interesse dos alunos quando chegam à segunda etapa do Ensino Fundamental - de 5ª a 8ª série - reduz drasticamente. “Quando são pequenos, os alunos chegam a dormir com a mochila de tanto entusiasmo para estudar. Vários deles, quando chegam à adolescência, perdem essa motivação”. É nesse contexto que os alunos ficam vulneráveis às influências das drogas e violência. No entanto, tais frutos são colhidos - em determinados casos - em função da ausência paterna e materna no início da caminhada escolar.

PROVA BRASIL
Números mostram realidade preocupante

Setenta e quatro escolas de Cascavel participaram da avaliação, sendo 40 municipais e 34 estaduais. Nenhuma das instituições municipais de Cascavel conseguiu atingir pelo menos 50% de aproveitamento. A média geral em português foi de 174,77 e em matemática, 188,44. Uma análise mais específica apontou que a variação das notas nas escolas cascavelenses foi de 125,01 e 209,97 – na primeira disciplina – e de 121,21 e 224,53 – na segunda. As oscilações na performance de cada escola, segundo o professor Paulino José Orso, não são suficientes para diagnosticar quais foram os melhores ou piores resultados.
No âmbito da rede estadual, apenas 13 - das 34 escolas – conquistaram médias iguais ou superiores a 250. No ensino da língua pátria, nenhuma das escolas estaduais atingiu aproveitamento igual ou superior a 50%.
O resultado mostra que, na língua portuguesa, a média nacional é de 172,91 pontos para estudantes de 4ª série e 222,63 para os de 8ª série. No Paraná, eles estão um pouco acima da média nacional, 180,62 na 4ª série e 227,09 na 8ª série.
A realidade de Cascavel mostra que os alunos de escolas estaduais que foram submetidos à avaliação atingiram notas superiores ao Paraná e Brasil, com 234,79 pontos, e nas escolas municipais tiveram a média a de 174,77.
Em matemática, o desempenho, nos três níveis regionais, foi relativamente maior: as escolas estaduais alcançaram 257,30 pontos, e as municipais 188,44. Comparando com o Estado, a média foi de 247,43 e 191,01, respectivamente. Na abrangência nacional, as notas foram de 179,98 para 4ª série e 237,46 para 8ª série.

Gráfico comparativo das médias atingidas pelos estudantes de 4ª e 8ª série no Prova Brasil*

Língua Portuguesa**
Brasil:
4ª série: 172,91
8ª série: 222,63

Paraná:
4ª série: 180,62
8ª série: 227,09

Cascavel
4ª série: 174,77
8ª série: 234,79

xxx

Matemática**
Brasil:
4ª série: 179,98
8ª série: 237,46

Paraná:
4ª série: 191,55
8ª série: 247,43

Cascavel:
4ª série: 188,44
8ª série: 257,30

*Fonte: MEC
**As notas variam de 0 a 500


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Deficiência está nos educadores

O melhor desempenho nos números do que nas letras, segundo o professor doutor Paulino José Orso, revela um pensamento comum entre os educadores. “A maioria pensa que se o aluno souber ler e escrever, automaticamente, ele saberá História, Geografia, Ciências. Mas há um agravante. Matemática e Língua Portuguesa são as disciplinas que tem a maior carga horária nas Propostas Pedagógicas das Escolas”. Mesmo assim, os alunos não aprendem.
Um dos quesitos destacados pelo professor Orso é o próprio profissional da sala de aula. Além da sobrecarga de trabalho, baixos salários e atividades estressantes, há uma falta de preparo principalmente, dos mestres da rede municipal. Em geral, tais profissionais são formados em pedagogia e lecionam de forma generalista, isto é, ensinam português, matemática, geografia, ciências e outros, mas não tem um conhecimento efetivo sobre tais áreas.
“Se os alunos do Ensino Fundamental, por exemplo, não aprendem, o problema é dos professores que trabalham diretamente com eles, e também da instituição”. Essa deficiência ocorre em função da necessidade do professor ter que entender e atuar em diversas áreas do conhecimento, e não somente na de sua formação.
A pedagoga Rosângela Nietto discorda que a dificuldade é o professor de 1ª a 4ª série, pois todos foram preparados para dar aula. “É óbvio que existem profissionais e profissionais, mas em Cascavel, os professores passam, constantemente por um trabalho de formação continuada e recebem conhecimento nas diversas áreas”.
O secretário de Educação Vander Piaia destacou os problemas estruturais das escolas ligados à falta de coerências políticas na área. Quanto a hipótese de despreparo dos professores ele salienta que isso depende de cada mestre e considera os profissionais da rede municipal capacitados ao trabalho de ensinar.

