O tempo na gestão educacional
Wanda Camargo é presidente da Comissão Central de Processo
Seletivo da UniBrasil-Curitiba - enfoque@onda.com.br
Em qualquer tipo de empresa, administração do tempo é
importante, pois produtividade e eficácia organizacional dependem
estritamente deste fator.
Quando a empresa é da área educacional, esse é um
tópico decisivo e delicado, pelas características intrínsecas
de um ramo de atividade em que o tempo para escrever, refletir e planejar
é diferencial competitivo.
Em administração do tempo é fundamental o estabelecimento
de metas. Determinar onde se quer chegar é primordial para orientar
decisões. Pessoas podem produzir mais, com menos esforço,
através do que se denomina nas teorias administrativas de “trabalho
inteligente”. Os resultados das primeiras análises constam
em vários manuais de administração e envolvem aspectos
como a postergação de decisões; produção
intensiva de documentos desnecessários; períodos refazendo
atividades erroneamente realizadas; e, principalmente, ausência
absoluta de tempo para pensar e planejar, com conseqüente escravização
à rotina.
O uso do tempo como diferencial competitivo constitui uma tendência
clara, usá-lo como instrumento não apenas de produção
de um bem concreto, mas também de melhoria da qualidade de vida,
é fundamental. Numa área de intensa produção
intelectual como a da educação, o planejamento do “ócio
criativo”, diminuição do estresse e a obtenção
de maior satisfação pessoal são componentes essenciais
para o mérito acadêmico, sem o qual essa atividade resulta
vazia de sentido.
Historicamente, no entanto, o "ócio criativo" confundiu-se
com o puro ócio, improdutividade e mau uso do erário. Muitas
vezes, inclusive, no exercício de uma postura pretensamente ideológica,
isenta de princípios éticos que ultrapassem o mero discurso,
plena de atitudes reclamatórias de direitos, sem deveres.
Como administrar o tempo do acadêmico? Gastar mais tempo produzindo
indicadores sobre o trabalho que propriamente trabalhando é contra-senso
e disparate. Indicadores devem ser produzidos sobre fatos, e fatos devem
acontecer para o encaminhamento do cumprimento de uma missão, para
atingir metas.
Existe um tempo de gerar indicadores, mas também um tempo de preparar
o futuro. É fundamental que o professor pense, reflita e crie para
que a instituição de ensino cumpra sua função.
Um dos grandes desafios da gestão educacional é a administração
de instituições, em que, caracteristicamente, são
difusas as fronteiras entre os cargos operacionais e estratégicos,
e em que, portanto, a delimitação do tempo destinado às
atividades de reflexão ou de ação não está
claramente estabelecida.
O tempo deve ser realisticamente programado para que as tarefas certas
realmente sejam feitas, pois nem sempre o urgente é importante.
Urgente necessita atenção imediata. Importante está
vinculado aos objetivos reais a serem atingidos.
Nada é mais importante, na educação, que o conjunto
que engloba o mérito acadêmico, a projeção
educacional e o respeito dos pares, a escolha entre as várias metodologias
disponíveis para atingir a perfeita aprendizagem, a adequada gestão
das pessoas que compõem um bom corpo docente e um criativo e vivaz
corpo discente.
Assuntos importantes, vinculados aos objetivos, deverão sempre
ter prioridade sobre assuntos meramente urgentes, vinculados ao tempo,
sob pena da perda da missão da instituição de ensino,
perda de seus valores e não cumprimento de sua destinação.
O Princípio de Pareto postula que, dado um número qualquer
de itens, um pequeno número destes é sempre mais importante
que o restante. Esta é uma prescrição de discriminação,
que propõe dedicar mais atenção aos itens importantes
e menos atenção aos itens de menor importância, mesmo
que urgentes.
A incapacidade de distingui-los, quando a empresa produz bens que mudam
de cor quando se passa tinta sobre eles, é punida pela regulação
do mercado. Naquelas que produzem bem impalpável, como é
o caso da educação, também se pagará caro.
