Patentes e crescimento no século
XXI
Roberto Nicolsky, físico, é professor da UFRJ e diretor-geral
da Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica;
André Korottchenko, engenheiro eletrônico, é consultor
de propriedade intelectual da Protec
A partir do último quarto do século XX, a sustentabiidade
do crescimento de uma economia tradicionalmente industrializada, expressa
pela taxa de aumento do PIB (Produto Interno Bruto), passou a ser cada
vez mais dependente da capacidade do país de desenvolver a sua
própria tecnologia e, assim, competir autonomamente no cenário
mundial. O mesmo ocorre nas economias de industrialização
mais recente, como os países emergentes, entre os quais deveria
estar o Brasil.
Quantitativamente, a produção tecnológica de todo
país é medida pelo número de patentes concedidas
no maior mercado, que é o dos EUA (Estados Unidos). É preciso
escolher um único país porque as patentes só têm
abrangência local. Assim, observando as estatísticas de patentes
outorgadas nos EUA ao nosso país em comparação com
outros emergentes, podemos fazer inferências sobre o nosso desempenho
na geração de inovações competitivas e sobre
a eficácia das nossas políticas públicas de fomento
ao desenvolvimento tecnológico.
Bem, neste início do século XXI, definitivamente, não
fomos brilhantes. O USPTO (sigla em inglês do escritório
de patentes norte-americano) concedeu-nos, no triênio 2001-2003,
336 patentes, número que caiu para 304 no triênio subseqüente,
2004-2006. Ou seja, tivemos uma perda de 10%. Como terá sido o
desempenho dos demais países emergentes nos mesmos períodos?
Será que essa queda foi geral?
Nem vale a pena nos comparar com emergentes já muito bem-sucedidos,
como Coréia e Taiwan. Esses países, embora pequenos e recém-industrializados,
são, respectivamente, o quinto e o quarto patenteadores no USPTO,
só perdendo para os três países mais ricos: EUA, Japão
e Alemanha.
Assim, vamos nos comparar apenas com um país que é muito
mais pobre do que nós, com PIB nominal menor que o nosso (o per
capita é cerca de um oitavo do nosso), e começou seu processo
de industrialização depois de nós. Em compensação,
esse país é muito mais focado no seu desenvolvimento tecnológico.
Estamos falando da Índia, que tem mais de 1 bilhão de habitantes
e cresce hoje de 8% a 9% ao ano, enquanto nós não passamos
da média de 2,5% anuais.
Pois a Índia teve concedidas pelo USPTO 768 patentes em 2001-2003
e 1.228 em 2004-2006, o que representa um crescimento espetacular de 60%
entre esses períodos. Comparada ao Brasil, tinha pouco mais de
duas vezes a soma de nossas patentes e agora ultrapassa quatro vezes.
Não é demais lembrar que a China, também um país
de industrialização recente, obteve 1.527 patentes no primeiro
triênio e 2.373 patentes no seguinte, crescendo, portanto, 55%.
Embora com índice inferior ao da Índia, superou oito vezes
o nosso desempenho.
É interessante verificar em que setores a Índia cresceu
tanto e comparar o comportamento brasileiro nesses setores. Nota-se que
o setor responsável por esse salto é o de eletrônica-telecomunicações-informática,
que representou 36% no último triênio, mas em seguida explodiu,
com crescimento de 195%, quase o triplo do triênio anterior. Mantida
a tendência, este setor irá dominar a pauta das patentes
indianas em poucos anos. Ele é também o principal e o que
mais cresce nos demais emergentes citados: China, Coréia e Taiwan.
Somente a produção indiana na área de informática
responde por exportações de US$ 31 bilhões em 2006,
o que representa um crescimento médio de 35% ao ano - e isto nos
últimos 15 anos. Se também considerarmos o mercado interno,
a informática da Índia movimenta US$ 40 bilhões anuais,
isto é, cerca de 5% do seu PIB, respondendo sozinha pela quarta
parte da taxa nacional de crescimento. E isso em um país que ainda
tem mais de 30% de analfabetos e cerca de duas vezes a população
total do Brasil vivendo em nível de extrema pobreza.
As patentes brasileiras no USPTO compõem-se, principalmente, de
áreas convencionais da indústria, tais como máquinas,
componentes mecânicos e transportes terrestres, que no último
triênio responderam por 28% do total. A área de eletrônica
correspondeu apenas a 10%, e ainda assim está em declínio.
Portanto, tanto no número de patentes obtidas nos EUA quanto na
sua distribuição por áreas tecnológicas, estamos
em plena contramão em relação às demais economias
emergentes, e, por conseqüência, também no crescimento
do PIB.
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