Culpa,
responsabilidade e desmando
Sandra Silva
é socióloga em Alegrete (RS) - sandrasilva33@yahoo.com.br
“Imaginem,
por uma redução ao absurdo, que o governo que aí
está e o partido que o sustenta estivessem na oposição.
O que não diriam da situação que estamos vivendo?
Será que admitiriam que os seus protestos e críticas graves
fossem denominados golpistas ou conspiração?” (Waldo
Luis Viana).
“Só existem dois grupos em verdadeira luta no Brasil: os
que estão roubando e os que querem roubar”. (Tenório
Cavalcanti)
“O País perdeu a inteligência e a consciência
moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em
debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por
única direção a conveniência. Não há
princípio que não seja desmentido. Não há
instituição que não seja escarnecida. Ninguém
se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.
Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns
agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente
na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria.
Os serviços públicos são abandonados a uma rotina
dormente. O Estado é considerado na sua ação fiscal
como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento
invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte: o País
está perdido”. (Eça de Queirós, 1871)
“Duzentos mortos, pista inadequada, avião com defeito. Uma
medalha enfeita o peito de quem não fiscalizou. O presidente lia
um texto para dizer que está triste. Sua filósofa fala em
‘golpe’. Golpeado está quem é honesto neste
país” (Maurício Pereira, pai de Mariana, 22 anos,
vítima do desastre aéreo de Congonhas).
Pincei os textos acima que traduzem o pensamento de pessoas que estão
em espaços distintos, sem vínculo umas com as outras, mas
todas com o mesmo enfoque. O Brasil como um todo está pensando
igual, ainda que o governo esteja atirando sua metralhadora para dizer
que tudo não passa de golpe da “zelite”. Ninguém
quer golpe algum ou deposição se houver decência,
ética e bom gerenciamento público. Afinal, é para
isso que as sociedades democráticas elegem quem as represente pagando-lhes
pelo emprego régios salários. Eles, os eleitos, são
nossos empregados. Nós somos os empregadores. Se não cuidarmos
de nosso patrimônio, iremos à bancarrota.
Em mais um infeliz pronunciamento, o presidente da república diz
que “o governo não sabia da gravidade do problema aéreo”.
Mas este governo nunca sabe nada!!! Desde o início das leviandades
em 2005 (abertura da caixa-preta do governo), aquele que tem de responder
constitucionalmente não sabe de nada. Que pretensão terá
o chefe do governo e do Estado ao repetir que ignorava o tamanho da lesão?
Que o povo continue a ter pena do pobre retirante sem escolaridade formal
e que é enganado por seus assessores? Não bastou a morte
de 154 pessoas no desastre de setembro de 2006? Era necessário
que mais 199 brasileiros perecessem de forma atroz para que o governo
tomasse conhecimento de que a estrutura aérea do País estava
falindo violentamente?
Escândalos há muito fazem parte da administração
brasileira. Apenas para relembrar alguns com a conseqüente omissão
da sociedade citamos: caso Capemi, escândalos da mandioca e Brasilinvest,
caso Morel e Coroa-Brastel, escândalo do Ministério das Comunicações,
quando foi descoberto grande número de concessões de rádios
e tevês para políticos aliados ou não ao então
presidente José Sarney, caso Abi-Ackel, escândalo da Previdência
Social, caso Sérgio Corrêa da Costa, escândalo da Central
de Medicamentos, esquema PC Farias, escândalos da Eletronorte, FGTS,
Ação Social, Banco Central, Vasp, Fundo de Pariticipação,
Banco do Brasil, casos Inocêncio Oliveira, Nilo Coelho, Eliseu Rezende
e Nei Maranhão, Sivan, Encol, precatórios, Mappin, dossiê
Cayman, desvio de verbas do TRT/SP (Lalau), caso Roseana Sarney, Celso
Daniel e Toninho do PT, irregularidades do Fome Zero, operação
Anaconda, ONG Agora, caso Henrique Meirelles, “vampiros”,
irregularidades no Bolsa-Escola, “mensalão”, Brasil
Telecom, dólares na cueca, banco Santos, Daniel Dantas, Toninho
da Barcelona e todos os outros mais recentes e, portanto, mais vivos na
memória do povo. A listagem é tão expressiva que
lembra as relações feitas pelos nazistas de seus prisioneiros
judeus quando entravam nos trens que levavam aos campos de concentração
e suas câmaras de gás.
Não dá mais para continuar assim. O País está
à beira de uma catástrofe ainda maior com relação
à saúde, às estradas e à educação,
dentre as mais prementes. Há um esquartejamento da máquina
administrativa e uma ineficiência de gestores públicos terrível.
Por isso estão espocando movimentos cívicos no território
nacional. É a velha máxima popular: quem não tem
competência, não se estabeleça.
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