As tentativas de sanar a deficiência
A Unioeste, Campus Cascavel, desenvolve com alguns municípios da região oeste a Avaliação para Diagnóstico de Desempenho de Alunos de 4ª série do Ensino Fundamental, por meio do NEI (Núcleo de Estudos Interdisciplinares).
Assim como o Prova Brasil, a atividade avalia o desempenho de estudantes de 4ª série, mas se baseia, além da Língua Portuguesa e Matemática, no ensino de Ciências, História e Geografia. “Realizamos a avaliação em parceria com as secretarias de educação de cada cidade. Ainda não desenvolvemos a proposta em Cascavel, mas há a intenção, mas sabemos que os resultados da cidade serão mais complexos justamente por ser um município maior”.
Segundo ele, o NEI disponibiliza a todos os professores cursos em todas as áreas do conhecimento, a fim de sanar tais deficiências.
O trabalho de Formação Continuada, desenvolvido juntos aos professores da rede municipal de ensino, é uma das tentativas da Secretaria de Educação de Cascavel de manter os professores preparados para lecionar.
Tal processo, de acordo com Vander Piaia, consiste no contato entre especialistas e os professores, diretores e coordenadores da rede municipal de ensino. “Vemos a educação como um processo que está em constante evolução. Disponibilizamos esses cursos para que o professor acompanhe essas mudanças”.
Um outro projeto, de maior complexidade, é uma pesquisa que apontará os reais pontos falhos do sistema educacional cascavelense.
Vander Piaia revelou que está em fase de conclusão e que revelará o desempenho dos estudantes, tendo por base as nas notas atingidas durante o ano letivo. A comparação levará em conta a região da escola, a instituição em que os professores se formaram, e o tempo de trabalho dos profissionais na rede municipal. “Queremos entender, de fato, por que há diferenças. Ainda não temos dados concretos, mas uma análise breve apontou que as médias dos alunos não conferem com a do Prova Brasil, mas a pesquisa não está concluída”.
Apesar das iniciativas, a pedagoga Rosângela Nietto destaca que se houvesse interesse político de melhorar educação isso, de fato, ocorreria. “O capitalismo desenfreado que toma conta do País impossibilita que haja evolução nesse campo. Todos têm que entender que os problemas do Brasil só melhorarão por meio da educação”.

O QUE É
A Prova Brasil – aplicada pelo MEC - avalia, anualmente, o desempenho dos alunos de escolas municipais e estaduais de todo o País, aplicando provas idênticas – de língua portuguesa e matemática – à todos os alunos inscritos, e tem uma escala de desempenho que vai de 0 a 500.

COMBUSTÍVEL – Município terá crédito de R$ 1 milhão para custeio

Projeto viabiliza produção
de biodiesel em Cascavel

Até o início de 2008, Cascavel produzirá biocombustível. Essa é a previsão baseada do Programa de Produção e Comercialização de Biodiesel, que autoriza parcerias entre prefeitura e pequenos produtores rurais para a produção da matéria-prima. Em troca, os produtores teriam fornecimento do combustível para os maquinários e utilizariam os excedentes do produto cultivado para alimentação animal e outras finalidades.
A execução da lei 4.525, aprovada em março pela Câmara de Vereadores, está em fase de reconhecimento das linhas de créditos junto ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e no orçamento do município. Conforme divulgado em edital, o Poder Executivo autorizou um crédito especial de R$ 1 milhão para o custeio da implementação.
De acordo com o vereador Aderbal de Mello (PT), autor da lei, apesar da necessidade de investimento na compra das máquinas para produção do biocombustível, Cascavel possui uma demanda de consumidores que viabiliza o projeto. “Já discutimos uma parceria com a FAG [Faculdade Assis Gurgacz] e com cooperativas para a execução do programa”. O vereador destacou que a implantação também englobará ações da Codevel (Companhia de Desenvolvimento de Cascavel) e Fundetec (Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico), que darão suporte operacional e técnico para o projeto.
A Copcaf (Cooperativa de Produção e Comercialização de Agricultura Familiar) é uma das entidades envolvidas no programa. O integrante da Copcaf, Elídio Neurer, afirmou que o processo de identificação da cultura adequada para região está em andamento. “A idéia é que cada produtor disponibilize parte de sua propriedade para essa questão, de forma que parte da produção retorne para nós”.
Caso seja executado, a produção do biodiesel abastecerá os veículos da prefeitura, a frota de transporte coletivo e demais interessados em comprar o produto. Conforme Aderbal, se somente a Prefeitura adquirir o combustível, haverá uma economia de 70% em tais despesas, e uma redução de 50% na emissão de poluentes.

PRECÁRIO

Ponte usada por moradores traz riscos

Moradores do Bairro Pioneiros Catarinenses, zona sul de Cascavel, reclamam das más condições de uma ponte que liga a região ao Bairro Neva, onde estão localizadas três instituições educacionais freqüentadas por jovens e, principalmente, crianças da região.
A travessia, usada como atalho para evitar a Rua Frei Henrique Coimbra - que segundo os moradores possui grande movimento e, por isso, apresenta riscos aos estudantes -, está há anos se deteriorando com o tempo, como lembrou o operário Valdir Coleoni. “Há cinco anos me mudei daqui, mas a condição da pinguela continua a mesma. O problema é que muita gente passa por ela. As tabuas estão até saindo do lugar e ninguém fez nada até agora”.
O filho de Valdir, Matheus Henrique Coleoni, disse que já escorregou da ponte e teve que ser puxado pela mãe de volta para cima. “Eu sei que é perigoso, mas continuo passando por aqui, já que é um atalho”, contou.
Com dificuldade em andar pela ponte com o filho, carregado em um carrinho de bebê, a diarista Maria Cleide Dall’Agnol, moradora do Loteamento Santa Mônica, Bairro Pioneiros Catarinenses, afirmou que uso regularmente o trecho. “Usamos porque corta caminho, mas a condição não está boa. Tinham que fazer alguma coisa”. A funcionária pública Silvia Santos declarou que várias vezes foi pedido à prefeitura que fosse tomada uma solução. “Solicitamos uma melhoria, mas acabaram arrumando outras pontes”.
O problema foi apresentado há quatro meses no caderno de bairros do Jornal Hoje, mas não foi resolvido. De acordo com o diretor de Comunicação, Marcos Piaia, a travessia oficial é pela Rua Frei Henrique Coimbra, e que a pinguela foi feita pela comunidade. “Iremos deslocar uma equipe para verificar o que pode ser feito. Como a propriedade é particular, o ideal seria desapropriar a área para assim fazer um melhor trabalho”

FOTOPERSONAGEM:

“Três vezes por semana passo aqui”
Maria Dall’Agnol, diarista

“A condição da ponte é péssima”
Valdir Coleoni, operário

“Já cansamos de pedir melhorias”
Silvia Santos, funcionária pública

 

 

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