Lamentavelmente, por muito mais tempo.
Reminiscências inflacionárias
Luiz Leitão é articulista - luizmleitao@gmail.com
A celebrada estréia do Brasil no seleto grupo dos países
credores do sistema financeiro internacional traz à lembrança
a cantilena dos que eram contra a política econômica do atual
governo e do que o precedeu, e os tempos inglórios em que a inflação
cavalgava sobretudo o lombo dos mais pobres, que não tinham como
dela se defender.
O presidente Lula costumava dizer: “O que tem de gente torcendo
contra não é brincadeira”, embora não reclamasse,
por conveniência ou por cortesia, do fogo amigo despejado pelo vice-presidente
José de Alencar, que até outro dia não perdia uma
oportunidade de criticar as taxas de juros.
Também integraram o time dos sabotadores verbais da política
econômica o seu então ministro das Relações
Institucionais Tarso Genro, que chegou a anunciar o “fim da era
Palocci”, e a chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, a aplicada adversária
da política de ajuste fiscal que vivia se engalfinhando com o então
ministro da Fazenda Antonio Palocci. O governador de São Paulo,
José Serra, empresários, sindicalistas; longa é a
lista dos que reprovavam a conduta do Banco Central, ora reclamando dos
juros, ora queixando-se da valorização do real em relação
ao dólar. Mas a derrota é órfã, e hoje ninguém
mais se lembra do que dissera.
O resultado que hoje se saboreia é fruto da redemocratização
do País, da alternância no poder e da observância de
duras lições passadas, e suscita um retrospecto do período
em que o Brasil viveu o pesadelo da hiperinflação que ilustra
com perfeição o valor do arejamento de idéias que
a democracia torna possível; um antídoto contra os argumentos
dos teimosos desenvolvimentistas que não se cansam de apregoar
as falsas virtudes do inchaço da máquina estatal.
Ao término do Governo Sarney, de longe o pior da história
do Brasil no que diz respeito à condução da economia,
durante o qual, apesar da criação de duas moedas, cruzado
e cruzado novo, e do corte de seis zeros da moeda - três de cada
vez -, a inflação atingiu inacreditáveis 84,32% ao
mês. Passando por um empréstimo compulsório até
hoje não restituído, a calamitosa condução
da política econômica pelo oligarca maranhense culminou na
declaração da moratória da dívida externa
brasileira.
Não fosse o impeachment, em agosto de 1992, seu sucessor talvez
lhe tivesse arrebatado o inglorioso troféu. Fernando Collor assumiu,
confiscou todos os depósitos em dinheiro de empresas e pessoas
- era permitido sacar apenas 50 cruzeiros - e desbastou mais três
zeros da moeda, recriando o cruzeiro. No Governo Itamar Franco, com a
inflação ascendendo a estrondosos 2.708% ao ano (os preços
subiam 26,7 vezes no período), outra moeda, o cruzeiro real, foi
criada, com o corte de mais três zeros. Em maio de 1994, ainda sob
Itamar Franco e debaixo das vaias da oposição, foi finalmente
instituído o real, que chegou a valer mais que o dólar.
Para a geração que viveu a época em que linhas telefônicas
e automóveis eram considerados investimentos financeiros e a “profissão”
de doleiro era prestigiada, que assistia à remarcação
diária dos preços e, tolamente, ostentando crachás
de “fiscais do Sarney”, acreditou que a inflação
poderia ser domada por um decreto congelando os preços, a estabilidade
econômica não tem preço.
Embalado pelo júbilo, Lula disse, durante visita à Argentina:
“Temos, todos os países, que começar a nos endividar.
Não para gastar dinheiro à toa, mas para gastar com a infra-estrutura.”
Esqueceu-se o presidente que a dívida interna pública brasileira
atingiu a escandalosa cifra de R$ 1,2 trilhão. Aliás, quem
proferiu aquelas palavras nem parece a mesma pessoa que há um mês
e pouco falava em cortar despesas por conta da perda da CPMF.
|