Não
levo a vida, deixo ela me levar! Por Seu Pedro
Pedro Diedrichs,
jornalista e editor do jornal Vanguarda, de Guanambi, Bahia - jornalvanguarda@micks.com.br
Dizem que
de poeta e louco cada um tem um pouco. Acho que desde pequeno, quando
não tinha nada de poeta, eu já era louco, no bom sentido,
é claro! Era eu uma espécie de Marcelino Pão e Vinho,
personagem de uma história que poucos hoje conhecem, mas no meu
tempo ainda de criança o filme lotava sessões e provocava
enormes filas às portas dos cinemas.
Marcelino, um pequeno órfão que causa milagre. Quando bebê
foi deixado na porta de um mosteiro e criado muito bem cuidado pelos monges,
mas sente falta de ter uma mãe. Um dia encontra um amigo especial
em sótão proibido, pendurado em uma cruz. Um amigo que retribui
a bondade da criança, concedendo-lhe um desejo do fundo de seu
coração. Marcelino deseja ter um amigo para brincar, com
a personalidade dele, e o ganhou invisível e habitando a sua mente,
que tinha todo o espaço de um jardim, onde brincava só aos
olhos humanos, mas a dois aos olhos que vêem através de outros
corpos!
Eu e Marcelino podíamos ter nascido em qualquer lugar do mundo,
pois na movimentada linha de produção de bebês não
há como determinar a alma de cada criança a nascer. São
muitos exemplares e parece que poucas as cegonhas; elas têm que
viajar com rapidez, vasculhando quarto de motéis, terrenos baldios,
moitas das flores, quartos de casas pobres e ricas, e até o escurinho
do cinema, para entregar para cada par ou casal o bebê desejado
ou indesejado, e ela tem que ser tão rápida que não
dê tempo para que a vejam e passem a acreditar no que estou falando.
Ao contrário do que pensam, a cegonha não traz o bebê
completo e já chorando pendurado em um lençol, traz-nos
dele apenas a alma e a personalidade!
Foi no meu tempo de criança que começaram a estudar cientificamente
o autismo, há 60 anos, que dizem ser uma desordem na qual uma criança
jovem não pode desenvolver relações sociais normais,
se comporta de modo compulsivo e ritualista. Terei sido, ou sou, autista,
já que não desenvolvo relações sociais normais?
Não vou ao clube pelas manhãs jogar pelada; não saio
à noite para sentar em um botequim e sair de lá com bafo
de saca-rolha; não compro “Playboy”; não fumo
em restaurantes e em nenhum outro lugar, preferindo gastar meu suado dinheiro
em guloseimas para meus filhos; adoro mulheres de todos os gênios,
tipos, estaturas, raças e profissões, mas só escolhi
uma delas para ser a minha boa metade. Sou diferente, não sou convencional!
Poucos são compulsivos como eu, principalmente quando se trata
de meus direitos, quando falo alto e em bom som, às vezes sou mal
entendido e me dou mal, mas o que fazer se sou assim e não abro
mão? Sou ritualista, agradeço a Deus a qualquer hora e em
qualquer lugar, jogo minhas calças, camisas, meias e cuecas espalhadas
pelo chão do quarto como um ritual que vai ser difícil mudar
na minha idade. O único local que arrumo é o meu espaço
de trabalho, o que o faço ritualmente de seis em seis meses, ou
quando necessito achar um papel perdido entre a montanha de outros que
já deveriam ter sido destinados à reciclagem. Não
dou bom-dia a quem não gosto e vivo a sorrir para os que me são
simpáticos. Isso é autismo?
Não só Gabriel que nasceu em 1993 em Macaé, litoral
do Rio de Janeiro, cujo pai presta homenagem em uma página que
criou na internet, pena que desatualizada, Canto de Anjo, em que ele narra
que aos três anos após terem recebido por dádiva de
Deus o anjo Gabriel ele percebeu que o filho reagia em não falar,
mas só cantar adotando um comportamento aéreo.
Que nenhum avião Legacy derrube nossos pensamentos e sonhos aéreos,
pois melhor é ver a vida pelo alto, e que ninguém nos impeça
de cantar ao som das harpas tocadas pelos anjos ou ao batuque do pandeiro,
do ronco da cuíca ou de um dedilhar ao violão, quer melhor
do que cantar? Afinal, como diz Zeca Pagodinho: “E deixa a vida
me levar, vida leva eu (...) Sou feliz e agradeço por tudo que
Deus me deu...” |