Tolerar,
até que ponto?
Alsirez Cardoso
de Oliveira, policial civil em Realeza -alsirez@hotmail.com
Quando mais
uma vez o País é tomado pela perplexidade de um crime bárbaro,
volta à tona o velho tema da maioridade penal e das penas mais
severas para certos tipos de delitos.
Nem sempre é fácil conciliar a dosagem de uma pena com o
sentimento de justiça, principalmente do ponto de vista da vítima
e/ou seus familiares.
Nós, brasileiros, estamos acostumados ao conformismo, logo esquecemos
de tudo (a propósito, você lembra para quem votou na última
eleição?), aceitamos os fatos adversos, somos sensíveis
à dor somente no calor da discussão. Depois tudo passa,
volta apenas quando há outra hediondez.
Pessoalmente sou contra a redução da maioridade penal e
explico: ora, com o nosso atual sistema que não recupera ninguém;
com cadeias abarrotadas de miseráveis socialmente excluídos;
a máquina do Estado, que de tão pesada não dá
conta de construção de novos presídios (também,
em minha opinião, a pior das soluções); a Justiça,
abarrotada de processos, com poucos juízes e promotores para dar
conta de milhares de casos. Acham vocês que dessa forma teremos
redução de crimes? Respondo: não. O sistema literalmente
emperrará. Presídios e cadeias ficarão ainda mais
lotados. Não há como acomodar todos, muito menos realizar
a difícil tentativa de recuperá-los.
Está mais do que provado que majorar a pena não reduz a
criminalidade. Não falemos aqui em pena de morte, essa, sim, péssima
solução. Senão vejamos, no Brasil temos a tendência
a sermos demagogos, assim que o primeiro (provavelmente negro e pobre)
for condenado à morte, virá toda aquela outra polêmica
de direitos humanos, falta de oportunidade, etc, etc.
Creio que a discussão é mais profunda e o investimento passa
pelo ser humano, desde seu nascimento até a maturidade. O que gera
o crime é principalmente a falta de educação e oportunidade.
O cidadão deveria ser assistido pelo Estado tão logo viesse
ao mundo, seria educado em escolas de qualidade (construir mais escolas,
não mais presídios), com professores qualificados e bem
pagos, educação profissionalizante, universidade pública
para todos (atualmente as vagas ficam para filhos de papai que estudaram
a vida toda em escolas particulares).
Mas aí teríamos um estado social, que, ao meu ver, também
não é a melhor solução - todos sabem da massa
de vadios que estamos gerando, vivendo dos vários vales e bolsas
do governo.
O País deveria permitir maiores investimentos por parte do empresariado
em geral, diminuindo a carga tributária (pronto, temos outra celeuma)
e reduzindo juros. Isso permite geração de empregos, implemento
das exportações e melhores salários.
Afinal, qual seria a solução? Talvez se fôssemos indignados
365 dias por ano; protestássemos a todo instante; sentíssemos
repúdio por determinados atos e não indiferença;
denunciássemos, pois a impunidade também é gerada
pela certeza do marginal de que não será apontado por ninguém.
O seu medo alimenta a criminalidade.
Quem matou o pequeno João Helio?
Marco Antonio
Trindade é professor do curso de Fisioterapia da FAG e médico
que atende no Siate de Cascavel
A resposta
é tão fácil que muito me admira não ter sido
divulgada antes. Como médico do Siate estou familiarizado com a
dor, o sofrimento, as fatalidades que atingem as famílias, a tristeza
e as lágrimas dos que amam aqueles que se foram para sempre por
causa de acidentes, brigas, imprevistos e outros fatores imponderáveis
aos quais todos estamos sujeitos.
Na maioria desses casos se encontra sempre um responsável ou dois:
o motorista que foi imprudente, o cidadão que bebeu demais, o carro
cujo freio falhou por falta de cuidado de seu dono. Logo temos um responsável
a quem atribuir a culpa ou o dolo.
O caso do menino João Helio, morto no Rio de Janeiro arrastado
por bandidos, tem muito mais culpados, e o número é estarrecedor.
São também culpados os homens que de algum modo dirigem
esta pobre e sofrida pátria, ultrajada pela corrupção
crônica que tira o dinheiro da segurança pública para
custear a festa eterna que se chama Brasília. São culpados
os senhores nobres senadores, os senhores deputados federais e estaduais,
os senhores governadores e prefeitos, os senhores vereadores, os senhores
ministros do Supremo, os senhores juízes e promotores. Salvam-se
as raras exceções, mas a regra é esta que aí
está.
Falta o dinheiro para a segurança de todos, para a educação
deste povo brasileiro, para a saúde dos que moram nas favelas e
encontram no crime um modo de minimizar a falta de esperança de
toda uma vida. Falta o dinheiro para a escola que os nossos filhos ainda
podem ter, mas que tantos não conseguem - e quando vão não
sabem se voltam por causa das balas perdidas.
Perdidas não estão as balas apenas. Perdida está
a vergonha na cara dos que roubam as verbas publicas, desviam o dinheiro
da merenda, superfaturam as planilhas, recebem as propinas, nomeiam os
parentes, riem da nossa cara, nos ridicularizam dia após dia perante
o mundo inteiro, que continua a nos ver como um país onde os índios
e os macacos passeiam pelas areias de Copacabana - melhor seria se assim
fosse, pois índios e macacos não matam por crueldade.
Não somos o País do Futebol e do samba. Nós, somos,
isso sim, o país da corrupção e do descaramento.
Ninguém se preocupa em mudar a legislação vigente
para as punições exemplares, ninguém se preocupa
em agilizar a Justiça, ninguém realmente tem vontade de
ir ate o fim para acabar com a insegurança nossa de cada dia.
É provável que hoje os senhores secretários de Justiça
e de Segurança Pública do Rio de Janeiro venham à
televisão para afirmar que a tragédia foi pontual, um incidente
isolado, e que “os órgãos competentes farão
tudo para aumentar o efetivo nas ruas e dar mais segurança para
o povo”. Se fosse em outro local do Brasil, o discurso seria o mesmo.
Mentira... mentira deslavada. Nada vai mudar. Triste e crua verdade. Perguntem-me
daqui a um, dois, cinco, dez anos. Se eu não estiver mais aqui,
alguém vai responder em meu lugar: nada mudou!
Mas no fim de tudo me apavora pensar em algo mais medonho e cruel: quantos
de nós também somos responsáveis pela morte do pequeno
anjo João Hélio por termos votado mal, por escolhermos pessimamente
quem nos governa? Quantas vezes votamos apenas por interesse pessoal ou
apenas para não “perder” o voto num candidato com menos
chances, mas com mais caráter? Quantas chances ainda vamos perder
de tentar mudar o destino desta triste nação?
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