Edição nº 4716 - Sexta-feira, 10 de agosto de 2007 Classificados | Assinatura | Impressão
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Culpa, responsabilidade e desmando

Sandra Silva é socióloga em Alegrete (RS) - sandrasilva33@yahoo.com.br

“Imaginem, por uma redução ao absurdo, que o governo que aí está e o partido que o sustenta estivessem na oposição. O que não diriam da situação que estamos vivendo? Será que admitiriam que os seus protestos e críticas graves fossem denominados golpistas ou conspiração?” (Waldo Luis Viana).
“Só existem dois grupos em verdadeira luta no Brasil: os que estão roubando e os que querem roubar”. (Tenório Cavalcanti)
“O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O Estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte: o País está perdido”. (Eça de Queirós, 1871)
“Duzentos mortos, pista inadequada, avião com defeito. Uma medalha enfeita o peito de quem não fiscalizou. O presidente lia um texto para dizer que está triste. Sua filósofa fala em ‘golpe’. Golpeado está quem é honesto neste país” (Maurício Pereira, pai de Mariana, 22 anos, vítima do desastre aéreo de Congonhas).
Pincei os textos acima que traduzem o pensamento de pessoas que estão em espaços distintos, sem vínculo umas com as outras, mas todas com o mesmo enfoque. O Brasil como um todo está pensando igual, ainda que o governo esteja atirando sua metralhadora para dizer que tudo não passa de golpe da “zelite”. Ninguém quer golpe algum ou deposição se houver decência, ética e bom gerenciamento público. Afinal, é para isso que as sociedades democráticas elegem quem as represente pagando-lhes pelo emprego régios salários. Eles, os eleitos, são nossos empregados. Nós somos os empregadores. Se não cuidarmos de nosso patrimônio, iremos à bancarrota.
Em mais um infeliz pronunciamento, o presidente da república diz que “o governo não sabia da gravidade do problema aéreo”. Mas este governo nunca sabe nada!!! Desde o início das leviandades em 2005 (abertura da caixa-preta do governo), aquele que tem de responder constitucionalmente não sabe de nada. Que pretensão terá o chefe do governo e do Estado ao repetir que ignorava o tamanho da lesão? Que o povo continue a ter pena do pobre retirante sem escolaridade formal e que é enganado por seus assessores? Não bastou a morte de 154 pessoas no desastre de setembro de 2006? Era necessário que mais 199 brasileiros perecessem de forma atroz para que o governo tomasse conhecimento de que a estrutura aérea do País estava falindo violentamente?
Escândalos há muito fazem parte da administração brasileira. Apenas para relembrar alguns com a conseqüente omissão da sociedade citamos: caso Capemi, escândalos da mandioca e Brasilinvest, caso Morel e Coroa-Brastel, escândalo do Ministério das Comunicações, quando foi descoberto grande número de concessões de rádios e tevês para políticos aliados ou não ao então presidente José Sarney, caso Abi-Ackel, escândalo da Previdência Social, caso Sérgio Corrêa da Costa, escândalo da Central de Medicamentos, esquema PC Farias, escândalos da Eletronorte, FGTS, Ação Social, Banco Central, Vasp, Fundo de Pariticipação, Banco do Brasil, casos Inocêncio Oliveira, Nilo Coelho, Eliseu Rezende e Nei Maranhão, Sivan, Encol, precatórios, Mappin, dossiê Cayman, desvio de verbas do TRT/SP (Lalau), caso Roseana Sarney, Celso Daniel e Toninho do PT, irregularidades do Fome Zero, operação Anaconda, ONG Agora, caso Henrique Meirelles, “vampiros”, irregularidades no Bolsa-Escola, “mensalão”, Brasil Telecom, dólares na cueca, banco Santos, Daniel Dantas, Toninho da Barcelona e todos os outros mais recentes e, portanto, mais vivos na memória do povo. A listagem é tão expressiva que lembra as relações feitas pelos nazistas de seus prisioneiros judeus quando entravam nos trens que levavam aos campos de concentração e suas câmaras de gás.
Não dá mais para continuar assim. O País está à beira de uma catástrofe ainda maior com relação à saúde, às estradas e à educação, dentre as mais prementes. Há um esquartejamento da máquina administrativa e uma ineficiência de gestores públicos terrível. Por isso estão espocando movimentos cívicos no território nacional. É a velha máxima popular: quem não tem competência, não se estabeleça.

 

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