PERFIL
Jorge Luiz dos Santos, 51, é médico, pediatra, com especialidade
em alergia e imunopatologia. Mora em Cascavel desde janeiro de 1982. É
proprietário da Clínica Modelo, casado com Liane dos Santos
e pai de três filhos: Heverton, 27, que está terminando residência
médica em pediatria, no Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba;
Anelyse, 24, que cursa o segundo ano de Medicina na Unioeste; e Heloyse,
que faz o terceiro ano de Arquitetura na Unipar.
BATE-PRONTO
Lísias Tomé
É um idealista. Eu o vejo como um guerreiro. É isso, um
guerreiro.
Cláudio Xavier (secretário de Estado da Saúde)
Pelo pouco contato que tive com ele, vejo-o como uma pessoa afim de colaborar.
Roberto Requião
O Requião?...(pausa)....Como o vejo?.....a atuação
dele?....Não sei o que falar do Requião.
Presidente Lula
O Lula perdeu o rumo. Apesar das boas intenções, perdeu
oportunidade de moralizar o país.
Os médicos sistema de saúde
Desestimulados. O sistema paga mal, o que acaba refletindo na qualidade
do atendimento.
JORGE
LUIZ DOS SANTOS
SAÚDE PRECISA VOLTAR AOS BAIRROS
O secretário
de Saúde de Cascavel, o pediatra Jorge Luiz dos Santos, diz que
a Saúde, em Cascavel e em todo o País, tende a piorar pelo
aumento da demanda e por conta dos baixos investimentos em medicina preventiva.
Para corrigir o sistema na cidade, ele quer promover o que chama de inversão
de fluxo, atendendo a população nos bairros, por meio das
UBS (Unidades Básicas de Saúde). Segundo ele, essas unidades
foram sucateadas a partir da construção dos PACs (Pronto
Atendimento Continuado), o que levou a uma super-demanda nessas unidades.
Jornal Hoje: A Saúde vive um momento conturbado em Cascavel. Como
o Sr. vê a Saúde Pública em Cascavel? Por quê
tanta confusão?
Jorge Luiz dos Santos: A confusão não é em Cascavel.
É no Brasil inteiro. Está relacionada ao SUS (Sistema Único
de Saúde). Apesar de o modelo SUS ser considerado um dos melhores
planos de saúde pública no mundo, infelizmente, o recurso
que deveria vir para atender as necessidades não é repassado.
JH: E quanto ao sistema de saúde em Cascavel?
Jorge dos Santos: Sendo uma cidade pólo e um centro de referência
médica, toda a região converge para ela. Os recursos são
insuficientes e o quadro todo se agrava com a demanda regional. O sistema
está sobrecarregado. Veja o que temos hoje: os hospitais estão
se descredenciando do SUS, o que nos causa um déficit de leitos
disponíveis. Até existem, mas estão desativados por
falta de pessoal e de recursos.
JH: E quanto ao fluxo externo de pacientes, há algum controle disso?
Jorge dos Santos: Existem muitas cidades que mandam pacientes para Cascavel.
E não há um sistema para controlar isso. Os municípios
de origem desses pacientes é que recebem as verbas do SUS. Mas
nós é que bancamos esse atendimento. Não tenho o
número exato do que isso representa para o nosso custo. Mas estamos
levantando esses dados, que são muito complexos. Precisamos ter
isso na mão para as providências necessárias.
JH: Mas, afinal, qual é o problema central do sistema municipal
de Saúde?
Jorge dos Santos: Eu vejo como um problema sério a questão
dos investimentos que foram feitos anteriormente. Abandonaram a ação
preventiva. Exemplo disso são os dois PACs. Para criá-los,
desestruturam todas as Unidades Básicas de Saúde. Tiraram
os médicos e funcionários da unidade para colocá-los
no PAC. Centralizaram tudo.
JH: E quanto a polêmica com o HU, sobre a triagem de pacientes?
Jorge dos Santos: O PAC não é um pronto-socorro. É
um postão. Não há estrutura para emergências.
