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Pesadelo ou realidade

Fouad Mohamad Fakih é empresário em Foz do Iguaçu - fouad@fouadcenter.com.br

Após anos de guerra civil, o Líbano vivia uma transformação sem precedentes. E não se trata apenas da reconstrução material, mas, essencialmente, da reconciliação nacional. Um processo que permitiu a todos os habitantes, das mais diversas ideologias e religiões, o retorno ao convívio fraterno, tanto interna quanto externamente, já que os libaneses representam um dos poucos povos a marcar presença milenar em todos os pontos da terra.
Falar dos libaneses ou das suas boas relações com outros povos é desnecessário. Os libaneses se integram fraternalmente e com facilidade. E a razão é simples: respeitam os usos e costumes, as culturas, as ideologias e os credos de todos os semelhantes.
Diante dessa realidade, muito provavelmente os árabes-libaneses ou descendentes sejam os povos de maior proximidade com os judeus. O fato é evidenciado quando revisamos o nascimento das duas nações. Ambos são de origem semita e do mesmo pai Abrahão, inclusive fortalecidos pelos interesses mútuos de realizarem negócios ou mesmo pela simples relação de amizade. Vale lembrar que essas relações foram, na maioria das vezes, provocadas e mantidas, de forma desinteressada, pela cultura e hospitalidade árabe.
No entanto, diante da intolerância e das atrocidades - o que o mundo assiste hoje no Líbano é um genocídio que esquarteja milhares de famílias e lança ao desespero um milhão de libaneses em uma ação que reabre cicatrizes - é preciso repensar na urgência da revisão de alguns valores entre israelenses e libaneses, inclusive na preservação e manutenção destas amizades. Afinal, nenhum governo faz uso da força de seu exército, e de armas recheadas com tamanha crueldade e ódio, sem que tenha o aval, mesmo que silencioso, da maioria do seu povo. E esse apoio tem sido oferecido pela maioria do povo de Israel.
Não se pode admitir que apenas o povo judeu tenha direito à vida e à segurança territorial. Especialmente quando é sabido que este território lhes foi dado pela imposição da comunidade internacional com a anuência de pseudos-líderes árabes da época. Governantes que, sem princípios e de condutas duvidosas, se perpetuam até hoje como verdadeiros serviçais de terceiros em detrimento dos seus povos. E o fazem em troca das luxurias e dos encantos e prazeres das mil e uma noites.
Infelizmente, esse território, que é a Palestina, foi vendido por traidores que permitiram a expulsão dos seus legítimos donos. E é por isso que, pelo sentimento de amor que tenho pelo Brasil que nos acolhe há mais de 100 anos, posso dizer feliz e agradecido, que a idéia da criação do Estado Israelense dentro da Amazônia ou mesmo em território Argentino, uma das primeiras propostas, não tenha se concretizado.
Fico imaginando o inferno que estaríamos vivendo, assim como o Oriente Médio, e em especial o Líbano, vive há décadas com o ódio dos governantes judeus e de seus parceiros nas áreas econômicas e bélicas. São ligações perigosas e estruturadas sob o pretexto da legítima defesa. Na verdade, são interesses de ordem material e estratégica, pois nenhum tipo de sentimento, cultura, religião ou tradição, os une.
Sabemos que o Brasil é o país que detém, senão a maior, uma das maiores reservas de água potável do planeta. Sabemos também da importância desta riqueza e do valor que terá daqui a alguns anos pela possível escassez. Estudiosos prevêem falta de água potável em várias regiões do mundo a partir de 2020. Por isso podemos nos tornar alvo e vítima de suposições engendradas em interesses escusos.
Pensar dessa forma nos faz lembrar da razão da escolha da Palestina para a criação do Estado Israelense. Uma razão com nome e sobrenome: reservas de petróleo. Por isso, podemos nos tornar a próxima vitima dos interesses globalizados das nações que se julgam soberanas pelo poderio econômico e bélico.
Não é justo desmerecer a vida dos dois soldados capturados pelo grupo Hezbollah dentro do território libanês. Mas é preciso mostrar a indignação na proporção da resposta. Essa resposta não pode jamais ser justificada com a destruição de uma nação de 10 mil anos de história e, principalmente, a auto-estima de 25 milhões de libaneses e descendentes espalhados pelo mundo.
Estamos diante de um genocídio apoiado e incentivado publicamente por dirigentes dos Estados Unidos da América e da Inglaterra. Duas nações que com seu poder, poderiam estar construindo um mundo melhor ao invés de colaborarem para a destruição do mesmo.
Vale lembrar que árabes, libaneses, muçulmanos e cristãos ou descendentes fazem parte e contribuem no desenvolvimento de todos os países do mundo, inclusive dos apoiadores da ofensiva covarde. Vivemos num mundo estranho, com rotulações nem sempre verdadeiras e com desproporcionalidades assombrosas, mas que sempre encontram solidariedade, mesmo que cega.
Minha voz, como a de outros 6,8 bilhões de seres humanos, sendo 1,3 bilhão de muçulmanos, 300 milhões de árabes, 25 milhões de libaneses, poderia ser mais forte se encontrasse eco entre uma minoria de judeus, calados e silenciados, que pela omissão ajudam a recarregar e disparar armas municiadas pelo ódio.
O povo de Israel e a comunidade judaica espalhada pelo mundo e em especial no Brasil, com fortes vínculos, inclusive fraternos com a comunidade libanesa-brasileira, também precisa reagir para mostrar que aprendemos com a dor e o sofrimento ao longo da história que guerras apenas destroem e aniquilam sonhos e esperanças.

Janela:
Estamos diante de um genocídio apoiado e incentivado publicamente por dirigentes dos Estados Unidos

 

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