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Neopopulismo latino

Roberto Bueno é professor universitário em Guarapuava - rbu@zipmail.com.br

Dentre os fenômenos que ocorrem na América Latina em termos de política externa há um que merece peculiar atenção. O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, entrega-se ao exercício da condição de novo rico comprando títulos públicos de países como Argentina e Equador, despendendo no total US$ 3,5 bilhões. Prometeu desembolsar outros U$ 200 milhões para o Paraguai e a Costa Rica, sendo que a benesse do petróleo mais barato também a estende aos demais e felizes habitantes da próspera América Latina.
O venezuelano apresenta-se mais do que como um político pretensioso e demagogo. É um bufão, que desconsidera as intrínsecas limitações de um recurso em vias de esgotar-se que historicamente caiu em suas mãos para que administrasse. Seu populismo associado à força dos o faz emergir na como um líder regional, o que gerou em Lula mais uma de suas ações de cavalheirismo espontâneo: “mandou” o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) emprestar à Bolívia.
Como de costume, adivinhe, prezado leitor, qual a manchete estampada pelos mesmos jornais alguns dias depois: Lula negou que houvesse interferência. Quem sabe, não sabia... de novo!
Chávez continua falando a mesma linguagem ultrapopulista, nacionalista e demagógica adotada por Morales. Lula, já enganado uma vez pelas articulações de Chávez e seu títere boliviano, Morales, está prestes a sê-lo uma segunda.
Lula volta a crer em Morales, mesmo após a negativa dos fatos assegurados do discurso daquele de que não haveria intervenções ou expropriações dos bens da Petrobrás. Seu discurso interno era o da expropriação, nacionalista feroz. Por aqui, pacífico, cordato. Lula e sua trupe de amadores acreditaram no primeiro, no cordeiro, no espírito benevolente dos homens, algo que evoca o Emílio, de Rousseau. Logo viu-se que não o era e que nada é mesmo assim nas relações internacionais. Aliás, Kelsen já advertia para o problema da falta de caráter científico do direito na esfera das relações interestatais.
Chávez está articulando-se bastante bem com governos de países da região carentes não apenas economicamente, mas, quiçá, principalmente, de instituições políticas sólidas e de uma cultura democrática arraigada na população. A distância é curta até o triunfo dos discursos populistas. Para minimizar tal avanço, a um político megalômano como Lula cabe recordar que suas pretensões de realizar-se como líder devem considerar o provérbio popular: grande gabador, pequeno fazedor.

Oscar da política externa sul-americana

Rafael Melo e Silva é professor e consultor em Blumenau (SC) - meloscbr@terra.com.br

Se fosse criada uma premiação, um Oscar da política externa, já haveria o vencedor para a categoria América do Sul. Nos últimos meses o presidente venezuelano Hugo Chávez comandou a política externa de seu país de forma a obter significativos avanços, relegando a diplomacia brasileira a um segundo plano no cenário regional.
Alguns exemplos recentes desta atuação política destacada por parte do venezuelano podem ser observados já no início de 2006. Com a eleição do novo presidente boliviano Evo Morales, Hugo Chávez aumenta a proximidade das relações diplomáticas entre os dois países. Um dos reflexos diretos dessa aproximação é a crise do gás natural, que inclui intervenção estatal em empresas como a Petrobras e aumento de preços.
Outro projeto político encampado por Hugo Chávez é a Alba. A Alternativa Bolivariana para América Latina e Caribe é uma proposta de integração regional, encabeçada por Venezuela e Cuba, que visa opor-se a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) defendida pelos Estados Unidos. Centrada “na luta contra a pobreza e a exclusão social” já conta com o apoio de diversos países americanos.
Mais recentemente, conforme oficializado durante os dias 20 e 21 de julho na Cúpula do Mercosul, em Córdoba na Argentina, a Venezuela passa a ser membro pleno do Mercosul. Este é um marco para a política externa chavista. Anteriormente o centro de atuação e influência era focado nos países andinos, agora passará a ter maior penetração política e econômica na região do Cone Sul, esfera direta de atuação política brasileira.
Como primeiro passo para incremento de sua presença regional, a Venezuela anuncia a compra de Boden (Bônus do Governo Nacional Argentino). São títulos da dívida pública, emitidos em dólares e com vencimento para 2012, que totalizaram um montante de cerca de US$ 2,1 bilhões. Ainda com a Argentina, Chávez discute a criação de um título binacional para o fomento a projetos estratégicos de investimentos, o Bono del Sur (Bônus do Sul).
No mesmo embalo, busca aproximar-se do Paraguai. O presidente paraguaio Nicanor Duarte Frutos ofereceu ao seu par venezuelano a opção de compra de título da dívida paraguaia com a usina hidrelétrica de Itaipu. Sinalizando de forma positiva a esta possibilidade, Chávez complementa com sua intenção de enviar técnicos do setor petrolífero de seu país para auxiliar os paraguaios a incrementar sua produção nacional.
Desta forma, indiscutivelmente o Oscar da política externa sul-americana deveria ser concedido a Hugo Chávez. Enquanto seus vizinhos sul-americanos conversam, ele vem agindo e galgando a ascensão da zona de influência de seu país. Até o momento, a Venezuela já investiu mais de US$ 6 bilhões para financiar projetos estratégicos à sua política externa em países sul-americanos.
Dentro do Mercosul pôs em marcha uma forte aproximação com Paraguai e Argentina, os próximos passos devem ser Uruguai e Brasil. Lembrando que o desfile de 2006 da escola de samba carioca, Unidos de Vila Isabel, foi financiado pela estatal venezuelana de petróleo PDVSA, que doou R$ 2,15 milhões à escola. Agora, é ver como a diplomacia brasileira reagirá com sua exaltada liderança regional sendo aos poucos posta em xeque pela política externa chavista.

 

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