Na forma do direcionamento do fluxo como aconteceu, vindo toda a triagem
que acontecia no HU, aumentou o número de patologias mais sérias
no PAC. Isso cria um problema que é o encaminhamento de pacientes
via central de leitos. Anteriormente a esse ajustamento, quem fazia a
filtragem era o HU. Acontece o seguinte: quando o paciente chegava e eles
tinham que o encaminhar para fora, o paciente não queria. Então
eles queriam que a porta fosse via PAC. De fora do hospital, acharam que
seria mais fácil encaminhar.
JH: Mas aí ficou um jogo de empurra-empurra nessa história
da triagem...
Jorge dos Santos: É. Na realidade não podemos ficar jogando
um para o outro, mas o Município também não pode
assumir uma situação que não é de sua competência,
para a qual não temos recursos financeiros e humanos para dar todo
o atendimento. O PAC, já disse, é um posto de atendimento.
Não tem como dar esse suporte.
JH: No caso da polêmica sobre a triagem, o prefeito o chamou de
inexperiente. Isso o abalou de alguma forma?
Jorge dos Santos: Não há problema algum. Fui chamado a uma
reunião, com o Ministério Público, HU e a Regional
de Saúde. O HU questionou o sistema por causa das dificuldades
deles e levou o assunto direto a promotoria. Disse que o fluxo deveria
ser via PAC e o Ministério Público nos impôs isso.
Não se discutiu. Aí é que entra a afirmação
do prefeito sobre minha inexperiência. Naquele momento não
tive alternativa. Não foi uma crítica a mim.
JH: Qual é sua prioridade à frente da secretaria?
Jorge dos Santos: Apesar de o município estar investimento perto
de 20% do orçamento, o que temos é insuficiente. Temos uma
série de projetos para esse ano e dificuldades de recursos. Tem
muita coisa para acontecer e temos que trabalhar no sentido de mudar o
sistema. Do jeito que está vai inchar cada vez mais e piorar o
problema. O foco é reverter a situação. É
fácil? Não. A inversão é voltar o atendimento
às unidades básicas, de uma forma mais eficiente. Dotar
uma estrutura nas unidades de forma a dar maior resolutividade das necessidades
básicas.
JH: Mas como conseguir essa inversão de fluxo se não se
consegue fazer com que os médicos cumpram o expediente?
Jorge dos Santos: O que vai definir o equilíbrio dessa balança
de atendimento para a inversão é a classe médica.
Se tivermos a classe médica de nosso lado, acatando essa filosofia
de inversão, conseguiremos. O foco é ter médico em
todas as unidades básicas durante o expediente. Hoje há
quatro unidades que funcionam até as 22h e queremos ampliar, colocando
mais quatro até 22h. Hoje temos no quadro 125 médicos e
40 estão no PAC. Preciso de mais 119 médicos para resolver
o problema nas unidades básicas, no Samu, Siate, Saúde Mental
e outras áreas.
JH: E porque a secretaria insistiu no contrato com a Associação
Nova Aliança?
Jorge dos Santos: O problema foi a morosidade no concurso, que ficou muito
em cima do fim do contrato com a Oscip. O trâmite de concurso é
complicado. Deveria ter sido feito antes, mas não foi. E nem sei
porque. O fato é que se não tivesse renovado o contrato
com a Oscip, o PAC 2 teria parado, também ocorreria isso em toda
a estrutura de saúde mental e em 12 unidades básicas. Estive
no Ministério Público e expliquei que não tinha alternativas.
Prefiro encarar essa situação a não renovar o contrato
e enfrentar o caos no sistema.
JH: E quanto as denúncias de irregularidades na Farmácia
Básica, com o desvio de medicamentos?
Jorge dos Santos: Se existe denúncia, tem que ser apurada. O que
não pode é denúncia vazia, criando apenas polêmica
e gerando descrédito. Se existe algo real, com documentos, nem
precisa de apuração. Encaminha direto para o Ministério
Público. De fevereiro para cá – desde que assumi a
secretaria -, começamos a fazer um controle. Se existiam problemas
anteriores, não tenho nada documentado. Disseram que havia problemas.
|